Um olhar sobre o Brasil

Um livro dolorosamente necessário, cuja leitura, por vezes, beira o insuportável, mas que é difícil de largar. Isso porque, em Brasil, construtor de ruínas, Eliane Brum, cronista sensível de seu tempo, recria a atmosfera de certos acontecimentos recentes de nosso país. Assim, consegue reavivar em nossa memória cada episódio doloroso do processo que desembocou na chegada ao poder do bolsonarismo, movimento que, cada vez mais, se configura como um risco para a democracia e, em última instância, à civilização.

De qualquer forma, não dá para ficar indiferente às histórias que a autora recria. Claro, alguns poderão dizer que sua narrativa tem lado – para usar um termo da moda, “viés” –, mas isso em nada desqualifica a rigorosa construção textual desta que se tornou uma das repórteres mais premiadas do país e uma colunista de opinião prestigiada.

Organizado a partir das reportagens produzidas pela autora desde a campanha vitoriosa de Lula à presidência do Brasil, em 2002, até os primeiros cem dias do governo Bolsonaro, Brasil, construtor de ruínasvemse somar a outras publicações na constituição de uma biblioteca capaz de, nas palavras da jornalista, nos ajudar a compreender o presente e a inspirar o futuro.

“Para refundar o Brasil é preciso perceber que as periferias são o centro”

Um dos episódios narrados lança uma luz particularmente cruel sobre o racismo, sempre negado e diariamente praticado nestas terras, por meio da repressão aos “rolezinhos” que ocorriam às vésperas do natal de 2013. Pelas redes sociais, centenas de jovens da periferia combinavam encontros em shoppings próximos de suas comunidades para “zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras”… O movimento foi rapidamente criminalizado e seus participantes submetidos a todo tipo de constrangimento, desde a revista ilegal até a detenção, sem qualquer justificativa plausível. A mensagem era clara: a classe média que frequentava esses templos do consumo mostrava, em falas e atos, que não aceitaria dividir o território em que poderia delimitar sua superioridade. Naqueles espaços, guris e gurias pobres, majoritariamente negros, não eram bem-vindos.

Assim, ruiu o mito da democracia racial brasileira, expondo o apartheid social em que jovens foram tratados como bandidos, pelo crime de terem ousado se divertir nos lugares onde a classe média fazia as compras de fim de ano. Se você leitor já presenciou o tratamento dispensado aos grupos de jovens negros nas entradas desses locais, sabe muito bem do que estou falando. Ali, segundo Eliane, o projeto de redução de desigualdades de Lula começava a desmoronar.  

A leitura do texto lembrou-me uma reflexão de Simone Weil (1909-1943), na qual ela procura traçar uma conexão entre o tempo e a ação humana: “Tudo o que contém o momento presente é um dom”. Fiz esta conexão porque a frase cunhada pela filósofa francesa há mais de 70 anos me parece expressar uma necessidade urgente deste momento da história brasileira.

Eliane nos diz que é preciso retomar a palavra, dar-lhe novo sentido, usar de sua força. Eu concluo que, mais do que nunca, é preciso alimentar a esperança, apesar do que já passou. E acrescento, usando uma afirmação do professor e filósofo Fernando Rey Puente, “passado e futuro só são reais no presente e este, como diriam unanimemente os estoicos, depende apenas de nós mesmos. Só nele podemos agir e tão somente assim poderemos vir a nos tornar aqueles ou aquelas que desejamos ser”.


Resenha do livro Brasil, construtor de ruínas – um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro, de Eliane Brum, publicado pelo Arquipélago Editorial (Porto Alegre, 2019)

Sobre a resenhista:

Ânia Chala é jornalista da Secretaria de Comunicação da UFRGS e doutora em Memória Social.

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