{"id":424,"date":"2019-11-06T13:53:59","date_gmt":"2019-11-06T16:53:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=424"},"modified":"2022-08-08T14:24:56","modified_gmt":"2022-08-08T17:24:56","slug":"cancao-popular-brasileira-e-literatura-sim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/cancao-popular-brasileira-e-literatura-sim\/","title":{"rendered":"Can\u00e7\u00e3o popular brasileira \u00e9 Literatura, sim!"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma verdade: a m\u00fasica popular\nbrasileira \u00e9 forte, \u00e9 bela, e isso n\u00e3o \u00e9 novidade!, aponta Jos\u00e9 Miguel Wisnik\nnas linhas iniciais do ensaio <em>A gaia ci\u00eancia: literatura e m\u00fasica popular no\nBrasil<\/em>. Agora, o que pode soar como novidade \u2013 ainda \u2013 \u00e9 dizer que can\u00e7\u00e3o \u00e9\nliteratura. Pois sim, can\u00e7\u00e3o \u00e9 literatura! N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que <em>Elis &amp; Tom<\/em>, \u00e1lbum\/disco de 1974, est\u00e1 entre as leituras\nobrigat\u00f3rias do vestibular da UFRGS. <\/p>\n\n\n\n<p>Em alguns ambientes acad\u00eamicos, entender\nque can\u00e7\u00e3o \u00e9 literatura, assim, de forma confort\u00e1vel, ainda n\u00e3o \u00e9 simples. Acredito\nque uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o para essa afirma\u00e7\u00e3o pode ser encontrada nesse mesmo\nensaio de Wisnik, ao dizer que umas das principais caracter\u00edsticas da can\u00e7\u00e3o\npopular brasileira \u00e9 a permeabilidade entre \u201ccultura alta\u201d e \u201cprodu\u00e7\u00f5es\npopulares\u201d, o que estabelece uma rela\u00e7\u00e3o escorregadia entre \u201cm\u00fasica de\nentretenimento e m\u00fasica informativa e criativa\u201d. Devido a essa observa\u00e7\u00e3o, a\ncan\u00e7\u00e3o pode ser vista como um objeto de estudo inst\u00e1vel. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p> &#8220;Dizer que m\u00fasica popular brasileira \u00e9 forte e bela \u00e9 mais verdade do que novidade\u201d <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em contrapartida, o autor tamb\u00e9m diz\nque a m\u00fasica popular do Brasil \u00e9 uma nova forma da \u201cgaia ci\u00eancia\u201d de Nietzsche,\nao comparar nosso saber po\u00e9tico musical com a grande tradi\u00e7\u00e3o proven\u00e7al do\ns\u00e9culo XII, na medida em que afirma que a nossa can\u00e7\u00e3o \u00e9 concebida enquanto um\n\u201csaber alegre\u201d \u2013 agudeza intelectual e \u201cinoc\u00eancia na alegria\u201d. Entenda melhor\nessa explica\u00e7\u00e3o nas palavras de Wisnik: \u201cO fato de que o pensamento mais\n\u2018elaborado\u2019, com seu lastro liter\u00e1rio, possa ganhar vida nova nas mais\nelementares formas musicais e po\u00e9ticas, e que essas, por sua vez, n\u00e3o sejam\nmais pobres por serem \u2018elementares\u2019, tornou-se a mat\u00e9ria de uma experi\u00eancia de\nprofundas consequ\u00eancias na vida cultural das \u00faltimas d\u00e9cadas\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Ao apresentar alguns dos principais\nrespons\u00e1veis dessa nova \u201cgaia ci\u00eancia\u201d, Wisnik fala sobre Vinicius de Moraes,\naquele que migrou do livro para a can\u00e7\u00e3o; Tom Jobim e a bossa nova; Jo\u00e3o\nGilberto e sua dic\u00e7\u00e3o, o gr\u00e3o da voz gilbertiana que, conforme Luiz Tatit, influenciou\ngrandes cancionistas brasileiros, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Roberto\nCarlos, Jorge Ben. <\/p>\n\n\n\n<p>Bom, foi justamente a partir desse\nensaio de Wisnik que eu entendi que can\u00e7\u00e3o \u00e9 literatura, l\u00e1 em 2017, o que me\nlevou a redigir um trabalho de conclus\u00e3o de curso sobre Maria Gad\u00fa. Escolhi\nessa cancionista por quatro grandes motivos: primeiramente, por aprecia\u00e7\u00e3o\npessoal; segundo, porque percebi que quase n\u00e3o se fala em mulheres\ncompositoras, assim como em diversas \u00e1reas do mundo art\u00edstico, cultural e\nintelectual, por conta do patriarcalismo; terceiro, porque ela tem grandes\ninflu\u00eancias de Caetano, Chico, Gil, Milton&#8230;; quarto, porque se trata de uma\ncancionista contempor\u00e2nea. <\/p>\n\n\n\n<p>Eu (e o Brasil inteiro) conheci Maria\nGad\u00fa por sua can\u00e7\u00e3o \u201cShimbalai\u00ea\u201d. Acredito que por ter um tom de m\u00fasica de\nentretenimento, acabou entrando na chave da produ\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, o que levou a\ncompositora \u00e0 fama. Bom, gostei da can\u00e7\u00e3o, acompanhei todos os \u00e1lbuns desde\n2009 at\u00e9 2015. Quando decidi estudar Maria Gad\u00fa, em 2018, voltei em suas\ncan\u00e7\u00f5es e percebi um grande grau de evolu\u00e7\u00e3o e maturidade ao ponto de compreender\nque suas can\u00e7\u00f5es eram literatura. <\/p>\n\n\n\n<p>A primeira percep\u00e7\u00e3o que tive ao\nreouvir suas can\u00e7\u00f5es foi: Maria, na verdade, sempre esteve, tamb\u00e9m, na chave da\nm\u00fasica informativa e criativa, pois no mesmo \u00e1lbum de \u201cShimbalai\u00ea\u201d estava \u201cDona\nCila\u201d, can\u00e7\u00e3o que se tornou objeto de estudo do meu TCC, junto com \u201cVaga\u201d e\n\u201cTecnopapiro\u201d, ambas do \u00e1lbum <em>Guel\u00e3<\/em>,\nde 2017. <\/p>\n\n\n\n<p>Para Wisnik, \u201ca rela\u00e7\u00e3o entre can\u00e7\u00e3o\npopular e literatura, no Brasil, se ela de fato existe como atra\u00e7\u00e3o magn\u00e9tica\nnuma parte respeit\u00e1vel dessa produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se deve a uma aproxima\u00e7\u00e3o exterior\nem que melodias servem de suporte a inquieta\u00e7\u00f5es \u2018cultas\u2019 e letradas, mas \u00e0\ndemanda interior de uma can\u00e7\u00e3o que est\u00e1 a servi\u00e7o do estado musical da palavra,\nperguntando \u00e0 l\u00edngua o que ela quer e o que ela pode\u201d. <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro<\/em> A gaia ci\u00eancia: literatura e m\u00fasica popular no Brasil<em>, de Jos\u00e9 Miguel Wisnik, publicado pela <a href=\"https:\/\/revistasdecultura.com\/cadernos-ultramares\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Oca Editorial (abre numa nova aba)\">Oca Editorial<\/a> (Lisboa, 2019)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><strong><em>Sobre a resenhista: <\/em><\/strong><em><br><br><\/em><strong>Carla Tassinari<\/strong> \u00e9 licenciada em Letras Portugu\u00eas, Ingl\u00eas e Literatura pela Universidade Feevale. Cantora, compositora, poeta, feminista e professora, faz Especializa\u00e7\u00e3o em Literatura Brasileira pela UFRGS. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma verdade: a m\u00fasica popular brasileira \u00e9 forte, \u00e9 bela, e isso n\u00e3o \u00e9 novidade!, aponta Jos\u00e9 Miguel Wisnik nas linhas iniciais do ensaio A gaia ci\u00eancia: literatura e m\u00fasica popular no Brasil. Agora, o que pode soar como novidade \u2013 ainda \u2013 \u00e9 dizer que can\u00e7\u00e3o \u00e9 literatura. Pois sim, can\u00e7\u00e3o \u00e9 literatura! N\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":432,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[379,378,377,376],"tags":[124,129,128,126,127,118],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/424"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=424"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/424\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":429,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/424\/revisions\/429"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/media\/432"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=424"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=424"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=424"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}