{"id":350,"date":"2019-08-26T09:00:25","date_gmt":"2019-08-26T12:00:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=350"},"modified":"2022-08-08T14:29:16","modified_gmt":"2022-08-08T17:29:16","slug":"simoes-lopes-neto-sobe-ao-palco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/simoes-lopes-neto-sobe-ao-palco\/","title":{"rendered":"Sim\u00f5es Lopes Neto sobe ao palco"},"content":{"rendered":"\n<p>Jo\u00e3o Sim\u00f5es Lopes Neto\n(1865-1916) s\u00f3 foi reconhecido nacionalmente como expoente do regionalismo\nga\u00facho em 1949, com o lan\u00e7amento da edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de <em>Contos Gauchescos<\/em>\ne <em>Lendas do Sul<\/em> (o primeiro lan\u00e7ado originalmente em 1912; o outro, em\n1913). A publica\u00e7\u00e3o de <em>Teatro completo de Sim\u00f5es Lopes Neto<\/em> (TCSLN), em\numa coedi\u00e7\u00e3o da editora Movimento e do Instituto Estadual do Livro (IEL), \u00e9\nmais um ato no reconhecimento tardio do criador de Blau Nunes, agora na sua\npersona de dramaturgo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse reconhecimento teve seu\nprimeiro impulso ainda em 1990, quando o pesquisador Cl\u00e1udio Heemann\n(1930-1999) organizou uma antologia com seis obras dram\u00e1ticas do autor\npelotense. Sabia-se da limita\u00e7\u00e3o daquela publica\u00e7\u00e3o, tanto que nominada de\nVolume 1 \u00e0 espera de um Volume 2 que nunca veio \u00e0 luz. De l\u00e1 para c\u00e1, uma s\u00e9rie\nde descobertas ampliaram o acervo teatral do autor: em 2005, por exemplo, a\nopereta <em>Os Bachar\u00e9is<\/em> foi publicada pelo Instituto Jo\u00e3o Sim\u00f5es Lopes Neto\ne encenada pelo diretor \u00c9lcio Rossini.<\/p>\n\n\n\n<p>TCSLN re\u00fane 12 textos para\nteatro, entre com\u00e9dias, cenas breves, uma burleta (com\u00e9dia musical), uma\nrevista e uma opereta, escritas entre 1896 e 1915. Assim como nas cr\u00f4nicas que\nSim\u00f5es Lopes Neto publicava nos jornais de Pelotas, inexistem em sua obra\nteatral a lida e o imagin\u00e1rios campeiros. Para o palco, suas tramas s\u00e3o em\ngeral simples, o humor \u00e9 o tom dominante, e o formato de entretenimento para\ngrande p\u00fablico \u00e9 evidente. Talvez n\u00e3o seja exagero supor que Sim\u00f5es Lopes Neto\nfosse uma microcelebridade em sua cidade, gra\u00e7as \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o que seu talento\nteatral lhe garantia.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de discutirmos algumas de\nsuas produ\u00e7\u00f5es teatrais, vale elogiar tr\u00eas dos textos que abrem a edi\u00e7\u00e3o. <em>O\nteatro de Sim\u00f5es Lopes Neto<\/em>, escrito em 1990 por Heemann, contextualiza a\nobra do dramaturgo e tece considera\u00e7\u00f5es sobre alguns dos textos dram\u00e1ticos. <em>A\nreconstitui\u00e7\u00e3o musical de<\/em> Os Bachar\u00e9is, de M\u00e1rcio de Souza (professor do\nCentro de Artes da Universidade Federal de Pelotas), nos aproxima do esfor\u00e7o de\nreviver a opereta a partir das partituras originais compostas pelo maestro\nManoel Acosta y Olivera em 1894. <em>O teatro completo de Sim\u00f5es Lopes Neto<\/em>,\nde Carlos Jorge Appel, narra o processo de investiga\u00e7\u00e3o que culminou com a\nconstata\u00e7\u00e3o de que <em>Nossos Filhos<\/em>, inicialmente reconhecida como obra\nautoral de SLN, era na verdade uma tradu\u00e7\u00e3o que ele fizera para o texto <em>Nuestros\nhijos<\/em>, do uruguaio Florencio S\u00e1nchez (1875-1910).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cMesmo nos momentos em que sua consist\u00eancia liter\u00e1ria apresenta-se com menor inteireza, a voca\u00e7\u00e3o c\u00eanica \u00e9 ineg\u00e1vel\u201d <\/p><cite>Cl\u00e1udio Heemann, 1990<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Aos textos! As cria\u00e7\u00f5es de\nSerafim Bemol (pseud\u00f4nimo que SLN usava no teatro) podem decepcionar quem nelas\nprocura transcend\u00eancia ou registro de nossas tradi\u00e7\u00f5es e folclore. Outro ponto\nimportante \u00e9 que um tema como a ent\u00e3o recente Revolu\u00e7\u00e3o Federalista\n(1893-1895), not\u00edcia internacional por sua sanha sangrenta, n\u00e3o aparece em\ncena. A leitura atenta, por\u00e9m, al\u00e9m do registro de etiquetas e estruturas\nsociais, de express\u00f5es idiom\u00e1ticas, de escolha de temas, de truques de cena e\ndo <em>mise-en-sc\u00e8ne<\/em> (aqui no sentido da movimenta\u00e7\u00e3o dos artistas pelo\ncen\u00e1rio), nos oferece alguns pontos de interesse e de reflex\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>O Bicho<\/em> (1898), fica\nclaro o h\u00e1bito popular de apostar na loteria dos animaizinhos. <em>Mix\u00f3rdia!<\/em>\n(1894-1895) relativiza o poder absoluto do progresso. <em>Os bachar\u00e9is<\/em> (1894)\nridiculariza a pose dos <em>doutores<\/em> e pega leve na manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O\nfogo c\u00f4mico da produ\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica de SLN \u00e9 alimentado por frequentes apartes\n(quando o ator expressa o que pensa em voz alta, ouvido apenas pelo p\u00fablico) e\nincontrol\u00e1veis jogos de palavras. O gosto pelos trocadilhos \u00e9 evidente, e estes\naparecem \u00e0s vezes na mesma pe\u00e7a, na boca de mais de um personagem. Alguns\nexemplos: em <em>A vi\u00fava Pitorra <\/em>(1896\ne 1898), digerir e dirigir; em <em>A Fifina<\/em>, \u201c&#8230;a torcida chupou o\nquerosene e pronto, nem mossa! Que massa de mulher! E eu que j\u00e1 pensava na\nmissa. Me\u00e7a-se uma destas!\u201d. Na p. 199 de <em>Os Bachar\u00e9is<\/em>, \u00e9 overdose: \u201cque\npeix\u00e3o! E que pux\u00e3o me d\u00e1 esta paix\u00e3o!\u201d e \u201cmanos, eu fito neste fato, um\nfeto&#8230; de direito criminal\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p><em>A Fifina<\/em> \u00e9 um texto,\ndigamos, sapeca. Em uma fala, o personagem Capistrano ensina que, referindo-se\nao ato de ler em voz alta, \u201cas meninas d\u00e3o mais servi\u00e7o \u00e0 l\u00edngua que os\nrapazes, Estes, \u00e9 o contr\u00e1rio: trabalham mais de queixo\u201d. Em <em>A vi\u00fava Pitorra<\/em>,\nRam\u00e3o descreve sua companheira de viagem comendo uma banana: \u201cSegura assim&#8230;\ndescasca&#8230; leva \u00e0 boca e vai empurrando, empurrando e engolindo ao mesmo\ntempo!\u201d Nada que nos escandalize atualmente, mas, a depender do encenador e da\n\u00eanfase que era dada, faria a farra do p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>A cena breve <em>Joj\u00f4 e Jaj\u00e1 e n\u00e3o\nIoi\u00f4 e Iai\u00e1<\/em> (1901), classificada pelo autor como \u201cCebol\u00e1rio destemperado\u201d,\nj\u00e1 teve tra\u00e7os de teatro do absurdo identificados por alguns (leia-se o\ncoment\u00e1rio de Heemann na p. 21). N\u00e3o chegamos a tanto. S\u00e3o apenas dois\npersonagens que, no esfor\u00e7o repetitivo e in\u00fatil de se suicidarem, brincam com\nas palavras, com o p\u00fablico, com a condi\u00e7\u00e3o de artista, com o destino de quem\nn\u00e3o consegue levar uma vida focada, estra\u00e7alhado por seus v\u00e1rios talentos. Coerente\ncom o perfil do autor, que foi jornalista, conferencista e escritor, mas tamb\u00e9m\nempres\u00e1rio que criou uma mineradora, uma destilaria e uma f\u00e1brica de cigarros (da\npopular marca Diabo), entre outros empreendimentos malsucedidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso soa como irrever\u00eancia brilhante quando Joj\u00f4 subverte a poesia <em>Ilus\u00f5es da Vida<\/em>, do vener\u00e1vel e imortal Francisco Otaviano (1825-1889) \u2013 colocamos o adendo de SLN em it\u00e1lico:<br><br>Quem passou pela vida em branca nuvem,<br> E em pl\u00e1cido repouso adormeceu;<br> Quem n\u00e3o sentiu o frio da desgra\u00e7a,<br> Quem passou pela vida e n\u00e3o sofreu;<br> Foi espectro de homem, n\u00e3o foi homem,<em><br><\/em> S\u00f3 passou pela vida, n\u00e3o viveu.<br><em>E porque s\u00f3 fumou fumos ardidos <\/em><br><em>E do bom fumo marca Diabo se esqueceu.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro <\/em><strong>Teatro completo de Sim\u00f5es Lopes Neto<em>,<\/em><\/strong><em> de Jo\u00e3o Sim\u00f5es Lopes Neto, publicado pela <a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/editora-movimento\/simoes-lopes-neto-teatro-completo-de-simoes-lopes-neto-1699700380\">Editora Movimento<\/a> (Porto Alegre, 2018)<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><em><strong>Sobre o resenhista:<\/strong><\/em><br><br><strong>Renato Mendon\u00e7a<\/strong> \u00e9 jornalista e cr\u00edtico teatral. \u00c9 Mestre pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Artes C\u00eanicas da UFRGS. Foi editor de teatro no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, por 15 anos. Coeditor do site Agora Cr\u00edtica Teatral de 2015 a 2019.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Sim\u00f5es Lopes Neto (1865-1916) s\u00f3 foi reconhecido nacionalmente como expoente do regionalismo ga\u00facho em 1949, com o lan\u00e7amento da edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de Contos Gauchescos e Lendas do Sul (o primeiro lan\u00e7ado originalmente em 1912; o outro, em 1913). 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