{"id":304,"date":"2019-07-22T09:00:01","date_gmt":"2019-07-22T12:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=304"},"modified":"2022-08-08T14:31:41","modified_gmt":"2022-08-08T17:31:41","slug":"a-guerra-as-drogas-e-uma-guerra-aos-negros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/a-guerra-as-drogas-e-uma-guerra-aos-negros\/","title":{"rendered":"A guerra \u00e0s drogas \u00e9 uma guerra aos negros?"},"content":{"rendered":"\n<p>A\nviol\u00eancia \u00e9 muito est\u00e9tica. Seja em v\u00eddeos na internet, fotografias em jornais\nimpressos ou programas policialescos na televis\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber uma\nconstante que se manifesta na imensa maioria dessas imagens: a cor da pele dos\nsuspeitos. Apesar das nega\u00e7\u00f5es constantes e de sua express\u00e3o velada, o racismo\nde nossa sociedade \u00e9 vis\u00edvel, basta um retrato de uma pris\u00e3o, uma imagem de uma\ncomunidade perif\u00e9rica, uma foto de suspeitos mortos pela pol\u00edcia. Ali, a\nmaioria retumbante \u00e9 de pessoas negras. Como essa estrutura se mant\u00e9m? De que\nforma as pol\u00edticas p\u00fablicas contribuem para sustentar esse contexto? <em>Guerra \u00e0s Drogas e a manuten\u00e7\u00e3o da\nhierarquia racial<\/em> \u00e9 um estudo que tenta demonstrar a import\u00e2ncia que t\u00eam o\nproibicionismo das drogas e a guerra gerida em seu favor para tamanha\nsustenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O que salta aos olhos em um primeiro momento \u00e9 uma das maiores for\u00e7as do livro: o posicionamento da autora, Daniela Ferrugem, enquanto mulher negra, feminista, antirracista e trabalhadora na \u00e1rea social. Doutoranda em Servi\u00e7o Social pela PUCRS, seu livro \u00e9 fruto de disserta\u00e7\u00e3o de mestrado apresentada em 2017. Ao longo da escrita, Ferrugem escancara sua hist\u00f3ria a partir desses marcadores sociais que atravessam a sua exist\u00eancia e influenciam a sua produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim, partindo do pressuposto da impossibilidade de uma ci\u00eancia totalmente neutra, que a autora constr\u00f3i a ideia de que a guerra \u00e0s drogas \u00e9 uma pol\u00edtica racista, fruto de um processo de criminaliza\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m a estrutura social-racial formatada a partir da \u00e9poca escravocrata. <\/p>\n\n\n\n<p>Tratar o racismo como categoria fundamental da an\u00e1lise na quest\u00e3o da proibi\u00e7\u00e3o \u00e0s drogas \u00e9 necess\u00e1rio para poder super\u00e1-la e \u00e9 tamb\u00e9m a maior contribui\u00e7\u00e3o deste trabalho. O atravessamento da ra\u00e7a no que diz respeito ao tr\u00e1fico de drogas percorre v\u00e1rias dimens\u00f5es da representa\u00e7\u00e3o social: desde a constru\u00e7\u00e3o da imagem do jovem negro morador de comunidades perif\u00e9ricas enquanto principal agente da viol\u00eancia epid\u00eamica no pa\u00eds at\u00e9 o ato concreto do exterm\u00ednio sistematizado dessa popula\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>A discuss\u00e3o que Ferrugem traz sobre a ado\u00e7\u00e3o da express\u00e3o \u201cgenoc\u00eddio da juventude negra\u201d pela CPI da Viol\u00eancia contra Jovens Negros e os dados de que praticamente 80% dos mais de 40 mil jovens mortos por ano no pa\u00eds s\u00e3o negros fundamentam corretamente o debate. A pesquisa apresenta dados de importantes estudos para corroborar o argumento de que o proibicionismo provoca consequ\u00eancias sociais negativas. A quest\u00e3o do encarceramento em massa \u2013 de 2000 a 2014 houve um aumento de 220% na popula\u00e7\u00e3o de homens encarcerados no pa\u00eds \u2013 \u00e9 outro tema trazido pela autora que escancara como a cor da pele \u00e9 fator determinante para analisar o contexto social brasileiro. <\/p>\n\n\n\n<p>Na estrutura de seu texto, Daniela prefere discutir, em um primeiro momento, aspectos da heran\u00e7a escravocrata e especificidades do racismo brasileiro, para, no \u00faltimo ter\u00e7o do livro, atentar diretamente \u00e0 rela\u00e7\u00e3o dessa situa\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica sobre drogas. Aqui, cabe dizer que tal rela\u00e7\u00e3o seria mais bem compreendida se as estat\u00edsticas apresentadas viessem em conjunto com a an\u00e1lise mais te\u00f3rica. As estat\u00edsticas t\u00eam grande import\u00e2ncia em nos apresentar uma fotografia do contexto que pretendemos analisar e, talvez, apresentar essa fotografia pr\u00e9via aos leitores poderia facilitar a compreens\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\u201cQualquer\nmudan\u00e7a na pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica brasileira que n\u00e3o se paute na\ndiscuss\u00e3o sobre uma regula\u00e7\u00e3o das drogas, n\u00e3o poder\u00e1 ser efetiva no combate \u00e0\nviol\u00eancia crescente\u201d \n\n\n\n<\/p><cite>p.126<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Como a autora sustenta na conclus\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel acreditar em um fazer acad\u00eamico neutro. A no\u00e7\u00e3o de uma produ\u00e7\u00e3o de conhecimento isenta das influ\u00eancias sociais e das experi\u00eancias pessoais dos sujeitos \u00e9 um ideal imposs\u00edvel de ser alcan\u00e7ado. Ferrugem, ao longo do texto, toma posi\u00e7\u00f5es que escancaram o lugar de fala que representa e o olhar que traz sobre o tema. \u201cComo poderia uma pesquisadora negra, perif\u00e9rica e descendente de pessoas escravizadas ocultar afetos que insistem em brotar nessa escrita? [\u2026] Como pesquisadora negra, me inclino ao exerc\u00edcio da pedagogia da desobedi\u00eancia\u201d (p. 127).<\/p>\n\n\n\n<p>Situando <em>Guerra \u00e0s drogas e a manuten\u00e7\u00e3o da hierarquia racial<\/em> junto a outras produ\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas atuais em diversas \u00e1reas do conhecimento, fica cada vez mais evidente que o proibicionismo das drogas precisa ser superado. Essa guerra inventada pelas elites para manter uma hegemonia baseada em racismos e preconceitos atravessa um s\u00e9culo. A viol\u00eancia social causada por tal guerra, o seu fracasso em lidar com a quest\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica e os seus fundamentos racistas n\u00e3o s\u00e3o somente uma mat\u00e9ria de opini\u00e3o pol\u00edtica ou de um ativismo libert\u00e1rio inconsequente. Como demonstra Daniela, lutar pelo fim da guerra \u00e0s drogas tem sustenta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e, cada vez mais, \u00e9 a pr\u00f3pria ci\u00eancia que define a estupidez de sucessivos governos em seguir adotando tais a\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro<\/em> <strong>Guerra \u00e0s drogas e a manuten\u00e7\u00e3o da hierarquia racial<\/strong><em>, de Daniela Ferrugem, publicado pela <a href=\"https:\/\/www.editoraletramento.com.br\/produto\/guerra-as-drogas-e-a-manutenc-o-da-hierarquia-racial-284\">Editora Letramento<\/a> (Belo Horizonte, 2019)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><strong><em>Sobre o resenhista:<\/em><\/strong> <br><br><strong>Jonas Lunardon<\/strong> \u00e9 doutorando no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia Pol\u00edtica da UFRGS e trabalha a rela\u00e7\u00e3o entre a guerra \u00e0s drogas, criminaliza\u00e7\u00e3o social e os Direitos Humanos. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A viol\u00eancia \u00e9 muito est\u00e9tica. 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