{"id":458,"date":"2019-12-10T12:52:10","date_gmt":"2019-12-10T15:52:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=458"},"modified":"2022-08-08T14:22:16","modified_gmt":"2022-08-08T17:22:16","slug":"entre-liberais-e-conservadores-revolucionario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/entre-liberais-e-conservadores-revolucionario\/","title":{"rendered":"Entre liberais e conservadores, revolucion\u00e1rio?"},"content":{"rendered":"\n<p>Liberal, conservador,\nrevolucion\u00e1rio, totalit\u00e1rio, nacionalista etc. s\u00e3o todos chav\u00f5es utilizados em\nmuitas explica\u00e7\u00f5es sobre o pensamento de Hegel. Isso ajudou a gerar uma\nconfus\u00e3o generalizada a respeito da pr\u00f3pria filosofia hegeliana. Por exemplo, a\nlonga censura ao fil\u00f3sofo no s\u00e9culo XX, derivada da acusa\u00e7\u00e3o de ser fonte\nte\u00f3rica do nacional-socialismo. Felizmente isso parece ter chegado ao fim, mas\naparentemente sem que com isso sumisse a utiliza\u00e7\u00e3o dos velhos chav\u00f5es. Isso \u00e9\nsentido nos trabalhos recentes sobre o autor, que, na sua maioria, ou reivindicam\na posse da \u201cverdade\u201d do pensamento de Hegel, ou tentam torn\u00e1-lo <em>up-to-date<\/em>.\nEm meio a isso, muitas vers\u00f5es de um Hegel conservador e de um Hegel liberal\nsurgiram. Domenico Losurdo pretende fugir dessa polaridade em <em>Hegel e a\nliberdade dos modernos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O autor pretende apresentar\numa vers\u00e3o n\u00e3o simplificadora de Hegel e faz isso articulando um rico material\nte\u00f3rico. Com isso, tenta mostrar a singularidade do pensamento hegeliano frente\na diversos outros pensadores da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. O problema \u00e9 que, com isso,\nparece conduzir \u00e0s vezes a caricaturas desses outros pensadores: um Burke com\ntend\u00eancias autorit\u00e1rias; um Locke socialmente insens\u00edvel. Na tentativa de\nmostrar a complexidade te\u00f3rica que marca a filosofia de Hegel, Losurdo acaba por\nsimplificar a de uns tantos outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Poder\u00edamos pensar que\nessa seria uma tentativa de afastar quaisquer leituras dualistas sobre Hegel. Contudo,\ne isso j\u00e1 era de se imaginar pela filia\u00e7\u00e3o de Losurdo, a tentativa \u00e9 a de complexificar\nas nuances te\u00f3ricas do pr\u00f3prio socialismo. A ado\u00e7\u00e3o hegeliana por tal programa\n\u00e9 a tese a que Losurdo, com muita sutileza, nos conduz. Aquilo que parecia\ninicialmente ser a tentativa de elucidar um pensamento filos\u00f3fico espec\u00edfico se\nrevela ser a de mostrar as complexidades de um programa te\u00f3rico-pol\u00edtico amplo.\nO pensador complexo que foi Hegel aparentemente ajudaria nessa tarefa. <\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a interpreta\u00e7\u00e3o\nque Losurdo possui da tese hegeliana da realidade do racional e da\nracionalidade do real seja a mais significativa nesse sentido. Essa tese, que\nfoi acolhida sob diferentes perspectivas tanto pela ala \u201cprogressista\u201d quanto\npela \u201cconservadora\u201d dos primeiros hegelianos, \u00e9, segundo Losurdo, \u201codiada pelos\nreacion\u00e1rios e malvista tamb\u00e9m pelos liberais\u201d, mas \u201cencontra acolhida\nfavor\u00e1vel ou entusiasta no campo revolucion\u00e1rio\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>A raz\u00e3o disso \u00e9 que o\nautor enxerga, tanto em \u201creacion\u00e1rios\u201d quanto em liberais\u201d, o que chama de\n\u201crecusa do moderno\u201d e \u201cculto a her\u00f3is\u201d. Isso representaria a valoriza\u00e7\u00e3o de um\ntempo que se passou em detrimento do tempo atual e sua realidade socialista\ncada vez mais poss\u00edvel. Diferente daquela nostalgia, a tese da unidade entre\nracional e real legitimaria a tentativa de efetiva\u00e7\u00e3o dos ideais que pairavam\nsobre certa \u00e9poca. Essa tese, segundo Losurdo, \u201c\u00e9 parte integrante da\nprepara\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do 1848\u201d. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;Naturalmente, a tese hegeliana da unidade entre racional e real se manteve no \u00e2mbito da tradi\u00e7\u00e3o de pensamento que se originou com Marx apenas na medida em que permaneceu de p\u00e9 o dif\u00edcil equil\u00edbrio entre legitimidade do moderno e balan\u00e7o cr\u00edtico da modernidade, que \u00e9 caracter\u00edstico de Marx e que ele claramente herdou de Hegel.&#8221;<\/p><cite>p.376<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em diversos momentos, o\nautor parece conceber tanto liberais quanto conservadores como concorrentes no\ninterior do mesmo programa, a saber, um programa antirrevolucion\u00e1rio. Isso nos\nindica que os argumentos de Losurdo, na verdade, n\u00e3o se diferem daqueles\nconcebidos pela ala progressista dos primeiros hegelianos, com adeptos como\nKarl Marx e Ferdinand Lassalle, ambos citados pelo autor de forma bem positiva.<\/p>\n\n\n\n<p>De modo geral, ent\u00e3o,\ntudo isso permite ao leitor questionar se o procedimento a que Losurdo nos\nconduz passa ao escrut\u00ednio de sua pr\u00f3pria inten\u00e7\u00e3o, qual seja, a de apresentar\numa vers\u00e3o n\u00e3o reducionista da filosofia de Hegel. Sua contribui\u00e7\u00e3o com isso\nparece ser mais bem encarada se a entendermos como uma defesa de uma\nperspectiva espec\u00edfica a respeito do papel da filosofia hegeliana no interior\nde outra tradi\u00e7\u00e3o, ou seja, daquela mais amplamente difundida por Marx. <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro<\/em> Hegel e a liberdade dos modernos<em>, de Domenico Losurdo, publicado pela<a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/hegel-e-a-liberdade-dos-modernos-883\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" Boitempo (abre numa nova aba)\"> Boitempo<\/a> (S\u00e3o Paulo, 2019)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><strong><em>Sobre o resenhista:<\/em><\/strong><br><br><strong>Luiz Filipe da Silva Oliveira<\/strong> \u00e9 mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora e doutorando em Filosofia na UFRGS. Dedica-se a pesquisas sobre ontologia e subjetividade na Filosofia Cl\u00e1ssica Alem\u00e3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Liberal, conservador, revolucion\u00e1rio, totalit\u00e1rio, nacionalista etc. s\u00e3o todos chav\u00f5es utilizados em muitas explica\u00e7\u00f5es sobre o pensamento de Hegel. Isso ajudou a gerar uma confus\u00e3o generalizada a respeito da pr\u00f3pria filosofia hegeliana. Por exemplo, a longa censura ao fil\u00f3sofo no s\u00e9culo XX, derivada da acusa\u00e7\u00e3o de ser fonte te\u00f3rica do nacional-socialismo. 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