{"id":342,"date":"2019-08-19T09:00:32","date_gmt":"2019-08-19T12:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=342"},"modified":"2022-08-08T14:29:52","modified_gmt":"2022-08-08T17:29:52","slug":"descortinando-novos-horizontes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/descortinando-novos-horizontes\/","title":{"rendered":"Descortinando novos horizontes"},"content":{"rendered":"\n<p>Gostaria\nde iniciar a resenha dizendo que, para mim, a tarefa de apresentar esta obra \u00e9\nde extrema responsabilidade, dado o atual contexto em que \u00e9 poss\u00edvel\nidentificar contundentes sinais de distopia em nossas sociedades. E aqui reside\no desafio de aprendermos a ler criticamente as mudan\u00e7as do nosso tempo, as\nnossas circunst\u00e2ncias, o que est\u00e1 em jogo, isto \u00e9, com autonomia e sensatez,\nmas sem neutralidade, como nos chamava a aten\u00e7\u00e3o Paulo Freire. <\/p>\n\n\n\n<p>A\nobra de Alberto Acosta <em>O Bem Viver: uma\noportunidade para imaginar outros mundos<\/em>, publicada pela editora Elefante, posiciona-se\nenquanto uma alternativa ao modelo produtivista, consumista e acumulativo,\nresultado da busca insana pelo \u201cdesenvolvimento\u201d e \u201cprogresso\u201d da humanidade.\nEm contraponto a esse quadro, Acosta formula o conceito de \u201cBem Viver\u201d (<em>Buen Vivir\/ Vivir Bien<\/em>), assentado na\nperspectiva da conviv\u00eancia cidad\u00e3 e harmoniosa entre os seres \u2013 humanos e n\u00e3o\nhumanos \u2013 na busca de construir outro modelo civilizat\u00f3rio e reconhecendo a\nnatureza como um sujeito de direitos. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>\u201cO Bem Viver \u00e9 essencialmente um processo proveniente da matriz comunit\u00e1ria de povos que vivem em harmonia com a natureza\u201d <\/em><\/p><cite><em>p. 32<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os dez cap\u00edtulos que comp\u00f5em o livro compilam\nsuas ideias para um mesmo horizonte: analisar lucidamente os impactos tanto do\nponto de vista social, econ\u00f4mico e cultural quanto sob a \u00f3tica ambiental, face\naos problemas de ordem estrutural e simb\u00f3lica que o desejo pelo desenvolvimento\ntrouxe \u00e0s regi\u00f5es ditas \u201catrasadas\u201d do sistema capitalista mundial. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse sentido que o trabalho de Alberto\nAcosta e sua reflex\u00e3o, apoiada na ancestralidade andina e amaz\u00f4nica \u2013 reconhecida\npor ele como uma vis\u00e3o n\u00e3o dogm\u00e1tica \u2013, merecem um olhar atento e sens\u00edvel\ndaqueles que se dedicam a estudar as problem\u00e1ticas advindas da modernidade\nocidental por nos oferecer quest\u00f5es t\u00e3o caras para compreender suas din\u00e2micas: <em>A quem interessa o modelo de desenvolvimento\natual? Quais suas amea\u00e7as e consequ\u00eancias? As alternativas para uma sociedade\nmais cidad\u00e3 e democr\u00e1tica podem ter no imagin\u00e1rio a ideia de desenvolvimento\ncomo op\u00e7\u00e3o? \u00c9 preciso antes descolonizar o imagin\u00e1rio?<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Acosta,\nao aprofundar sua an\u00e1lise, chama a aten\u00e7\u00e3o para as contradi\u00e7\u00f5es internas nos\npa\u00edses do continente latino-americano, n\u00e3o obstante ele reconhe\u00e7a os avan\u00e7os\nque ocorreram na Bol\u00edvia e no Equador, assumindo as quest\u00f5es ambientais certo\nespa\u00e7o na agenda institucional desses governos com os conceitos de <em>Vivir Bien <\/em>(na Bol\u00edvia) e de <em>Buen Vivir <\/em>(no Equador), inscritos\ninclusive em suas respectivas Constitui\u00e7\u00f5es. Contudo, para o autor, \u201capenas\ncolocar o Bem Viver na Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 suficiente para superar um sistema\nque \u00e9, em ess\u00eancia, a civiliza\u00e7\u00e3o da desigualdade e da devasta\u00e7\u00e3o. Isso, no\nentanto, n\u00e3o significa que o capitalismo deve ser totalmente superado para que,\ns\u00f3 depois, o Bem Viver possa se tornar realidade\u201d (p. 33). <\/p>\n\n\n\n<p>Apesar desses governos de postura mais \u00e0 esquerda terem alcan\u00e7ado protagonismo e lideran\u00e7a, sobretudo nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas, em grande medida com apoio de movimentos sociais populares, eles esmaeceram face \u00e0s tomadas de decis\u00f5es ao assumir um receitu\u00e1rio neoliberal e equivocado e \u201creduzir a ideia de inclus\u00e3o social ao acesso de bens de consumo individual\u201d (p. 24). <\/p>\n\n\n\n<p>Um\ncen\u00e1rio que, segundo o livro, foi apoiado no modelo neodesenvolvimentista combinado\nao neoextrativismo, alimentado pelas demandas especulativas do capital, que v\u00ea\nos recursos naturais como um bem a ser dominado e explorado. Esse sistema de\nexplora\u00e7\u00e3o causa profundos impactos \u2013 e at\u00e9 crimes, se quisermos tomar como\nrefer\u00eancia os casos de Mariana e Brumadinho no Brasil, ambos perpetrados por\nmineradoras transnacionais.Para\nAcosta<em>, <\/em>nessa agenda, a \u00e9tica\nambiental n\u00e3o ocupa um lugar de prioridade,evidenciando que o colonialismo que sofremos n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 externo, mas tamb\u00e9m\ninterno. <em>&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O\nautor do livro previne para o fato de que n\u00e3o se trata de assumir o Estado como\no \u00fanico respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o do Bem Viver, mas sugere que este seja\nreconfigurado em termos \u201cplurinacionais\u201d e \u201cinterculturais\u201d, incorporando os\nconhecimentos e saberes de povos e nacionalidades ind\u00edgenas com objetivo de\nconstruir outro projeto de na\u00e7\u00e3o que n\u00e3o esteja ref\u00e9m da l\u00f3gica eurocentrada. Isso\nimplica, segundo ele, \u201ccidadanizar individual e coletivamente o Estado, criando\nespa\u00e7os comunit\u00e1rios como formas ativas de organiza\u00e7\u00e3o social\u201d (p. 34). <\/p>\n\n\n\n<p>A\nproposta do Bem Viver, segundo Acosta, n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de \u201cbem-estar\u201d, no\nsentido de acumula\u00e7\u00e3o de bens materiais, o que coloca em risco a pr\u00f3pria humanidade\nao deteriorar o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico. Da\u00ed o seu car\u00e1ter contra-hegem\u00f4nico,\nporque rompe com o paradigma de desenvolvimento tal como \u00e9 adotado nos pa\u00edses\ncentrais do capitalismo. \u00c9 nessa perspectiva que sua filosofia apoia-se numa\nnova forma de organiza\u00e7\u00e3o social, dando a possibilidade de escolha aos\nindiv\u00edduos, ainda que n\u00e3o tenham os mesmos meios. \u201cEstes, ali\u00e1s, n\u00e3o poder\u00e3o\nestar concentrados em poucas m\u00e3os\u201d (p. 209), salienta o autor.<\/p>\n\n\n\n<p>Em\ns\u00edntese, <em>O Bem Viver: uma oportunidade\npara imaginar outros mundos<\/em> inaugura uma nova \u00e9poca de estudos cr\u00edticos a\npartir da sociedade latino-americana. N\u00e3o s\u00f3 descortina novos horizontes para a\nreflex\u00e3o te\u00f3rica social e a interpreta\u00e7\u00e3o da realidade social, como permite a\nconstru\u00e7\u00e3o de novas narrativas vindas de baixo, das classes e dos grupos e\npovos oprimidos da periferia que tiveram seus conhecimentos, saberes e pr\u00e1ticas\ndesacreditados, que se encontram \u00e0 margem da partitura oficial da hist\u00f3ria. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro<\/em><strong> O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos<\/strong><em>, de Alberto Acosta, publicado pelas editoras <a href=\"https:\/\/autonomialiteraria.com.br\/loja\/teoria-politica\/o-bem-viver-uma-oportunidade-para-imaginar-outros-mundos\/\">Autonomia Liter\u00e1ria<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.editoraelefante.com.br\/produto\/o-bem-viver-uma-oportunidade-para-imaginar-outros-mundos\/\">Elefante<\/a> (S\u00e3o Paulo, 2016)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><strong><em>Sobre o resenhista <\/em><\/strong><br><br><strong>Maycom Douglas F. Nascimento <\/strong>\u00e9 mestrando no PPG em Desenvolvimento Rural da UFRGS. Licenciado em Pedagogia pela Universidade do Estado do Par\u00e1 (UEPA), \u00e9 membro do grupo de pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (TEMAS). Sua agenda de pesquisa est\u00e1 focada nos estudos sobre o P\u00f3s-desenvolvimento, Movimentos Sociais e teoria P\u00f3s-colonial e Decolonial. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gostaria de iniciar a resenha dizendo que, para mim, a tarefa de apresentar esta obra \u00e9 de extrema responsabilidade, dado o atual contexto em que \u00e9 poss\u00edvel identificar contundentes sinais de distopia em nossas sociedades. 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