{"id":285,"date":"2019-07-08T11:27:57","date_gmt":"2019-07-08T14:27:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=285"},"modified":"2022-08-08T14:32:56","modified_gmt":"2022-08-08T17:32:56","slug":"coletanea-reune-vivencias-de-autores-com-deficiencia-visual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/coletanea-reune-vivencias-de-autores-com-deficiencia-visual\/","title":{"rendered":"Viv\u00eancias de autores com defici\u00eancia visual"},"content":{"rendered":"\n<p>Iniciarei esta resenha deixando uma quest\u00e3o clara: n\u00e3o serei nada\nimparcial na an\u00e1lise desta obra. Portanto, este texto, muito mais do que uma\nan\u00e1lise liter\u00e1ria, se constituir\u00e1 em um relato de emo\u00e7\u00f5es que a leitura me\ndespertou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas acredito que esse aviso \u00e9 redundante. Afinal, n\u00e3o consigo imaginar outra forma de escrever sobre o livro <em>Hist\u00f3rias de Baixa Vis\u00e3o<\/em>. \u00c9 uma obra produzida com a emo\u00e7\u00e3o de quem vivencia a experi\u00eancia do mundo por meio de novas percep\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o apenas a visual. Logo, o livro \u00e9 isto: uma colet\u00e2nea de narrativas carregadas de subjetivismo, de despertares, de reflex\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p> <br> \u201cO principal objetivo deste livro, al\u00e9m de dar voz a cada um dos 23 autores, \u00e9 divulgar a quest\u00e3o da baixa vis\u00e3o e suas infinitas possibilidades e caracter\u00edsticas\u201d. <\/p><cite> <br>Mariana Baierle,  organizadora do livro<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Gostaria de fazer um relato pessoal ilustrando como s\u00e3o os autores e sua rela\u00e7\u00e3o com o tema. Em uma noite, fui com Mariana em uma escola de Jovens e Adultos de Porto Alegre, o CMET Paulo Freire, para conversarmos com os alunos sobre o livro. Uma aluna perguntou sobre a bengala verde, e Mariana deu uma aula expositiva sobre o tema, mostrando sua import\u00e2ncia para o deslocamento, o motivo de ser verde e situa\u00e7\u00f5es inusitadas que a bengala n\u00e3o conseguia evitar, como uma janela aberta, um galho baixo ou um buraco na rua n\u00e3o percebido no tocar da bengala. E ia falando, caminhando com a bengala, e os alunos impressionados.<\/p>\n\n\n\n<p>Este momento, que aliou conhecimento, experi\u00eancias e sensa\u00e7\u00f5es, \u00e9 o que perpassar\u00e1 nas vinte e tr\u00eas narrativas, sendo vinte delas escritas por pessoas com defici\u00eancia visual, cegas ou com baixa vis\u00e3o, dois especialistas da \u00e1rea e uma m\u00e3e de um rapaz com baixa vis\u00e3o, o Jean Luc. Os contos s\u00e3o distribu\u00eddos em cinco partes, organizados pelo teor predominante dos textos. <\/p>\n\n\n\n<p>Estava t\u00e3o empolgado em apresentar as minhas sensa\u00e7\u00f5es do livro que me esqueci de descrev\u00ea-lo. Mas, para quem vai l\u00ea-lo, isso n\u00e3o \u00e9 esquecido. Rafael Martins, Rafael Braz e Mariana fazem uma bela descri\u00e7\u00e3o nas primeiras p\u00e1ginas, apresentando o projeto gr\u00e1fico do livro. Eu vou apenas citar o in\u00edcio, para dar uma ideia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p> <br>\u201cA capa, a contracapa, as orelhas e a lombada do livro <em>Hist\u00f3rias de Baixa Vis\u00e3o<\/em> apresentam o verde escuro como cor de fundo. Do topo para a base, a tonalidade do verde fica gradualmente mais clara. Todos os textos est\u00e3o escritos em cor branca, ressaltando o contraste com o fundo verde e facilitando a leitura. A cor da capa foi escolhida pelos autores para fazer refer\u00eancia \u00e0 bengala verde, instrumento de orienta\u00e7\u00e3o e mobilidade que est\u00e1 sendo difundido no Brasil e em outros pa\u00edses e que pretende identificar as pessoas com baixa vis\u00e3o que a utilizam.\u201d <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Passando aos textos, na parte I \u2013 Descoberta e Ressignifica\u00e7\u00e3o da Baixa Vis\u00e3o<strong> \u2013 <\/strong>temos seis narrativas que abordam os desafios enfrentados e os percursos da perda de vis\u00e3o. Os relatos fizeram-me admirar Andr\u00e9 pela sua resist\u00eancia ao professor e por compartilhar \u2013 com Renato, Gabriel e Maicon \u2013 suas supera\u00e7\u00f5es; imaginei-me na sala de exames de vista com Rafael e participei das descobertas de Paola, m\u00e3e de Jean Luc.<\/p>\n\n\n\n<p>Na parte II \u2013 Trajet\u00f3rias\u2013 s\u00e3o cinco narrativas que nos levam a perceber como vai se constituindo uma forma de viver onde as percep\u00e7\u00f5es e os sentidos s\u00e3o reestruturados, reelaborados, explorados para a supera\u00e7\u00e3o da perda, total ou parcial, da vis\u00e3o. S\u00e3o emocionantes as viv\u00eancias pedag\u00f3gicas trazidas por Adilso e Eliane e as trajet\u00f3rias percorridas por Regina, Raquel e Rita de C\u00e1ssia, mostrando os desafios enfrentados desde a inf\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na parte III \u2013 O uso da bengala: entre a nega\u00e7\u00e3o, a aceita\u00e7\u00e3o e a autonomia \u2013, Franciele, Marilena e Mariana colocam um debate presente, e ainda n\u00e3o consensual inclusive, entre pessoas com baixa vis\u00e3o sobre a import\u00e2ncia da bengala verde e seu uso como reconhecimento social e ajuda na autonomia das pessoas com baixa vis\u00e3o. Al\u00e9m da bengala, a audiodescri\u00e7\u00e3o, o braille, os leitores de tela e, fundamentalmente, a intera\u00e7\u00e3o e a troca de informa\u00e7\u00f5es com outras pessoas com defici\u00eancia visual s\u00e3o possibilidades que se abrem para uma maior inclus\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>Na parte IV \u2013 Epis\u00f3dios dif\u00edceis, c\u00f4micos ou inusitados com a baixa vis\u00e3o\u2013,temos sete narrativas que apresentam um pouco do dia a dia dessas pessoas que conseguem transformar os contratempos di\u00e1rios em aprendizados. Viajei para Boston com Filipe, me encantei com Ariane e sua paix\u00e3o pelas leituras, fiquei feliz com a liberta\u00e7\u00e3o de Grazieli, angustiado com a experi\u00eancia de Adenirce, refleti com Gilberto, vi-me sorrindo com a hist\u00f3ria de Rafael e senti muito entusiasmo com os ensinamentos fotogr\u00e1ficos de Teco.<\/p>\n\n\n\n<p>E, finalmente, na parte V \u2013 Al\u00e9m do que n\u00e3o se pode ver e ouvir: baixa vis\u00e3o e as intersec\u00e7\u00f5es com a surdocegueira \u2013, temos o relato das experi\u00eancias pedag\u00f3gicas de Fernanda e Heniane, que s\u00e3o duas estudiosas na \u00e1rea e que trabalham com essa tem\u00e1tica em suas vidas profissionais e acad\u00eamicas.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o vinte e tr\u00eas narrativas que trazem as estrat\u00e9gias criadas e as particularidades apresentadas para que a defici\u00eancia visual n\u00e3o apenas seja vencida, mas, principalmente, se torne uma possibilitadora de novos olhares e novas sensa\u00e7\u00f5es. O livro, portanto, deve ser lido sem pressa, apreciando-se cada relato, pois n\u00e3o raro s\u00e3o coincidentes, mas muito particulares, e a riqueza est\u00e1 nisso, nessas rea\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es que s\u00e3o trazidas e que foram vivenciadas, foram percebidas, tornando-o \u00fanico e rico de ensinamentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro <\/em><strong>Hist\u00f3rias de Baixa Vis\u00e3o<\/strong><em>, organizado por Mariana Baierle e publicado pela <a href=\"https:\/\/editoracrv.com.br\/produtos\/detalhes\/32599-historias-de-baixa-visao\">Editora CRV<\/a> (Curitiba, 2018)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><strong><em>Sobre o resenhista:<\/em><\/strong><br><br><strong>Jos\u00e9 Luiz Machado<\/strong> \u00e9 servidor t\u00e9cnico-administrativo da UFRGS e mestre em Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Iniciarei esta resenha deixando uma quest\u00e3o clara: n\u00e3o serei nada imparcial na an\u00e1lise desta obra. 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