{"id":104,"date":"2019-05-13T14:44:33","date_gmt":"2019-05-13T17:44:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=104"},"modified":"2022-08-08T14:36:11","modified_gmt":"2022-08-08T17:36:11","slug":"outono-do-capitalismo-primavera-dos-povos-qual-o-caminho-para-a-convergencia-dessas-estacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/outono-do-capitalismo-primavera-dos-povos-qual-o-caminho-para-a-convergencia-dessas-estacoes\/","title":{"rendered":"Para pensar a combina\u00e7\u00e3o das esta\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"\n<p>Em <em>A implos\u00e3o do capitalismo contempor\u00e2neo &#8211; outono do capitalismo, primavera dos povos?<\/em> (2018) Samir Amin (1931-2018) resgata conceitos trabalhados ao longo de sua trajet\u00f3ria intelectual, no intuito de refletir sobre o papel da esquerda diante da obsolesc\u00eancia do sistema capitalista contempor\u00e2neo e sobre as respectivas articula\u00e7\u00f5es centro-periferia. O autor eg\u00edpcio foi um dos principais te\u00f3ricos da corrente do sistema-mundo, preocupou-se ao longo de sua trajet\u00f3ria com um marxismo capaz de acolher a realidade dos pa\u00edses perif\u00e9ricos do sistema capitalista. <\/p>\n\n\n\n<p>O livro \u00e9 constitu\u00eddo de cinco cap\u00edtulos em formato de ensaios que, de forma combinada, apresentam um panorama geral das contribui\u00e7\u00f5es de Amin para a Economia Pol\u00edtica Internacional. As an\u00e1lises propostas se articulam com base na defini\u00e7\u00e3o do sistema atual como o Capitalismo dos Monop\u00f3lios Generalizados, capitaneado pela tr\u00edade &#8211; Estados Unidos, Jap\u00e3o e Europa. Outono do capitalismo, porque \u00e9 evidente que este nada mais tem a oferecer \u00e0 humanidade, al\u00e9m de sua autodestrui\u00e7\u00e3o, por conta da acentua\u00e7\u00e3o de suas contradi\u00e7\u00f5es internas. Primavera dos povos porque \u00e9 o momento prop\u00edcio para que os oprimidos pensem estrat\u00e9gias em favor da supera\u00e7\u00e3o para o socialismo, entendido como uma etapa superior da civiliza\u00e7\u00e3o. Contudo, h\u00e1 um <em>gap<\/em> dram\u00e1tico entre o outono e a primavera que s\u00f3 h\u00e1 de ser preenchido caso a esquerda radical se reconstitua diante dos desafios atuais. <\/p>\n\n\n\n<p>O capitalismo hoje possui formato muito particular; isso demanda que alguns conceitos b\u00e1sicos para o marxismo sejam ressignificados, fortalecendo, assim, o surgimento de uma nova estrat\u00e9gia da esquerda. Por exemplo, os dominantes s\u00e3o uma oligarquia financeira sustentada pela nova classe m\u00e9dia &#8211; na periferia, esse papel \u00e9 exercido pela classe especuladora, homens de neg\u00f3cio, n\u00e3o empreendedores criativos; os dominados s\u00e3o os segmentos de status diversificados para mascarar seu pertencimento comum ao proletariado; a burguesia se distancia do tradicionalismo anterior, se tornando uma classe mais restrita e composta de rec\u00e9m-chegados que se impuseram mais pelo sucesso de suas opera\u00e7\u00f5es financeiras do que por sua contribui\u00e7\u00e3o para os desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos da \u00e9poca. O que n\u00e3o mudou? A rela\u00e7\u00e3o de coniv\u00eancia entre poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>A discuss\u00e3o proposta sobre periferia e semiperiferia \u00e9 norteada pelo conceito de pa\u00eds emergente, conjunto de transforma\u00e7\u00f5es com o prop\u00f3sito elementar de constru\u00e7\u00e3o e fortalecimento de uma economia autocentrada. As ambi\u00e7\u00f5es desse tipo de pa\u00eds entram em conflito com os objetivos estrat\u00e9gicos da tr\u00edade, uma vez que pleiteiam uma ordem internacional mais inclusiva. A China \u00e9 o modelo aut\u00eantico de emerg\u00eancia, por desenvolver um projeto soberano coerente e adequado \u00e0s suas pr\u00f3prias necessidades, sua integra\u00e7\u00e3o \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o financeira segue parcial e controlada &#8211; vide o sistema banc\u00e1rio completamente nacional e focado no mercado de cr\u00e9dito dom\u00e9stico. O capital estrangeiro s\u00f3 consegue alcan\u00e7ar a China se beneficiando de baixos sal\u00e1rios e bons lucros, caso seus planos sejam compat\u00edveis com os do governo chin\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre o centro, Amin foca sua an\u00e1lise na implos\u00e3o do sistema europeu, que &#8211; pela arrog\u00e2ncia de se considerar um conjunto de pa\u00edses unidos, pot\u00eancia tal qual os Estados Unidos &#8211; negligencia o perigo da heterogeneidade e da estratifica\u00e7\u00e3o inerente \u00e0 sua composi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe uma identidade comum, apenas a ilus\u00e3o do leste de partilhar da europeidade da parte da tr\u00edade capitalista. Mais do que isso, assim como est\u00e1 concebida, a Uni\u00e3o Europeia segue sendo uma institucionaliza\u00e7\u00e3o problem\u00e1tica, com valores globalizantes e liberais. Outra Europa \u00e9 poss\u00edvel, desde que as soberanias nacionais sejam reconhecidas em sua diversidade e que o capitalismo em si mude sua l\u00f3gica de domina\u00e7\u00e3o. A esquerda consegue enxergar tal necessidade, mas falha em mobilizar for\u00e7as sociais e pol\u00edticas capazes de inverter o jogo.  <\/p>\n\n\n\n<p>A obra oferece um bom aparato para refletir acerca da atual conjuntura. Fen\u00f4menos como os debates na Uni\u00e3o Europeia sobre o seu or\u00e7amento e a continuidade da Pol\u00edtica de Coes\u00e3o, o Brexit capitaneado pelo conservadorismo, a rea\u00e7\u00e3o anti-imigra\u00e7\u00e3o t\u00e3o vinculada \u00e0 direita colocam sob questionamento o futuro da integra\u00e7\u00e3o nesse continente. Embora n\u00e3o por esses meios, o fim n\u00e3o seria de todo mal para o autor. Por outro lado, o aumento da influ\u00eancia do ide\u00e1rio direitista, defensor do avan\u00e7o da tr\u00edade sobre a periferia do sistema, \u00e9 refletido no esfacelamento de iniciativas genu\u00ednas do Sul Global, como a UNASUL, \u00e0 despeito da inser\u00e7\u00e3o de membros perif\u00e9ricos na OTAN. Em favor da supera\u00e7\u00e3o do sistema de Monop\u00f3lios Generalizados, \u00e9 preciso capacidade disruptiva e de inova\u00e7\u00e3o da esquerda diante de tamanhos desafios. Ou j\u00e1 optamos pelo que o autor denomina de \u201cmeros ajustes \u00e0s vicissitudes do sistema em implos\u00e3o\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro <strong>A implos\u00e3o do capitalismo contempor\u00e2neo &#8211; outono do capitalismo, primavera dos povos?<\/strong>, escrito por Samir Amin e publicado pela <a href=\"http:\/\/www.editora.ufrj.br\/produto\/183\/a-implosao-do-capitalismo-contemporaneo--outono-do-capitalismo,-primavera-dos-povos?\">UFRJ<\/a> (Rio de Janeiro, 2018).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><strong><em>Sobre a resenhista:<\/em><\/strong><br><br><strong>Camille Amorim<\/strong> \u00e9 Mestranda no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Estudos Estrat\u00e9gicos Internacionais (PPGEEI\/UFRGS) e especialista em Estrat\u00e9gia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais Contempor\u00e2neas pelo mesmo. Bacharel pela Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB), \u00e9 bolsista CAPES e membro do Laborat\u00f3rio de An\u00e1lise de Pol\u00edtica Externa Brasileira (Lab-PEB\/UFRGS). Sua agenda de pesquisa est\u00e1 focada nas rela\u00e7\u00f5es Brasil-\u00c1frica no S\u00e9culo XXI.&nbsp; <br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em A implos\u00e3o do capitalismo contempor\u00e2neo &#8211; outono do capitalismo, primavera dos povos? (2018) Samir Amin (1931-2018) resgata conceitos trabalhados ao longo de sua trajet\u00f3ria intelectual, no intuito de refletir sobre o papel da esquerda diante da obsolesc\u00eancia do sistema capitalista contempor\u00e2neo e sobre as respectivas articula\u00e7\u00f5es centro-periferia. 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