{"id":199,"date":"2019-05-21T15:23:54","date_gmt":"2019-05-21T18:23:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=199"},"modified":"2022-08-08T14:34:47","modified_gmt":"2022-08-08T17:34:47","slug":"vicios-e-virtudes-da-historia-profissional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/vicios-e-virtudes-da-historia-profissional\/","title":{"rendered":"V\u00edcios e virtudes da hist\u00f3ria profissional"},"content":{"rendered":"\n<p>Chega em boa hora a tradu\u00e7\u00e3o de Angela Xavier de Brito para\num dos livros mais recentes do historiador Christophe Charle, publicado na\nFran\u00e7a em 2013. Pautado por quatro d\u00e9cadas de pr\u00e1tica com a pesquisa hist\u00f3rica\ne a forma\u00e7\u00e3o de professores, <em>Homo\nhistoricus<\/em> n\u00e3o apenas revela o estado atual da escrita da hist\u00f3ria naquele\npa\u00eds, com seus avan\u00e7os te\u00f3rico-metodol\u00f3gicos h\u00e1 muito tempo difundidos na\nhistoriografia brasileira e em outros circuitos intelectuais nacionais, mas\ntoca tamb\u00e9m em temas delicados do campo, sem medo de alertar para os perigos da\nsuperespecializa\u00e7\u00e3o e de revelar muitas das falhas explicativas de uma\ndisciplina segmentada em territ\u00f3rios tem\u00e1ticos cada vez mais r\u00edgidos e\nautocentrados. <\/p>\n\n\n\n<p>Isso tudo num momento em que gestores respons\u00e1veis pelas\npol\u00edticas de educa\u00e7\u00e3o e pesquisa na Fran\u00e7a se agarram a concep\u00e7\u00f5es tecnicistas\nda miss\u00e3o universit\u00e1ria, buscando um manejo supostamente eficiente dos recursos\np\u00fablicos, mas que desvaloriza os conhecimentos human\u00edsticos e enfraquece as\ncondi\u00e7\u00f5es de trabalho e a autonomia das investiga\u00e7\u00f5es de historiadores e\ncientistas sociais. Uma realidade que o Brasil conhece muito bem h\u00e1 algum\ntempo, mas que se torna especialmente dram\u00e1tica com os ataques atuais ao\npensamento cr\u00edtico, \u00e0s ci\u00eancias e \u00e0 escola\/universidade, num clima \u00e0s vezes\ndelirante de anti-intelectualismo que domina a mente de parcela da classe\npol\u00edtica e do novo governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como na Fran\u00e7a, o texto de Charle pode ter o efeito de\ndesestabilizar o leitor brasileiro, principalmente os profissionais da \u00e1rea,\nmas tamb\u00e9m pode fortalecer e unificar a defesa de uma hist\u00f3ria cientificamente\norientada e preocupada com os problemas do presente. Desde as primeiras\np\u00e1ginas, o autor explicita as suas filia\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, incluindo a d\u00edvida para com\no soci\u00f3logo Pierre Bourdieu \u2013 manifestada no t\u00edtulo adaptado do seu cl\u00e1ssico <em>Homo academicus<\/em> (no Brasil, publicado em\n2011 pela EdUFSC, com tradu\u00e7\u00e3o de Ione Ribeiro Valle), sobre as regras do campo\nuniversit\u00e1rio franc\u00eas \u2013 e ressalta os ganhos de sua perspectiva comparatista \u2013\nou \u201cGlobal\u201d, para usar um termo de moda \u2013 da hist\u00f3ria sociocultural. Mas deixa\nclaro que n\u00e3o se trata de mais uma obra de \u201cprofiss\u00e3o de f\u00e9\u201d: \u201ca volta ao\npassado dos debates ou das controv\u00e9rsias s\u00f3 tem sentido se servir de b\u00fassola a\nquest\u00f5es de atualidade historiogr\u00e1fica e s\u00f3 \u00e9 frut\u00edfera se pensada como uma\ngin\u00e1stica para elaborar boas quest\u00f5es para a atualidade, n\u00e3o para conseguir\nvit\u00f3rias f\u00e1ceis em combates j\u00e1 travados em que se defendem, por certo, os\nvencedores designados pela posteridade\u201d (p. 15). Ainda assim, pode ser lido\ncomo um livro de combate, na melhor tradi\u00e7\u00e3o francesa do g\u00eanero, que remonta,\npelo menos, aos questionamentos de Marc Bloch e Lucien Febvre, fundadores da\nchamada escola dos Annales ou Nova Hist\u00f3ria, sobre o of\u00edcio do historiador.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu grande inimigo parece ser aquilo que denomina de \u201cl\u00f3gica\ndo territ\u00f3rio\u201d, que perspicazmente equipara ao modelo pol\u00edtico confederado\nsu\u00ed\u00e7o: \u201cCada cant\u00e3o da hist\u00f3ria se responsabiliza por sua pol\u00edcia interna para\ngarantir a paz perp\u00e9tua, \u00fanica atmosfera prop\u00edcia ao trabalho obstinado perante\numa massa de fontes cada vez mais abundante\u201d (p. 14). Ao inv\u00e9s da clausura, que\npode levar a uma cegueira seletiva sobre a realidade hist\u00f3rica, defende o\ndi\u00e1logo, o trabalho colaborativo e o refor\u00e7o das pr\u00e1ticas cient\u00edficas de\nconstru\u00e7\u00e3o dos objetos de estudo. Abarcando alguns textos j\u00e1 publicados\nanteriormente, como artigos e outros produzidos para o volume, o livro nos\noferece tr\u00eas grandes visadas, com respostas complexas ao problema.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cCompreender hist\u00f3rica e sociologicamente nosso universo social enquanto universit\u00e1rios e intelectuais \u00e9, portanto, outra maneira de cumprirmos a voca\u00e7\u00e3o e a profiss\u00e3o de cientista\u2026\u201d <\/p><cite>p.101<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em sua primeira parte \u2013 \u201cSair dos limites do <em>homo historicus<\/em>?\u201d \u2013, aborda as condi\u00e7\u00f5es\nsociais, pol\u00edticas e institucionais da profissionaliza\u00e7\u00e3o da disciplina na\nFran\u00e7a, revelando a g\u00eanese dos dom\u00ednios tem\u00e1ticos que dificultam, inclusive, a\nconstru\u00e7\u00e3o de generaliza\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas expans\u00edveis a outros campos \u2013 e que\nteriam, na verdade, o resultado de reproduzir um v\u00e1cuo ocupado por fil\u00f3sofos e\ncientistas sociais no interior da pr\u00f3pria historiografia ou, ainda, de criar uma\nhist\u00f3ria da escrita da hist\u00f3ria como glosa de texto, praticada por autores sem\nexperi\u00eancia de investiga\u00e7\u00e3o. Trata, tamb\u00e9m, dos objetos considerados\nconsagrados, que devem seu lugar na hierarquia dos temas hist\u00f3ricos a\nconcep\u00e7\u00f5es n\u00e3o cient\u00edficas de fazer pesquisa e \u00e0 persist\u00eancia de classifica\u00e7\u00f5es\ntradicionais, gestadas em est\u00e1gios iniciais do campo ou oriundas de fora dele,\ncomo a hist\u00f3ria liter\u00e1ria de Gustave Lanson, e sua sucess\u00e3o linear de correntes\ne movimentos est\u00e9ticos de vanguarda, ou a cr\u00edtica de jornal, com seu\ncaracter\u00edstico julgamento de valor. Charle termina a primeira parte do livro\nexemplificando os procedimentos te\u00f3ricos recomendados para se escapar da l\u00f3gica\ndo territ\u00f3rio atrav\u00e9s da an\u00e1lise de um objeto negligenciado pela disciplina,\nmas caro \u00e0 sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria cient\u00edfica: o teatro e a circula\u00e7\u00e3o das\nformas dram\u00e1ticas na Europa do s\u00e9culo 19.<\/p>\n\n\n\n<p>Na segunda parte \u2013 \u201cM\u00e9todos e problemas\u201d \u2013, desenvolve mais\nrespostas, em cinco reflex\u00f5es pertinentes \u00e0 hist\u00f3ria social da cultura ou hist\u00f3ria\nsociocultural: (a) sobre a prosopografia, ou estudo comparado de biografias; (b)\nsobre o cruzamento da sociologia da cultura com estrat\u00e9gias de an\u00e1lise textuais\ndesenvolvidas nos estudos liter\u00e1rios; (c) numa atualiza\u00e7\u00e3o da proposi\u00e7\u00e3o de\nRoger Chartier de inverter os recortes sociais dos estudos culturais,\ncaminhando em dire\u00e7\u00e3o a uma hist\u00f3ria cultural do social (conhecida no Brasil\npela colet\u00e2nea <em>\u00c0 beira da fal\u00e9sia<\/em>,\npublicada pela Editora da UFRGS, em tradu\u00e7\u00e3o de Patr\u00edcia Chittoni Ramos); (d) sobre\numa hist\u00f3ria global ou hist\u00f3ria comparada de configura\u00e7\u00f5es nacionais\nsemelhantes; e (e) sobre a circula\u00e7\u00e3o transnacional de formas culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a terceira parte de <em>Homo Historicus<\/em> nos brinda com biografias de historiadores\npoliticamente engajados e \u201cmodernos\u201d, em que comparecem fundadores da\nhist\u00f3ria-ci\u00eancia francesa, Ferdinand Brunot e Charles Seignobos, e autores de\noutras tradi\u00e7\u00f5es historiogr\u00e1ficas europeias, com destaque para a descri\u00e7\u00e3o\nsens\u00edvel da trajet\u00f3ria do historiador marxista brit\u00e2nico Eric Hobsbawm (a quem\ndedica o livro, junto a Pierre Bourdieu).<\/p>\n\n\n\n<p>Christophe Charle dispensa apresenta\u00e7\u00f5es no campo franc\u00eas da\nprodu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. \u00c9 autor de cl\u00e1ssicos nos dom\u00ednios da hist\u00f3ria intelectual e\nda hist\u00f3ria liter\u00e1ria, como <em>O nascimento\ndos \u201cintelectuais\u201d<\/em> (1990) e <em>A\nrep\u00fablica dos universit\u00e1rios<\/em> (1994). Tem t\u00edtulos importantes da hist\u00f3ria\nsocial e pol\u00edtica, como <em>As elites da\nrep\u00fablica<\/em> (1987) e <em>Hist\u00f3ria social da\nFran\u00e7a no s\u00e9culo 19<\/em> (1991), al\u00e9m de dirigir, com Laurent Jeanpierre, a\nmonumental colet\u00e2nea<em> A vida intelectual\nna Fran\u00e7a<\/em> (2016), em dois volumes (t\u00edtulos em tradu\u00e7\u00e3o livre). No Brasil,\ncontudo, s\u00f3 veio a p\u00fablico, at\u00e9 o momento, sua tamb\u00e9m relevante obra dedicada\nao teatro: <em>A G\u00eanese da Sociedade do\nEspet\u00e1culo<\/em> (Companhia das Letras, 2012). A Editora da UFRGS e a FGV Editora\nprestam, assim, um bom servi\u00e7o \u00e0 comunidade acad\u00eamica brasileira, divulgando\nmais uma pequena parte de sua vasta obra a respeito do universo letrado,\nprincipalmente num momento de quase criminaliza\u00e7\u00e3o social do setor cultural e em\nque a validade de se produzir conhecimento hist\u00f3rico nas universidades, ao\nmesmo tempo objeto de an\u00e1lise e meta de Charle, \u00e9 politicamente colocada sob\nsuspeita em nosso pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro<strong> <\/strong><\/em><strong>Homo historicus: reflex\u00f5es sobre a hist\u00f3ria, os historiadores e as ci\u00eancias sociais<\/strong><em>, de Christophe Charle, publicado pelas <a href=\"http:\/\/livraria.ufrgs.br\/produto\/15272\/homo-historicus-reflexoes-sobre-a-historia,os-historiadores-e-as-ciencia-sociais\">Editoras da UFRGS<\/a> e <a href=\"https:\/\/editora.fgv.br\/produto\/homo-historicus-reflexoes-sobre-a-historia-os-historiadores-e-as-ciencias-sociais-3314\">FGV<\/a> (Porto Alegre\/Rio de Janeiro, 2018)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-background has-normal-font-size has-very-light-gray-background-color\"><strong><em>Sobre o resenhista:<\/em><\/strong><br><br><strong>Jocelito Zalla<\/strong> \u00e9 Doutor em Hist\u00f3ria Social pela UFRJ e professor do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o da UFRGS. Autor de O Centauro e a Pena: Barbosa Lessa e a inven\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es ga\u00fachas (Editora da UFRGS, 2018) <br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chega em boa hora a tradu\u00e7\u00e3o de Angela Xavier de Brito para um dos livros mais recentes do historiador Christophe Charle, publicado na Fran\u00e7a em 2013. 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