{"id":338,"date":"2019-08-12T09:00:08","date_gmt":"2019-08-12T12:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=338"},"modified":"2022-08-08T14:30:26","modified_gmt":"2022-08-08T17:30:26","slug":"o-racismo-na-criminalizacao-da-maconha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/o-racismo-na-criminalizacao-da-maconha\/","title":{"rendered":"O racismo na criminaliza\u00e7\u00e3o da maconha"},"content":{"rendered":"\n<p>Cabe\nreferir de antem\u00e3o que o livro de que se trata aqui n\u00e3o \u00e9 sobre a maconha, mas sobre\nracismo na criminaliza\u00e7\u00e3o da erva. Para tanto, <em>\u201cFumo de negro\u201d: a criminaliza\u00e7\u00e3o da maconha no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o<\/em>, de\nLu\u00edsa Saad, percorre o per\u00edodo hist\u00f3rico anterior \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o da maconha para\ncompreender os discursos sociais que serviram de base para a criminaliza\u00e7\u00e3o de\nseus usos. A autora organiza os achados de sua pesquisa ao longo de tr\u00eas\ncap\u00edtulos, mais um introdut\u00f3rio e um conclusivo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Com linguagem acess\u00edvel e leitura\nfluida \u2013 ainda que apresente uma pesquisa densa e cuidadosa \u2013, a obra elenca as\nconcep\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e pol\u00edticas e as engrenagens sociais que, desde o final\ndo s\u00e9culo XIX, foram as bases para a proibi\u00e7\u00e3o da cannabis que viria acontecer no\ns\u00e9culo XX. <\/p>\n\n\n\n<p>Na introdu\u00e7\u00e3o do estudo, a autora nos informa que \u201co cultivo e usos da\nmaconha s\u00e3o milenares; sua proibi\u00e7\u00e3o \u00e9 muito recente\u201d (p. 16). A origem da\nplanta no Brasil ainda \u00e9 indefinida, mas, independentemente disso, a refer\u00eancia\nna obra \u00e9 de que h\u00e1 \u201cevid\u00eancias de que a erva fazia parte da vida de africanos\ne seus descentes\u201d (p. 16). A proibi\u00e7\u00e3o da erva ocorreu h\u00e1 menos de 100 anos e,\nsegundo autora, que corrobora outros estudos importantes sobre o tema, foi\nbaseada em argumentos falaciosos.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir das reflex\u00f5es hist\u00f3ricas, \u00e9 poss\u00edvel enxergarmos a sociedade brasileira\np\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o extremamente racista, calcada em princ\u00edpios morais higienistas da\nelite intelectual e econ\u00f4mica. Para compreender os discursos dessa elite \u2013 que\ndeterminavam o pensamento social \u2013, a autora elege um dos seus personagens\nimportantes, Rodrigues D\u00f3ria, autor do primeiro texto aprofundado sobre a\nmaconha no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Lu\u00edsa Saad retrata parte da trajet\u00f3ria profissional e pessoal de D\u00f3ria e\nresgata seus argumentos ao longo do primeiro cap\u00edtulo da obra. Esse personagem \u00e9\nemblem\u00e1tico: por ser um homem letrado, m\u00e9dico conceituado e pol\u00edtico, suas\nteorias, ao mesmo tempo que ajudavam a ditar o pensamento corrente na \u00e9poca,\nrepresentavam os anseios de uma elite. \u201cD\u00f3ria era um racialista, um homem de\nci\u00eancia perfeitamente integrado \u00e0s ideias de seu tempo\u201d (p. 23).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao examinar as produ\u00e7\u00f5es de D\u00f3ria, a autora constatou que, embora esse intelectual variasse os temas, seus estudos se mantinham sobre um eixo de interesse: \u201csubst\u00e2ncias alteradoras da consci\u00eancia, degenera\u00e7\u00e3o e impulsos criminais, diferencia\u00e7\u00e3o entre os sexos\u201d. Em seus textos, encontram-se discursos que pareciam ser correntes no pensamento da elite na Nova Rep\u00fablica, nos quais negros poderiam representar atraso para o projeto de desenvolvimento e a moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cMais do que um fim de s\u00e9culo, os \u00faltimos anos do Oitocentos representavam o in\u00edcio de um movimento que buscava tornar o Brasil uma na\u00e7\u00e3o moderna, exemplar e civilizada. A aboli\u00e7\u00e3o da escravatura e a recente proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica anunciavam o caminho a ser seguido num pa\u00eds onde o imenso contingente de negros e seus descentes poderiam representar sintomas de um atraso indesejado\u201d. (p. 69)<\/p><cite>p.69<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Assim,\na elite brasileira, \u00e1vida por uma moderniza\u00e7\u00e3o do Brasil que n\u00e3o transformasse\nas bases sociais j\u00e1 solidificadas por 300 anos de escravid\u00e3o, mas que, ao contr\u00e1rio,\nrestabelecesse a hierarquia social que garantiria a diferencia\u00e7\u00e3o em direitos e\noportunidades para negros e brancos, adotou ideias denominadas \u201ccient\u00edficas\u201d\nque justificavam a desigualdade entre os homens. Tal concep\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia\nacontecer se n\u00e3o ocorresse um controle dos h\u00e1bitos da popula\u00e7\u00e3o e um\n\u201cmelhoramento\u201d da ra\u00e7a, que passava por um branqueamento. \u201cFoi nesse ambiente\nque muitos elementos da cultura brasileira de raiz africana passaram a ser\nidentificados como perigosos e criminalizados. O costume de se consumir maconha,\ninclusive\u201d (p. 70).<\/p>\n\n\n\n<p> A obra retrata o per\u00edodo hist\u00f3rico at\u00e9 o ano de proibi\u00e7\u00e3o da maconha, 1932, que ocorreu muito menos respaldada em argumentos cient\u00edficos e muito mais assentada em um p\u00e2nico moral, que buscou na criminaliza\u00e7\u00e3o da planta a &nbsp;criminaliza\u00e7\u00e3o das pessoas que faziam uso dela, associada que estava aos negros tanto como fumo quanto como artigo que constitu\u00eda seus rituais religiosos.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa de Lu\u00edsa Saad \u00e9 necess\u00e1ria para compreendermos o passado da\nsociedade brasileira, os processos eugenistas cientificamente embasados, j\u00e1 superados,\nmas que insistem em retornar sob novas bases e com argumentos envernizados. Um\nolhar para o passado que nos permita compreender o racismo contempor\u00e2neo, como\na eugenia do s\u00e9culo XIX que moldou o pensamento da sociedade brasileira,\nargumentos que se modificaram com o passar dos anos \u2013 n\u00e3o mais fundamentados na\nhierarquia natural dos brancos sobre os negros, sem o desejo manifesto de\nbranqueamento do brasileiro \u2013, mas que ainda se utilizam do proibicionismo das\ndrogas para atingir a popula\u00e7\u00e3o negra. &nbsp;Um livro necess\u00e1rio para a compreens\u00e3o sobre a\ncriminaliza\u00e7\u00e3o das drogas, sobre a sociedade brasileira e sobre o racismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro<\/em> <strong>\u201cFumo de negro\u201d: a criminaliza\u00e7\u00e3o da maconha no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o&#8221;<\/strong><em>, de Lu\u00edsa Saad, publicado pela <a href=\"http:\/\/www.edufba.ufba.br\/2019\/03\/fumo-de-negro-a-criminalizacao-da-maconha-no-pos-abolicao\/\">Editora da UFBA<\/a> (Salvador, 2019)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><strong><em>Sobre a resenhista<\/em><\/strong><em><br><br><\/em><strong>Daniela Ferrugem<\/strong><em> atua como assistente social do Centro Integrado de Pesquisa e Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Sa\u00fade do Instituto de Psicologia da UFRGS. Doutoranda em Servi\u00e7o Social pelo Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social da PUCRS.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cabe referir de antem\u00e3o que o livro de que se trata aqui n\u00e3o \u00e9 sobre a maconha, mas sobre racismo na criminaliza\u00e7\u00e3o da erva. 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