Reflexões atuais para a Sociologia brasileira

Diferentes abordagens de um dos sociólogos mais importantes do Brasil, Gabriel Cohn (1938), emergem na leitura de Temporalidades, Timbres e Pulsações. Além do texto que dá nome ao livro, originalmente publicado em 2015, nos é apresentado também o ensaio Civilização, Cidadania e Barbárie (2006). No primeiro, o autor faz uma reflexão sobre o que é o tempo e aponta uma nova perspectiva para estudos sobre o tema, enquanto no segundo discorre sobre o conceito de civilidade para falar de questões como democracia, direitos e respeito – ideias hoje tão escassas no cotidiano brasileiro.

Em Temporalidades, Timbres e Pulsações, Cohn homenageia o sociólogo português Hermínio Martins (1934), partindo do seu artigo Time and theory in sociology (1974) para reforçar algumas de suas concepções e acrescentar novas ideias ao debate sociológico acerca do tempo. Com Martins, ele compartilha a noção de que questões de temporalidade são importantes não apenas no nível da história, mas também da ação que orienta os indivíduos. Dessa forma, busca retomar a dimensão temporal na análise das questões sociais.

Também utiliza outros dois conhecidos sociólogos para dar um passo além do seu homenageado e construir sua definição de tempo. De Robert Merton, busca a ideia de ‘sistemas de tempo linear e abstrato’, que destaca a diversidade de ritmos da vida social e o caráter não linear da coordenação das atividades. De Alfred Schutz, recorre à tese das ‘múltiplas realidades’ sociais, cada uma com um ‘estilo temporal’ próprio.

” […] o tempo não é onde os eventos se dão, e sim a própria distribuição dos eventos e das relações entre eles. […] É nessa perspectiva que se torna possível, por exemplo, não conceber a história como mero fluxo de eventos e, sim, no sentido mais forte da expressão, como tempo socialmente organizado.”

p.22

Ao contrário da noção de tempo linear consolidada na analogia da “flecha do tempo” – imagem criada pelo astrônomo Arthur Eddington em 1927 para tratar do caráter orientado do tempo –, Cohn defende que é necessário mudar a perspectiva de análise e concentrar a atenção na “vibração do arco e não na trajetória da flecha”. “É a vibração da fibra do arco que se transmite à flecha, e é a composição e o entrelaçamento dos seus diversos filamentos, do mais delicado ao mais sólido, que imprimem um timbre ao movimento todo” (p. 23).

Conclui apontando que é necessário um esforço conjunto de todas as áreas do conhecimento para que uma concepção mais abrangente e “generosa” do conceito de tempo seja possível.

No outro ensaio que compõe o livro, Civilização, Cidadania e Barbárie, Cohn coloca a civilidade como síntese das preocupações de nosso tempo. E ela só ganha sentido dentro do paradigma que concebe a política pelos vínculos que se formam entre os indivíduos, nos quais o que está em questão é a capacidade destes de construírem seu próprio mundo, o espaço público, de forma coletiva. Assim, a construção de uma cultura política de civilidade é a construção da própria civilização, além de ser a única maneira de atribuirmos sentido às ideias da esfera pública e da sociedade civil. Todavia, ao olhar para a sociedade brasileira, o autor nos faz refletir sobre o esvaziamento da esfera pública e a falta da civilidade.

A partir desses apontamentos, Cohn pretende mostrar os diversos desafios que temos que enfrentar para refletir sobre a nossa sociedade e, principalmente, para intervirmos nela. Para que isso seja feito, segundo o autor, é necessário o esforço de se produzir uma “nova e robusta” teoria da ação social, ou melhor, da “experiência social”, ressaltando que desde Marx, Simmel e Lukács pouco foi feito nesse sentido e, que, sem um arcabouço teórico como instrumento se torna difícil pensarmos em “conduta cidadã”, “organização cidadã” e todas as questões que envolvem a complexa ideia de cidadania. Propõe, assim, pensarmos em responsabilidade para contrapor-se a indiferença, que é a marca do sistema político e econômico na fase atual do capitalismo. Responsabilidade enquanto “capacidade e dever ético de reconhecer o interlocutor a quem se responde”. A indiferença é a barbárie.

“Qual é nossa tarefa?”, pergunta, por fim, o autor. Diante do cenário que se nos apresenta, nosso dever é sermos persistentes, insistentes e verdadeiramente teimosos, nos termos de Cohn, para travarmos os debates que são necessários e construirmos ideias e práticas que orientem nossa ação em direção a essa sociedade verdadeiramente civilizada.

Sobre a Coleção:
Publicados em Portugal pela Oca Editorial, os Cadernos Ultramares trazem uma seleção de ensaios brasileiros clássicos e contemporâneos, criando um panorama abrangente do pensamento brasileiro. No Brasil, a coleção só pode ser adquirida por assinatura.

Entre os autores estão: Roberto Schwarz, Silviano Santiago, Mário de Andrade, Lilia Schwarcz, Maria Rita Kehl, Tânia Stolze Lima, Gabriel Cohn, Sérgio Buarque de Holanda, Paulo Arantes, Bruno Torturra, Carla Rodrigues, Francisco Bosco, Raquel Rolnik, Vladimir Safatle, Ismail Xavier, Nuno Ramos, Mário Pedrosa, José Miguel Wisnik, Rogério Sganzerla, Glauber Rocha, Suely Rolnik, Vitor Ramil, Jorge Mautner, Rogério Skylab, Tales Ab’Saber, Idelber Avelar, Walter Garcia, Alberto Pucheu, Antônio Risério, Benedito Nunes, Luiz Tatit, Bento Prado Jr., Mário Novello e Michael Löwy.


Resenha do livro Temporalidades, Timbres e Pulsações, de Gabriel Cohn, publicado pela Oca Editorial (Lisboa, 2019)

Sobre a resenhista:

Daniela Damion é mestranda no PPG em Sociologia da UFRGS. Bacharel em Ciências Sociais pela UFRGS, membro do Grupo de Pesquisa em Trabalho e Justiça Social (JusT). Agenda de pesquisa focada nos estudos sobre Trabalho; Transformações no mercado de trabalho, nas relações de trabalho e de emprego; Feminismo.

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