{"id":433,"date":"2019-11-11T09:00:16","date_gmt":"2019-11-11T12:00:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=433"},"modified":"2022-08-08T14:24:30","modified_gmt":"2022-08-08T17:24:30","slug":"uma-cronica-das-dores-e-delicias-de-sermos-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/uma-cronica-das-dores-e-delicias-de-sermos-brasileiros\/","title":{"rendered":"Uma cr\u00f4nica das dores e del\u00edcias de sermos brasileiros"},"content":{"rendered":"\n<p>Tratar o futebol como a express\u00e3o\nda mais genu\u00edna alma brasileira \u00e9 algo que todos n\u00f3s estamos acostumados a\nfazer. Assim como o carnaval, seu irm\u00e3o mais velho, cuja trajet\u00f3ria parece\nconfundir-se com a hist\u00f3ria da na\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m o futebol trilhou esse caminho, em\nque uma pr\u00e1tica amplamente disseminada entre as classes populares foi vista\ncomo paix\u00e3o nacional. Durante muito tempo, acreditamos na ideia de que o \u201cnosso\nfutebol\u201d seria capaz de nos diferenciar das outras na\u00e7\u00f5es. Internamente, ele\nteria o cond\u00e3o de nos irmanar e nos igualar enquanto cidad\u00e3os que compartilham,\nfraternos, o mesmo ber\u00e7o p\u00e1trio.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1vamos enganados. Contrariando\nessa vis\u00e3o de senso comum, foram bem poucos os atentos observadores do esporte\nbret\u00e3o \u2013 conv\u00e9m lembrar, o futebol nasceu na Inglaterra \u2013 capazes de\ndesconstruir o clich\u00ea, segundo o qual nossa p\u00e1tria estaria mesmo vestida de\nchuteiras. Sim, \u00e9 poss\u00edvel e necess\u00e1rio ver esse esporte de forma bem menos\npassional. \u00c9 justamente isso que o livro <em>Liga\nda canela preta: a hist\u00f3ria social do negro no futebol<\/em>, escrito pelo\nhistoriador Jos\u00e9 Ant\u00f4nio dos Santos, faz por brasileiras e brasileiros. Longe\nde refor\u00e7ar o futebol enquanto sinal m\u00e1ximo de nossa originalidade bras\u00edlica, a\nobra ressalta nossas rivalidades e desigualdades, nossas diferen\u00e7as e\nfronteiras, destacando as pr\u00e1ticas excludentes, elitistas e racistas que\nperpassam inc\u00f3lumes as quatro linhas da sociedade em que vivemos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p> &#8220;\u00c9 uma hist\u00f3ria constru\u00edda sobre as bases da pesquisa documental e da revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica, que descortinou a organiza\u00e7\u00e3o e o trabalho coletivo da popula\u00e7\u00e3o negra no enfrentamento ao racismo e ao preconceito, vigentes nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX&#8221;.  <\/p><cite>p.15<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Trata-se de narrativa flu\u00edda e\ninspirada. Bem documentada e sem notas de rodap\u00e9, a obra publicada em 2018 \u00e9\numa sequ\u00eancia de cr\u00f4nicas cujo centroavante \u00e9 o futebol, desde o pontap\u00e9\ninicial no Brasil, com direito a apito importado da Europa no final do s\u00e9culo\nXIX, at\u00e9 sua dissemina\u00e7\u00e3o entre praticantes oriundos dos mais diversos andares\ndas arquibancadas sociais durante as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. O texto\ndivertid\u00edssimo revela o talento de um historiador que a todo o momento dialoga\ncom leitoras e leitores, exp\u00f5e d\u00favidas, suscita dilemas e quest\u00f5es dif\u00edceis de\nresolver, aponta temas e lacunas ainda n\u00e3o pesquisados e, assim, oferece v\u00e1rias\ndicas de pesquisa, cumprindo muito bem a finalidade de inspirar futuras\ninvestiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossos gramados nem sempre foram\nt\u00e3o verdes quanto nos ilude nossa imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. O livro de Jos\u00e9 Ant\u00f4nio\n\u00e9 uma cr\u00f4nica da exclus\u00e3o, do elitismo e principalmente do racismo no futebol.\nL\u00e1 est\u00e3o os negros, filhos e netos de africanos, correndo atr\u00e1s da bola em uma\nsociedade que adotou o futebol pouco depois de abandonar a escravid\u00e3o; os\nimigrantes, que ainda nem falavam portugu\u00eas; as elites nacionais, esnobes e\nendinheiradas, empenhadas em seu del\u00edrio de reproduzir em solo tropical os\nh\u00e1bitos e estilos inventados em Paris e Londres. Todos esses personagens se\napropriaram do futebol e adaptaram o esporte estrangeiro \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida,\nde trabalho, de moradia, de lazer e de conviv\u00eancia no Brasil. Ao mesmo tempo, o\nfoco do livro recai sobre as formas negras do futebol.<\/p>\n\n\n\n<p>A express\u00e3o que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 obra \u2013\nLiga da Canela Preta \u2013 deriva de uma suposta congrega\u00e7\u00e3o de clubes de futebol\nformados por trabalhadores negros em Porto Alegre no in\u00edcio do s\u00e9culo XX.\nExclu\u00eddos da liga fundada pelas elites brancas, eles teriam formado a sua\npr\u00f3pria agremia\u00e7\u00e3o unificada. Pelo menos era o que se acreditava. Apoiado em\ns\u00f3lida pesquisa, o historiador Jos\u00e9 Ant\u00f4nio dos Santos oferece novas\nperspectivas sobre essa hist\u00f3ria, afirmando que \u201cn\u00e3o existiu uma liga de\nfutebol em Porto Alegre com o nome de Liga da Canela Preta\u201d. O autor explica\nque \u201cesta f\u00e1bula teve sua origem a partir da funda\u00e7\u00e3o da Liga de Futebol\nSul-Americana, em 1913, onde constavam alguns nomes de clubes negros de\nfutebol\u201d. Assim, \u201ccanela preta\u201d descortina-se como express\u00e3o depreciativa\nutilizada por jornalistas, cronistas de futebol e pesquisadores para referir os\ntimes compostos por pretos, pardos e outros mesti\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, tal interpreta\u00e7\u00e3o inova e\ncomplexifica nossos entendimentos sobre a din\u00e2mica esportiva naquele per\u00edodo.\nMas o livro n\u00e3o deixa de nos apresentar uma sociedade profundamente desigual em\ntermos de classe, ra\u00e7a e g\u00eanero. Afinal, desde o in\u00edcio do primeiro tempo, o\nfutebol foi um exerc\u00edcio &#8220;de homens&#8221;. As p\u00e1ginas escritas por Jos\u00e9\nAnt\u00f4nio escancaram o esporte como pr\u00e1tica de distin\u00e7\u00e3o das classes dominantes\nem rela\u00e7\u00e3o aos subalternos. Suas linhas ressaltam as teorias cient\u00edficas\nimportadas da Europa junto com o futebol, segundo as quais os negros seriam\nnaturalmente inferiores, sem intelig\u00eancia, pr\u00f3ximos dos animais. \u00c9 uma heran\u00e7a\ndaqueles dias o h\u00e1bito de chamar jogadores negros de \u201cmacacos\u201d. L\u00e1 est\u00e3o tamb\u00e9m\nas den\u00fancias contundentes sobre a persist\u00eancia do preconceito de cor no\nfutebol, realizadas pelos redatores negros do jornal <em>O Exemplo<\/em> e continuadas pelo famoso sambista Lupic\u00ednio Rodrigues. <\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria social do negro no\nfutebol, tal como apresentada na obra <em>Liga\nda Canela Preta<\/em>, \u00e9 uma via de acesso para compreender a hist\u00f3ria do Brasil.\nDiante das tristezas presentes em uma sociedade que sempre foi desigual, \u00e9\nainda mais triste observar tempos de grama seca e campos esburacados, em que a\nbola j\u00e1 n\u00e3o se move com a facilidade e o entusiasmo habituais. Diante de\nrevisionismos autorit\u00e1rios, p\u00f3s-verdades e convic\u00e7\u00f5es sem provas, o livro de\nJos\u00e9 Ant\u00f4nio dos Santos surge para nos lembrar de que o conhecimento hist\u00f3rico\nse constr\u00f3i com pesquisa s\u00e9ria e demorada. E que a maior originalidade\nnacional, aquela que nos diferencia dos outros pa\u00edses, n\u00e3o \u00e9 a forma como\npraticamos o futebol. \u00c9 a maneira como preferimos esconder de n\u00f3s mesmos o\nquanto ainda somos racistas.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro<\/em> <strong>A Liga da Canela Preta: a hist\u00f3ria social do negro no futebol<\/strong><em>, de Jos\u00e9 Ant\u00f4nio dos Santos, publicado pela <a href=\"http:\/\/www.diadorimeditora.com.br\/pd-61265f-liga-da-canela-preta.html\">editora <\/a><a href=\"http:\/\/www.diadorimeditora.com.br\/pd-61265f-liga-da-canela-preta.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Diadorim (abre numa nova aba)\">Diadorim<\/a><a href=\"http:\/\/www.diadorimeditora.com.br\/pd-61265f-liga-da-canela-preta.html\"> <\/a>(Porto Alegre, 2018)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><em><strong>Sobre o resenhista:<\/strong><\/em><strong><br><br>Marcus Vinicius de Freitas Rosa<\/strong> \u00e9 T\u00e9cnico em Assuntos Educacionais da UFRGS, com doutorado em Hist\u00f3ria Social da Cultura pela UNICAMP. \u00c9 coordenador do curso de forma\u00e7\u00e3o continuada Territ\u00f3rios Negros: patrim\u00f4nio afro-brasileiro em Porto Alegre, oferecido pela Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o. Faz parte do N\u00facleo de Estudos Afro-Brasileiros, Ind\u00edgenas e Africanos (NEAB) e do Departamento de Estudos e Desenvolvimento Social (DEDS).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tratar o futebol como a express\u00e3o da mais genu\u00edna alma brasileira \u00e9 algo que todos n\u00f3s estamos acostumados a fazer. 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