{"id":404,"date":"2019-10-14T09:00:24","date_gmt":"2019-10-14T12:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=404"},"modified":"2022-08-08T14:25:49","modified_gmt":"2022-08-08T17:25:49","slug":"a-tarefa-de-narrar-o-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/a-tarefa-de-narrar-o-outro\/","title":{"rendered":"A tarefa de narrar o Outro"},"content":{"rendered":"\n<p>No domingo de P\u00e1scoa de 2017, Chico Felitti\nrecebeu uma mensagem pelo Facebook que dizia: \u201cOi! O Fof\u00e3o est\u00e1 no Hospital das\nCl\u00ednicas. Amputaram o dedo dele, que estava gangrenado. Ele tem surtos, quer\nbater em todo mundo e tem que ser amarrado porque arranca todos os acessos. E\nn\u00e3o diz coisa com coisa\u201d (p. 9). A mensagem desencadeou a possibilidade de\nFelitti conhecer o Fof\u00e3o da Augusta, Ricardo Correa da Silva \u2013 figura conhecida\ndas ruas de S\u00e3o Paulo \u2013 e acompanh\u00e1-lo ao longo de alguns meses. <\/p>\n\n\n\n<p>Ainda em 2017, Felitti publicou uma reportagem\n(re)apresentando Ricardo no <em>Buzzfeed<\/em> que viralizou e obteve in\u00fameras\nrespostas, desde pessoas que j\u00e1 tinham cruzado com ele na rua e queriam saber\nse ele estava bem at\u00e9 de pessoas que tiveram sua vida, de algum modo, afetadas\npor Ricardo. Uma dessas pessoas mostrou a reportagem para V\u00e2nia, o grande amor\nda vida de Ricardo. A partir da reportagem e de sua repercuss\u00e3o, foi escrito <em>Ricardo\ne V\u00e2nia: o maquiador, a garota de programa, o silicone e uma hist\u00f3ria de amor. <\/em>No\nromance, Felitti narra mais detalhadamente os meses em que acompanhou Ricardo,\nsua hist\u00f3ria de vida e sua rela\u00e7\u00e3o com V\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><strong>\u201cMenino, a hist\u00f3ria do Ricardo \u00e9 um bafo. \u00c9 a hist\u00f3ria de n\u00f3s, bichas do interior.\u201d <\/strong><\/p><cite>p.98<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ricardo e V\u00e2nia, na \u00e9poca Vagner, conheceram-se em\nS\u00e3o Paulo em 1979, quando Ricardo trabalhava em um enorme sal\u00e3o de beleza. \u201cEle\nera lindo. Parecia um pr\u00edncipe\u201d, diz ela (p. 109). Em seguida, Vagner vai morar\ncom Ricardo, vivendo uma rela\u00e7\u00e3o que dura quase dez anos e alguns litros de\nsilicone injetados no rosto de ambos. Em 1988, sentindo-se sufocado por\nRicardo, Vagner parte para Paris, onde vive at\u00e9 hoje como V\u00e2nia. Durante esses\n30 anos, a vida de Ricardo parece ter sa\u00eddo de seu controle, em parte devido ao\ndiagn\u00f3stico de esquizofrenia e a algumas escolhas infelizes, mas tamb\u00e9m por\nviver em uma cultura que cobra caro daqueles que n\u00e3o se conformam \u00e0s normas.<\/p>\n\n\n\n<p>A leitura do texto de Felitti afeta, mexe com o\nleitor. Ao nos dar acesso a um vislumbre da vida de Ricardo e V\u00e2nia, tamb\u00e9m nos\nfaz pensar a respeito dessas vidas por que cruzamos nas ruas e nem sempre\nenxergamos. Felitti est\u00e1 presente na obra, assim como Isabel Dias, sua m\u00e3e e\ntamb\u00e9m escritora \u2013 chamada por Ricardo de Edna \u2013, expondo como as trajet\u00f3rias v\u00e3o\nse entrela\u00e7ando, como, ao narrar o outro, estamos sempre tamb\u00e9m implicados. <\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de todo o livro, h\u00e1 uma profunda\npreocupa\u00e7\u00e3o por parte de Felitti em respeitar Ricardo e V\u00e2nia como sujeitos\nconcretos e complexos em vez de serem percebidos como objetos de investiga\u00e7\u00e3o\njornal\u00edstica; h\u00e1 uma responsabilidade em relatar uma vida. Ambos possuem voz e\ndeterminam o que de suas vidas pode ser revelado e o que deve ser ocultado. O\nromance nos revela que certas personagens s\u00e3o marcadas por sofrimentos,\npreconceitos, desilus\u00f5es, mas tamb\u00e9m h\u00e1 instantes de felicidade e glamour.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, se o romance inicia apontando que no \u201cCemit\u00e9rio\nS\u00e3o Bento, no centro de Araraquara (SP), tem um t\u00famulo que n\u00e3o possui nome\u201d (p.\n7), termina afirmando que agora h\u00e1 uma placa com o nome de \u201cRicardo Correa da\nSilva, que viveu de 9 de dezembro de 1957 a 15 de dezembro de 2017\u201d (p. 189).\nRicardo foi uma vida vivida, apreendida e reconhecida pelas pessoas que marcou\ne pelos leitores que afetou.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro<\/em><strong> Ricardo e V\u00e2nia: o maquiador, a garota de programa, o silicone e uma hist\u00f3ria de amor<\/strong><em><strong>, <\/strong>de Chico Felitti, publicado pela<a href=\"https:\/\/todavialivros.com.br\/livros\/ricardo-e-vania\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" Editora Todavia (abre numa nova aba)\"> Editora Todavia<\/a> (S\u00e3o Paulo, 2019)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><strong><em>Sobre o resenhista: <\/em><\/strong><br><br><strong>Lucas Demingos de Oliveira<\/strong> \u00e9 doutorando em Letras pela UFRGS, com experi\u00eancia em Teoria Liter\u00e1ria, atuando principalmente nos seguintes temas: reconhecimento, trauma, precariedade, \u00e9tica e literatura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No domingo de P\u00e1scoa de 2017, Chico Felitti recebeu uma mensagem pelo Facebook que dizia: \u201cOi! 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