{"id":325,"date":"2019-08-05T09:00:58","date_gmt":"2019-08-05T12:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=325"},"modified":"2022-08-08T14:30:35","modified_gmt":"2022-08-08T17:30:35","slug":"os-mapas-de-susana-vernieri","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/os-mapas-de-susana-vernieri\/","title":{"rendered":"Os mapas de Susana Vernieri"},"content":{"rendered":"\n<p>A\npaz \u00e9 a utopia dos indecisos, nos diz Susana Vernieri na ep\u00edgrafe de um dos\ncap\u00edtulos de seu mais recente lan\u00e7amento, <em>O\nmapa da Rep\u00fablica<\/em>. Complemento: se a paz \u00e9 a utopia dos indecisos, a\nrealidade \u00e9 sua distopia. A obra, assim como <em>As grades do c\u00e9u <\/em>\u2013 livro de contos da autora lan\u00e7ado em 2009 e\nvencedor da categoria contos do Pr\u00eamio A\u00e7orianos \u2013, retrata personagens que\nhabitam o entrelugar da vida e sonham com a paz que \u2013 eles imaginam \u2013 prov\u00e9m da\nconformidade. A paz de sentir-se unidade completa, sujeito centrado em um mundo\ncoeso. Mas a realidade a\u00ed se apresenta como uma anomalia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cacos de vidas narrados em <em>As grades do c\u00e9u<\/em> apresentam indiv\u00edduos que vivem a fronteira entre a sanidade e a loucura. Como se tivessem um p\u00e9 em cada lado, manifestam a loucura em sua sanidade e a sanidade em sua loucura. Os personagens de Susana parecem ter-se divorciado do mundo, ainda que de formas diversas: na crise paranoica, representada tanto pelo \u201clouco\u201d tradicional como pelo mais aparentemente normal dos sujeitos; na nega\u00e7\u00e3o da vida, que n\u00e3o significa necessariamente o desejo de morte; na ruptura de um caso amoroso, que dilacera; ou morando em uma casa ancorada no nada em meio ao rio, de onde se v\u00ea a vida a dist\u00e2ncia. S\u00e3o sujeitos que, paradoxalmente, revelam as situa\u00e7\u00f5es extremas daqueles que vivem no entrelugar da exist\u00eancia. <em>As grades do c\u00e9u <\/em>\u00e9 uma cartografia de vida do avesso.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><p>\u201cQueria um lugar, um lugar que n\u00e3o existe. Eu cometo um pecado capital. Sem culpa. E agora me confesso\u201d.<\/p><p><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><em>O<\/em> <em>Mapa da rep\u00fablica<\/em> \u00e9 tamb\u00e9m um <em>estar-entre<\/em> temporal. A novela parece\ntranscorrer entre os fat\u00eddicos invernos de 2013 e 2014. Rosa \u00e9 uma jovem\nuniversit\u00e1ria que trabalha em um bar e se diverte tanto quanto algu\u00e9m que\ntrabalha e estuda pode se divertir. Vive uma vida sem sal. L\u00facio, um personagem\ncuriosamente estereotipado \u00e0 moda antiga, \u00e9 um rapaz que, para n\u00e3o dizer pior,\nparece um \u201cgarot\u00e3o\u201d, aquele t\u00edpico jovem de tatuagens tribais nos bra\u00e7os e <em>skate<\/em> no p\u00e9. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o parece saber\nmuito bem o que est\u00e1 fazendo e, na d\u00favida, age sempre da pior maneira.<\/p>\n\n\n\n<p>A\nforma como s\u00e3o constru\u00eddos os personagens, no entanto, podem despistar o leitor\nna identifica\u00e7\u00e3o de suas caracter\u00edsticas e de seus comportamentos. Situa\u00e7\u00f5es\nque poderiam demandar um maior desenvolvimento e incluir o leitor na caminhada\nnarrativa s\u00e3o descritas a partir de um lugar distante e de maneira bastante\nbreve. Resulta que o narrador, em determinados momentos, toma o lugar de um\nrep\u00f3rter: informam-se os eventos hist\u00f3ricos mais do que parece interessar \u00e0\ntrama.<\/p>\n\n\n\n<p>A\nsensa\u00e7\u00e3o geral daqueles que viveram as ruas das capitais brasileiras durante os\ngrandes protestos que antecederam \u00e0 copa \u00e9 mais ou menos essa: ningu\u00e9m sabia ao\ncerto o que estava fazendo e vivia em um curioso <em>estar-entre:<\/em> entre a euforia e a depress\u00e3o, entre a a\u00e7\u00e3o violenta e\na pac\u00edfica, entre a festa e o protesto. <\/p>\n\n\n\n<p>Frequentemente,\nos extremos eram sentidos e vividos ao mesmo tempo. Todas as manifesta\u00e7\u00f5es\nterminavam em frustra\u00e7\u00e3o; afinal eram sempre os mesmos caminhos, com os mesmos\nresultados e as mesmas repercuss\u00f5es. Por outro lado, elas tamb\u00e9m emocionavam.\nEram multid\u00f5es. Nunca sab\u00edamos ao certo o que est\u00e1vamos fazendo e, no entanto,\nnos sent\u00edamos profundamente impelidos a fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>O\nlivro, ainda que brevemente, nos leva de volta a esse momento da cidade de\nPorto Alegre. \u00c0 Rep\u00fablica, Estado, e \u00e0 Rua da Rep\u00fablica, espa\u00e7o da boemia\nporto-alegrense, onde muitos terminavam as noites de protesto e tamb\u00e9m as de\ncarnaval. <\/p>\n\n\n\n<p>Em\n<em>As grades do c\u00e9u<\/em>, h\u00e1 um personagem\nque decide nadar em dire\u00e7\u00e3o ao infinito. N\u00e3o se trata de uma tentativa de\nsuic\u00eddio, pois ele \u00e9 um ex\u00edmio nadador. Ele apenas deseja ver o infinito mais\nde perto. Est\u00e1 cansado dos limites impostos pela vida. Um salva-vidas, vendo o\nbanhista j\u00e1 muito distante da costa, vai at\u00e9 ele e pede para que retorne. Ele\nse recusa e teimosamente responde: \u201cvou nadar o quanto quero\u201d. Me parece que\ntamb\u00e9m n\u00f3s, naqueles dias de 2014, quando as manifesta\u00e7\u00f5es mudavam de figura e\nn\u00f3s j\u00e1 nos sent\u00edamos distantes demais de qualquer ponto de apoio, segu\u00edamos\npelos mesmos motivos: quer\u00edamos. N\u00e3o podemos controlar as consequ\u00eancias das\nnossas vontades. N\u00e3o t\u00ednhamos como prever no que resultariam as manifesta\u00e7\u00f5es\nde 2013; tamb\u00e9m Rosa, personagem de <em>O\nMapa da Rep\u00fablica<\/em>, n\u00e3o sabe o que ser\u00e1 de si ap\u00f3s sua desastrada decis\u00e3o\nfinal. Querer, enfim, \u00e9 apenas o que nos cabe. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro <\/em><strong>As grades do c\u00e9u<\/strong><em>, de Susana Vernieri, publicado pela <a href=\"http:\/\/www.libretos.com.br\/index.php\/loja-virtual?page=shop.product_details&amp;flypage=flypage.tpl&amp;category_id=49&amp;product_id=78&amp;vmcchk=1\">Libretos <\/a>(Porto Alegre, 2019)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><strong><em>Sobre a resenhista:<\/em><\/strong><br><br><strong>J\u00falia de Campos Lucena<\/strong> \u00e9 graduada em Letras pela UFRGS e mestranda na mesma institui\u00e7\u00e3o, na linha de pesquisa Literatura, Sociedade e Hist\u00f3ria da Literatura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A paz \u00e9 a utopia dos indecisos, nos diz Susana Vernieri na ep\u00edgrafe de um dos cap\u00edtulos de seu mais recente lan\u00e7amento, O mapa da Rep\u00fablica. 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