Uma rede de formação pela educação infantil

As autoras demonstram na obra as suas experiências nas áreas da educação, da cultura e da formação de educadores de creches; o interesse pela tecnologia; e, por fim, os princípios teóricos e práticos que se aliam ao exercício pedagógico. Nesse contexto, já desde 2014/2015 as autoras se empenham em promover o acesso livre a espaços virtuais que tematizem a criança, a sua aprendizagem e o seu desenvolvimento. Dessa forma, ao desenvolverem um trabalho formativo no CENPEC como desenvolvedoras e comentaristas do Blog Tempo de creche, as autoras determinaram a origem de um novo olhar sobre a questão.

As publicações e as respostas aos comentários no Blog encontravam base nas fundamentações teóricas e práticas e nas experiências que as autoras incorporaram ao longo de suas trajetórias, havendo, pois, uma grande diversidade de contribuições não só por parte das editoras do site, como também por via dos seus leitores. Ações neste molde promovem o enriquecimento da comunidade virtual que, na atualidade, integra um fenômeno tecnológico de interação irreversível e que alterou concretamente a realidade da educação infantil e os diálogos que refletem sobre a questão. O portal desenvolvido por Rosset, Rizzi e Webster torna-se, assim, uma rede de envolvimento formativo de equipe que abrange grupos de leitores, de educadores, de coordenadores, de diretores e de famílias. A interação assim estabelecida deu origem ao já referido livro.

Com riquíssima coletânea de fotos e muitas cores, a obra ressalta o viés sobre a criança, o seu desenvolvimento e a construção do seu conhecimento. Os assuntos se distribuem de maneira diversificada e interessante, agrupando-se através de três capítulos: “1. Criança: que ser é esse?”; “2. Território: cultura e natureza”; “3. Professor: estudioso e aprendiz da prática”. Os temas abordados elevam as formas das atuações, das publicações, das reflexões detalhadas e dos conhecimentos desenvolvidos no ambiente do blog “Tempo de creche”.


“A Educação Infantil tem nas mãos a responsabilidade de contribuir para a construção dos diferentes ‘eus’, ajudando as crianças a opinar de acordo com suas preferências, identificar os próprios limites, conhecer as raízes, a cultura e as histórias de suas vidas.”

Trecho da obra

No primeiro capítulo – “Criança: que ser é esse?” –, as autoras impelem o leitor a refletir sobre o sujeito do conhecimento: Como essa criança se constitui? De que forma? Que direitos possui? Como inicia a caminhada em direção a aprendizagem? Que papel ela exerce na família, na sociedade? Como ela constrói esse conhecimento? Será que este nasce pronto ou se constitui com a vivência?        

A condução da obra se desenvolve passando pela concepção de criança e elevando-se às relações existentes no meio externo para que ocorra o desenvolvimento e a aprendizagem desta. Para citar os vínculos, as redes formadas entre os sujeitos em aprendizagem e as suas experiências e estratégias, etc., as autoras citam Howard Gardner (1994) e Jean Piaget (1983). Discorrem, a partir disso, sobre o desenvolvimento intelectual e sobre o anseio que a criança possui pela descoberta e pela novidade. Ademais, descrevem a substancial necessidade da brincadeira, dos jogos de faz de conta e dos jogos dramáticos a estes processos construtivos, haja vista que permeiam e suscitam desejos e perguntas que revelam as dificuldades de cada criança (PIAGET, 1971) – valorizando, com isso, o espírito curioso, as experiências gestuais, as sensações, a criação, a oralidade, o letramento e a imaginação da criança (SOARES, 2017). Abordam, ainda, os ritmos, os tempos e os processos de conquista rotineiros que conferem ao sujeito em aprendizagem a constância, a organização e a estruturação de seu dia a dia.

No segundo capítulo – “Território: cultura e natureza” –, as autoras inferem a importância da compreensão desse sujeito (criança) e da sua inclusão no e com o mundo. Para isso, estabelecem a brincadeira diversa em seus modos e expressões como uma parte viva e dinâmica da cultura, que, por sua vez, conta histórias e perfaz as vivências. Ao aprenderem a valorizar a natureza, por exemplo, as crianças adquirem consciência ambiental e noção de pertencimento global. Outrossim, o livro disponibiliza informações atualizadas sobre as experiências significativas que são abrangidas pelo currículo de Educação Infantil, demonstrando, com isso, a importância dos espaços, das quantidades, das propriedades dos objetos, dos acontecimentos naturais, etc., e de toda a importância desses conhecimentos para o raciocínio matemático e científico da criança.

No terceiro capítulo – “Professor: estudioso e aprendiz da prática” –, elucida-se a importância do educador que compreende a essencialidade do ato de se reciclar continuamente. Em outras palavras, a primordialidade do profissional que compreende o seu papel perante a criança como o de um mediador de redes em dimensões cognitivas; sendo, assim, um promotor de momentos, de expectativas e de propostas que apresenta um vasto repertório de materiais e de atividades, de hipóteses, de previsões e de planejamentos com encadeamento de propostas – agindo na ação pedagógica com intencionalidade, assim como com reflexão e análise. As autoras expõem sugestões de percursos de pesquisa, assim como reflexões que provocam quem as ouve e aprecia.

Em linguagem simples, porém instigante, as autoras refletem sobre a prática na educação infantil, suas relações e as trocas que estabelecem com o meio externo, inferindo diálogos com os pais e outros educadores e questionamentos sobre o sujeito pensado e sua forma singular e universal de se desenvolver.

Resenha do livro Educação infantil: um mundo de janelas abertas, escrito por Joyce Menasce Rosset, Maria Ângela Rizzi e Maria Helena Webster e publicado pela Edelbra (Porto Alegre, 2017).

Sobre a resenhista:

Tania Márcia da Cunha Rodrigues é mestre em Educação pela UFRGS/Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Eixo 1: Psicopedagogia, Sistemas de Ensino-Aprendizagem e Educação em Saúde, Pós-Graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Universidade La Salle/Canoas/RS (2014); Especialista em Educação Especial e Processos Inclusivos pela UFRGS/Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2012); Pós-Graduada em “Gestão do Processo Educativo e Políticas Educacionais” pela UFRN/Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2006). Possui Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade Federal de Santa Maria (1999), Bacharelado em Teologia pelo STEN/Seminário Teológico Evangélico de Natal/RN (2007). Tem experiência na área de Educação, Educação Especial inclusiva e Psicopedagogia Clínica e Institucional.

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