{"id":463,"date":"2019-12-16T15:28:05","date_gmt":"2019-12-16T18:28:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=463"},"modified":"2022-08-08T14:23:36","modified_gmt":"2022-08-08T17:23:36","slug":"o-prazer-feminino-e-uma-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/o-prazer-feminino-e-uma-revolucao\/","title":{"rendered":"O prazer feminino \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>A masturba\u00e7\u00e3o e o prazer feminino\nainda s\u00e3o tabus nas conversas, nas escolas, no cinema e tamb\u00e9m na literatura.\nN\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a maioria dos livros pouco aborda a tem\u00e1tica. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa,\ntamb\u00e9m, que, ao come\u00e7ar a ler no \u00f4nibus <em>Clit\u00f3ria<\/em>,\nescrito por Adriana Mondadori, senti a press\u00e3o de estar naquele ambiente com um\ntexto que se pode considerar disruptivo, mesmo que ningu\u00e9m tenha falado algo. <\/p>\n\n\n\n<p>Em uma obra chamada <em>Descentramentos\/Converg\u00eancias Ensaios de\nCr\u00edtica Feminista<\/em>, de Rita Terezinha Schmidt, que j\u00e1 li h\u00e1 mais de ano,\npercebi (com espanto, por n\u00e3o ter percebido antes) o quanto as personagens\nfemininas s\u00e3o apagadas e silenciadas. A vida sexual e o desejo dessas mulheres,\nassim como a intelectualidade e outros tantos aspectos complexos de nossa\nexist\u00eancia, praticamente n\u00e3o existem nos enredos. Em <em>Clit\u00f3ria<\/em>, entretanto, tive a oportunidade de conhecer uma narrativa\nsens\u00edvel, delicada, deliciosa e, sobretudo, real sobre sexo, orgasmo,\nmasturba\u00e7\u00e3o, cuidado e autoconhecimento. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;Quanto tempo dura o orgasmo? O que sentimos?<br> Dizem que s\u00e3o segundos, e a sensa\u00e7\u00e3o incorp\u00f3rea \u00e9 indecifr\u00e1vel.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Com 35 poemas e ensaios, a obra precisa\nser lida no \u00f4nibus para provocar a estrutura social que silencia o feminino,\nmas tamb\u00e9m em voz alta, na quietude do quarto, em um momento \u00edntimo de\nreflex\u00e3o. A fluidez das palavras combina em tudo com a sensualidade do corpo e\na sensa\u00e7\u00e3o de \u00eaxtase provocada pelo prazer. Al\u00e9m disso, as diversas met\u00e1foras\nfeitas com as flores \u2013 a flor que d\u00e1 nome \u00e0 obra, segundo a autora, \u00e9 de origem\nasi\u00e1tica e desperta a libido de quem a contempla \u2013 conferem a esse momento, por\ntanto tempo e ainda condenado, beleza e naturalidade. \u00c9 um outro jeito de\nolhar, um contraponto necess\u00e1rio ao conceito de pecado que paira sobre uma\npr\u00e1tica t\u00e3o humana. <\/p>\n\n\n\n<p>O livro tamb\u00e9m apresenta alguns\nelementos da poesia concreta em que o ritmo da leitura conversa com a imagem\nvisual formada pelas palavras. <\/p>\n\n\n\n<p>Os poemas s\u00e3o acompanhados de\nilustra\u00e7\u00f5es, igualmente delicadas, de tra\u00e7os finos. Em muitos deles \u2013\ndiferentemente das tantas imagens grotescas, criadas pela pornografia, que\ntemos de sexo, em que a viol\u00eancia parece ser a chave para o orgasmo feminino, o\nque n\u00e3o se confirma na realidade \u2013, o prazer \u00e9 representado como uma\nconstru\u00e7\u00e3o; o prazer \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de estar em casa, \u00e9 a conex\u00e3o entre a\nnatureza humana e o ambiente, entre os(as) parceiros(as). Mas o prazer tamb\u00e9m \u00e9\npotente, selvagem, transformador. \u201cA tarde chegara com a garoa escabelada pelo\nvento entre a infinitude das equa\u00e7\u00f5es, os tensos fatos hist\u00f3ricos e os t\u00eanis\nespalhados no tapete beijavam e despiam\u201d \u00e9 um trecho do poema Deflora\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>No pr\u00f3logo, que em <em>Clit\u00f3ria <\/em>se intitula Preliminares, Adriana conta que os ensaios surgiram \u201cde rodas de conversas permeadas por caf\u00e9s, vinhos e morangos, risos e rosas, l\u00e1grimas e aromas femininos\u201d. Ela ainda diz que \u201cescrever sobre uma sensibilidade \u00fanica e m\u00faltipla, n\u00e9ctar, originada de v\u00e1rias formas, explicar o inexplic\u00e1vel, foi uma descoberta incr\u00edvel\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>A capacidade de nomear sentimentos e\nsensa\u00e7\u00f5es t\u00e3o profundos e at\u00e9 hoje t\u00e3o pouco explorados \u00e9 o grande m\u00e9rito da\nobra. Ler <em>Clit\u00f3ria <\/em>foi um momento de\napreciar a cad\u00eancia das palavras, entender o ritmo que elas produzem ao serem\nverbalizadas, como elas podem representar o movimento do corpo da mulher. Foi,\nda mesma forma, um momento de parar, refletir e valorizar a sexualidade\nfeminina e de pensar como isso pode contribuir para a forma\u00e7\u00e3o e o\nempoderamento revolucion\u00e1rio de uma mulher. <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro <\/em>Clit\u00f3ria<em>, de Adriana Mondadori, publicado pela <a href=\"https:\/\/www.editorametamorfose.com.br\/1056683\/clitoria\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Editora Metamorfose  (abre numa nova aba)\">Editora Metamorfose <\/a>(Porto Alegre, 2019)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><strong><em>Sobre a resenhista:<\/em><\/strong><br><br><strong>B\u00e1rbara Lima<\/strong> \u00e9 estudante de Jornalismo da UFRGS e bolsista no Jornal da Universidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A masturba\u00e7\u00e3o e o prazer feminino ainda s\u00e3o tabus nas conversas, nas escolas, no cinema e tamb\u00e9m na literatura. 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