Para ler o presente de um país sem memória

Aproveitando a expressão clichê, há livros que “caem como uma luva”. Setenta (vencedor do Prêmio Paraná de Literatura 2017) surge em meio a um momento em que correntes revisionistas tentam transformar fatos históricos em ponto de vista. Basta uma pesquisa rápida nas livrarias e na internet para encontrarmos uma série de obras que tentam sustentar o insustentável: que a ditadura no Brasil não existiu, que “não foi tão bem assim”. Mas, como dizem, o problema não é só ideológico, é também estético. E antes que eu seja acusado de reduzir Setenta a um papel panfletário, o que seria injusto, gostaria de observar que Setenta também é uma baita (tentando reproduzir uma dicção gaúcha presente na obra) história com um personagem complexo. Em Setenta, definitivamente, e para a sorte do leitor, o problema não é estético.

A novela acompanha Raul, um bancário de vida pacata que mora com a mãe no centro de Porto Alegre e que vê tudo desmoronar ao ser confundido com um dos suspeitos de participação no sequestro malsucedido do cônsul americano Curtis Cutter. A narrativa principal se passa em alguns dias do mês de junho, com dois episódios isolados, um que acompanha a vida do carcereiro e outro que mostra a tentativa de sequestro do cônsul. A estrutura da obra não é linear, começando pela libertação de Raul, o final da história, e recuando para conhecermos o personagem e compreendermos a motivação de sua prisão, sempre retomando o dia da libertação e os próximos passos de Raul.  “Tudo foi tão rápido quanto incompreensível”, nos revela o narrador. Não demora muito até que o personagem perceba que não foi sequestrado pelos “ferozes subversivos, inimigos da pátria”, como ele acredita, e sim pego por militares que o jogaram em uma cela “com pouco mais de dois metros, sem nenhuma janela, trancada por grades espessas de ferro e onde não se adivinhavam a noite e o dia.”

Raul sofria pelo término do namoro e no dia da prisão só queria ir ao cinema e tomar uma cerveja depois. Ele, que nem se envolvia com política, acompanhando apenas pelos noticiários e jornais os acontecimentos, agora sofria por ter que lutar pela sua sobrevivência. Mas como lutar quando o inimigo quer, a qualquer custo, uma confissão que jamais poderá ter? ‘A qualquer custo’, essa expressão nos coloca diante da barbárie das torturas sofridas pelo personagem, que negam a epígrafe do livro, que traz em letras garrafais uma fala de Alfredo Buzaid, ministro da Justiça de 1969 a 1974: “Não há tortura no Brasil”. Como não se arrepiar no capítulo em que o Doutor Pablo, homem que veio do Rio de Janeiro especialmente para ensinar técnicas mais eficientes para se obter confissão de prisioneiros, usa Raul como cobaia? É interessante como nos capítulos de interrogatório e tortura, o tempo da narrativa é mais lento, mimetizando uma impressão de um instante que parece nunca acabar.

Além de se passar na ditadura de Médici, conhecido como o mais repressivo dos governos, Setenta traz um outro elemento indissociável da cultura brasileira: o futebol. É Copa do Mundo no México, e o Brasil está na final contra a Itália. A libertação de Raul coincide com o dia da final, momento em que todos são apenas um. “Menos os comunistas, esses torcem contra o Brasil”, anuncia o carcereiro da prisão em um dos meus momentos preferidos da obra, quando Raul, após ser solto, tendo que gastar um tempo até voltar para casa, vai até um bar e o encontra. É nesse momento que nós percebemos, e que o próprio personagem percebe, graças à habilidade do autor em construir tão bem a tensão, que ele, de certa forma, continua preso. O carcereiro aparece, senta-se ao seu lado, pede uma cerveja e uma torrada, conversa com ele, lembrando-o, sempre em tom de ameaça, que ele deve gritar, que ele deve comemorar, que quem não torce para o Brasil é comunista. E Raul tem a certeza: não está livre. Estará algum dia?

Setenta é também sobre a cegueira que nos afasta de problemas que achamos não terem nada a ver com a nossa vida, mas que na verdade têm. Raul prefere não se envolver com política, ignorando o que se passa no país, preferindo acreditar no que dizem os jornais. Aos poucos ele vai abrindo os olhos e percebendo, pela primeira vez, por que é preciso lutar contra o governo. E, ao abrir os olhos, não pode mais fechá-los. E, ao abrir os olhos, percebe que há outras tantas pessoas de “olhos fechados e ignorantes”, exatamente como ele era, levando a vida como se não houvesse prisioneiros em celas minúsculas sofrendo tudo que Raul sofreu.

Setenta constrói uma memória que falta a muitos brasileiros. Ainda que perturbe por representar o horror, acalenta por não tentar escondê-lo. Pegando uma formulação de James Wood, em Como funciona a ficção: “A literatura nos ensina a notar melhor a vida; praticamos isso na vida, o que nos faz, por sua vez, ler melhor o detalhe na literatura, o que, por sua vez, nos faz ler melhor a vida.” Setenta, de Henrique Schneider, consegue nos fazer notar a vida muito mais do que gostaríamos.

Resenha do livro Setenta, de Henrique Schneider, publicado pela Não Editora (Porto Alegre, 2019).

Sobre o resenhista:

Rafael Prudencio é graduado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando em Estudos Literário Aplicados: Literatura, Ensino e Escrita Criativa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.