{"id":134,"date":"2019-05-14T08:58:45","date_gmt":"2019-05-14T11:58:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=134"},"modified":"2022-08-08T14:35:07","modified_gmt":"2022-08-08T17:35:07","slug":"para-ler-o-presente-de-um-pais-sem-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/para-ler-o-presente-de-um-pais-sem-memoria\/","title":{"rendered":"Para ler o presente de um pa\u00eds sem mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p>Aproveitando a express\u00e3o clich\u00ea, h\u00e1 livros que \u201ccaem como uma luva\u201d. <em>Setenta <\/em>(vencedor do Pr\u00eamio Paran\u00e1 de Literatura 2017) surge em meio a um momento em que correntes revisionistas tentam transformar fatos hist\u00f3ricos em ponto de vista. Basta uma pesquisa r\u00e1pida nas livrarias e na internet para encontrarmos uma s\u00e9rie de obras que tentam sustentar o insustent\u00e1vel: que a ditadura no Brasil n\u00e3o existiu, que \u201cn\u00e3o foi t\u00e3o bem assim\u201d. Mas, como dizem, o problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ideol\u00f3gico, \u00e9 tamb\u00e9m est\u00e9tico. E antes que eu seja acusado de reduzir <em>Setenta<\/em> a um papel panflet\u00e1rio, o que seria injusto, gostaria de observar que <em>Setenta<\/em> tamb\u00e9m \u00e9 uma baita (tentando reproduzir uma dic\u00e7\u00e3o ga\u00facha presente na obra) hist\u00f3ria com um personagem complexo. Em <em>Setenta<\/em>, definitivamente, e para a sorte do leitor, o problema n\u00e3o \u00e9 est\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p>A novela acompanha\nRaul, um banc\u00e1rio de vida pacata que mora com a m\u00e3e no centro de Porto Alegre e\nque v\u00ea tudo desmoronar ao ser confundido com um dos suspeitos de participa\u00e7\u00e3o no\nsequestro malsucedido do c\u00f4nsul americano Curtis Cutter. A narrativa principal se\npassa em alguns dias do m\u00eas de junho, com dois epis\u00f3dios isolados, um que\nacompanha a vida do carcereiro e outro que mostra a tentativa de sequestro do\nc\u00f4nsul. A estrutura da obra n\u00e3o \u00e9 linear, come\u00e7ando pela liberta\u00e7\u00e3o de Raul, o\nfinal da hist\u00f3ria, e recuando para conhecermos o personagem e compreendermos a\nmotiva\u00e7\u00e3o de sua pris\u00e3o, sempre retomando o dia da liberta\u00e7\u00e3o e os pr\u00f3ximos\npassos de Raul. &nbsp;\u201cTudo foi t\u00e3o r\u00e1pido\nquanto incompreens\u00edvel\u201d, nos revela o narrador. N\u00e3o demora muito at\u00e9 que o\npersonagem perceba que n\u00e3o foi sequestrado pelos \u201cferozes subversivos, inimigos\nda p\u00e1tria\u201d, como ele acredita, e sim pego por militares que o jogaram em uma\ncela \u201ccom pouco mais de dois metros, sem nenhuma janela, trancada por grades\nespessas de ferro e onde n\u00e3o se adivinhavam a noite e o dia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Raul sofria pelo t\u00e9rmino do namoro e no dia da pris\u00e3o s\u00f3 queria ir ao cinema e tomar uma cerveja depois. Ele, que nem se envolvia com pol\u00edtica, acompanhando apenas pelos notici\u00e1rios e jornais os acontecimentos, agora sofria por ter que lutar pela sua sobreviv\u00eancia. Mas como lutar quando o inimigo quer, a qualquer custo, uma confiss\u00e3o que jamais poder\u00e1 ter? &#8216;A qualquer custo&#8217;, essa express\u00e3o nos coloca diante da barb\u00e1rie das torturas sofridas pelo personagem, que negam a ep\u00edgrafe do livro, que traz em letras garrafais uma fala de Alfredo Buzaid, ministro da Justi\u00e7a de 1969 a 1974: \u201cN\u00e3o h\u00e1 tortura no Brasil\u201d. Como n\u00e3o se arrepiar no cap\u00edtulo em que o Doutor Pablo, homem que veio do Rio de Janeiro especialmente para ensinar t\u00e9cnicas mais eficientes para se obter confiss\u00e3o de prisioneiros, usa Raul como cobaia? \u00c9 interessante como nos cap\u00edtulos de interrogat\u00f3rio e tortura, o tempo da narrativa \u00e9 mais lento, mimetizando uma impress\u00e3o de um instante que parece nunca acabar. <\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de se passar na ditadura de M\u00e9dici, conhecido como o mais repressivo dos governos, <em>Setenta<\/em> traz um outro elemento indissoci\u00e1vel da cultura brasileira: o futebol. \u00c9 Copa do Mundo no M\u00e9xico, e o Brasil est\u00e1 na final contra a It\u00e1lia. A liberta\u00e7\u00e3o de Raul coincide com o dia da final, momento em que todos s\u00e3o apenas um. &#8220;Menos os comunistas, esses torcem contra o Brasil&#8221;, anuncia o carcereiro da pris\u00e3o em um dos meus momentos preferidos da obra, quando Raul, ap\u00f3s ser solto, tendo que gastar um tempo at\u00e9 voltar para casa, vai at\u00e9 um bar e o encontra. \u00c9 nesse momento que n\u00f3s percebemos, e que o pr\u00f3prio personagem percebe, gra\u00e7as \u00e0 habilidade do autor em construir t\u00e3o bem a tens\u00e3o, que ele, de certa forma, continua preso. O carcereiro aparece, senta-se ao seu lado, pede uma cerveja e uma torrada, conversa com ele, lembrando-o, sempre em tom de amea\u00e7a, que ele deve gritar, que ele deve comemorar, que quem n\u00e3o torce para o Brasil \u00e9 comunista. E Raul tem a certeza: n\u00e3o est\u00e1 livre. Estar\u00e1 algum dia?<\/p>\n\n\n\n<p><em>Setenta<\/em> \u00e9 tamb\u00e9m sobre a cegueira que nos afasta de problemas que achamos n\u00e3o terem nada a ver com a nossa vida, mas que na verdade t\u00eam. Raul prefere n\u00e3o se envolver com pol\u00edtica, ignorando o que se passa no pa\u00eds, preferindo acreditar no que dizem os jornais. Aos poucos ele vai abrindo os olhos e percebendo, pela primeira vez, por que \u00e9 preciso lutar contra o governo. E, ao abrir os olhos, n\u00e3o pode mais fech\u00e1-los. E, ao abrir os olhos, percebe que h\u00e1 outras tantas pessoas de \u201colhos fechados e ignorantes\u201d, exatamente como ele era, levando a vida como se n\u00e3o houvesse prisioneiros em celas min\u00fasculas sofrendo tudo que Raul sofreu.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Setenta<\/em> constr\u00f3i uma mem\u00f3ria que falta a muitos brasileiros. Ainda que perturbe por representar o horror, acalenta por n\u00e3o tentar escond\u00ea-lo. Pegando uma formula\u00e7\u00e3o de James Wood, em <em>Como funciona a fic\u00e7\u00e3o<\/em>: \u201cA literatura nos ensina a notar melhor a vida; praticamos isso na vida, o que nos faz, por sua vez, ler melhor o detalhe na literatura, o que, por sua vez, nos faz ler melhor a vida.\u201d <em>Setenta<\/em>, de Henrique Schneider, consegue nos fazer notar a vida muito mais do que gostar\u00edamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro&nbsp;<\/em><strong>Setenta<\/strong><em>, de Henrique Schneider<\/em>, <em>publicado pela <a href=\"http:\/\/livraria.dublinense.com.br\/pd-659603-setenta-henrique-schneider.html\">N\u00e3o Editora<\/a> (Porto Alegre, 2019).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><strong><em>Sobre o resenhista:<\/em><\/strong><br><br><strong>Rafael Prudencio<\/strong> \u00e9 graduado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando em Estudos Liter\u00e1rio Aplicados: Literatura, Ensino e Escrita Criativa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aproveitando a express\u00e3o clich\u00ea, h\u00e1 livros que \u201ccaem como uma luva\u201d. 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