{"id":470,"date":"2020-01-13T11:16:12","date_gmt":"2020-01-13T14:16:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=470"},"modified":"2022-08-08T14:44:36","modified_gmt":"2022-08-08T17:44:36","slug":"falando-sobre-afrobolivianidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/falando-sobre-afrobolivianidades\/","title":{"rendered":"Falando sobre afrobolivianidades"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Tio Juanch\u00edn<\/em>,\n<em>Tia Raymunda<\/em>, <em>Tio Vicente<\/em>, <em>awincho Chan-Chan\u2026<\/em> Entre <em>piqchadas<\/em>\nde folhas de coca, caminhos percorridos na Toca\u00f1a e experi\u00eancias pessoais da\nnegritude, podemos reconhecer as diferen\u00e7as, identidades e modos de exist\u00eancia\nafrobolivianos que est\u00e3o para al\u00e9m da epiderme? De minha parte, vejo que as\nconstru\u00e7\u00f5es coloniais de ra\u00e7a, desde a <em>plantation <\/em>at\u00e9 os dias de hoje,\ns\u00f3 produziram esquemas de domina\u00e7\u00e3o nos quais as diferen\u00e7as e os modos de ser,\ncontr\u00e1rios ao ideologema racial, foram impedidos de falar sobre si, de\nexpressarem seus modelos perceptivos e afetivos. <\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, Luis Fernando de Jes\u00fas Reyes Escate vem apresentar as narrativas que questionam os modelos raciais desde uma perspectiva que leva em conta os encontros, tanto os do pr\u00f3prio antrop\u00f3logo \u2013 ao reconhecimento de sua afroperuanidade \u2013 como as possibilidades de devir, de fluxos identit\u00e1rios, que n\u00e3o possuem come\u00e7o nem fim. Por isso, <em>Negros Devires: seguindo as trajet\u00f3rias de negritudes materiais na Bol\u00edvia<\/em> pode ser lido no \u00e2mbito de uma abordagem que valoriza a experi\u00eancia pessoal e seus efeitos sobre a Antropologia.<\/p>\n\n\n\n<p>Aportando diferentes momentos de sua vida, desde a inf\u00e2ncia \u00e0 academia, e, por sua vez, enquanto pesquisador <em>do que \u00e9 ser negro?<\/em>, Luis, em sua narrativa, produz uma interessante incurs\u00e3o ao interior da Bol\u00edvia, buscando mostrar o que \u00e9 \u201cestar em campo\u201d \u2013 fato crucial para a Antropologia \u2013, no esfor\u00e7o em deslocar-se de uma posi\u00e7\u00e3o estrita de pesquisador (que ele n\u00e3o deixa de ser) para uma forma de interlocu\u00e7\u00e3o que o toma enquanto aliado das negritudes.<\/p>\n\n\n\n<p>Postura, diga-se, j\u00e1 largamente acionada em diferentes estudos e viv\u00eancias antropol\u00f3gicas: Luis enfrenta, \u201cem campo\u201d, o cl\u00e1ssico \u201cfamiliarizar o estranho\u201d e \u201cestranhar o familiar\u201d. Disto, o autor n\u00e3o foge em nenhum instante. Por\u00e9m, os fluxos de negritudes (que, para mim, v\u00e3o al\u00e9m dos \u201cmateriais\u201d que ele evoca) s\u00f3 podem provocar outros devires, outros fluxos, caminhos reversos da percep\u00e7\u00e3o racializada.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos, neste livro, reconhecer possibilidades pol\u00edticas de resist\u00eancia e de luta pela negritude? Sim, principalmente nas pessoas interlocutoras da pesquisa, que tra\u00e7am os caminhos, tecem as redes de conex\u00f5es por onde passa Luis, o jovem afroperuano que vai sendo afetado por esses encontros, pelos movimentos e mensagens que o cotidiano e as pessoas o indicam\/convidam.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas diferentes afec\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, pelos devires, na leitura, as falas das pessoas nos brindam: lembrando os tios e as tias com quem o autor conviveu durante um tempo e que, a meu ver, s\u00e3o o cerne do livro, vemos que, por exemplo, ao falar com a <em>Tia Marta <\/em>sobre essencialismos raciais, Luis toma a seguinte resposta: \u201cTu achas que os negros t\u00eam que ser de uma maneira s\u00f3?\u201d. Ainda, do <em>Tio Juanch\u00edn<\/em>, recebe a seguinte interpela\u00e7\u00e3o: \u201c&#8230;n\u00f3s tamb\u00e9m podemos ensinar, n\u00e3o \u00e9?\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas o relato mais impressionante e potente vem de <em>Tio Vicente<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cOs negros\u2026 a primeira vez que eles chegaram na Bol\u00edvia, foram trazidos como escravos da \u00c1frica\u2026 Ent\u00e3o, em 1825, com a independ\u00eancia da Bol\u00edvia, todos os negros e \u00edndios foram libertados. Foi assim que as pessoas negras que trabalhavam nas minas procuraram se mudar para outros lugares\u2026 em 1852, com a reforma agr\u00e1ria, quando nos tornamos livres mais uma vez, a Toca\u00f1a se tornou nosso pequeno canto da \u00c1frica na Bol\u00edvia.\u201d<\/p><cite>p.92-3<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Luis sugere que o interm\u00e9dio da rela\u00e7\u00e3o que construiu junto aos toca\u00f1eros na Bol\u00edvia se deu pelo seu corpo, mas, ao referir seu sobrenome Reyes, os negros de Toca\u00f1a logo o familiarizaram, pois muitos ali possuem o sobrenome Rey, afirmando, portanto, uma negritude, uma proximidade que o tornou um \u201cigual, mas diferente\u201d, o que, certamente, vai al\u00e9m da corporeidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o autor tenha apreendido importantes rela\u00e7\u00f5es e narrativas sobre as categorias sociais, raciais e pol\u00edticas, de uso recorrente nas interpela\u00e7\u00f5es do chamado Estado plurinacional Boliviano \u2013 deposto, no ano de 2019, numa manobra que envolve setores da elite local e de outros pa\u00edses, membros de igrejas neopentecostais e (para)militares contra os povos ind\u00edgenas (maioria na Bol\u00edvia) \u2013, a ins\u00edgnia da Na\u00e7\u00e3o e o ideologema da ra\u00e7a s\u00e3o de dif\u00edcil desconstru\u00e7\u00e3o, tanto l\u00e1 quanto c\u00e1. De nossa parte, perguntaremos: que aprendizagens s\u00e3o poss\u00edveis ao vermos as diferen\u00e7as n\u00e3o como opositivas mas, sim, como construtivas, potentes?<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, podemos aportar ao livro v\u00e1rias reflex\u00f5es e cr\u00edticas, tanto te\u00f3ricas como da realiza\u00e7\u00e3o da etnografia, o que, por sua vez, n\u00e3o diminuem as valiosas narrativas trazidas pelas\/os interlocutoras\/es do autor. Elas sugerem que uma importante constata\u00e7\u00e3o \u2013 a de que \u201cn\u00e3o se trata de ser\u2026 mas de devir\u201d (p. 115) \u2013 evoca, ao inv\u00e9s da identidade pura e concreta, os fluxos de diferencia\u00e7\u00f5es que n\u00e3o tomam modelos fixos. Assim, vamos apreendendo, com os <em>tios<\/em> e as <em>tias<\/em>, para al\u00e9m da etnografia, os negros devires.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro <\/em>Negros Devires: seguindo as trajet\u00f3rias das negritudes materiais na Bol\u00edvia<em>, de Luis Fernando de Jes\u00fas Reyes Escate, publicado pela <a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Editora da UFRGS  (abre numa nova aba)\" href=\"http:\/\/livraria.ufrgs.br\/produto\/15275\/negros-devires-seguindo-as-trajetorias-das-negritudes-materiais-na-bolivia\" target=\"_blank\">Editora da UFRGS <\/a>(Porto Alegre, 2018)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><strong><em>Sobre o resenhista: <\/em><\/strong><br><br><strong>Jo\u00e3o Daniel Dorneles Ramos <\/strong>\u00e9 cientista social, mestre em Sociologia, doutor em Antropologia Social (UFRGS) e pesquisador-ativista junto a coletivos afro-brasileiros, religiosidades de matriz africana, quilombolas e coletivos amer\u00edndios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tio Juanch\u00edn, Tia Raymunda, Tio Vicente, awincho Chan-Chan\u2026 Entre piqchadas de folhas de coca, caminhos percorridos na Toca\u00f1a e experi\u00eancias pessoais da negritude, podemos reconhecer as diferen\u00e7as, identidades e modos de exist\u00eancia afrobolivianos que est\u00e3o para al\u00e9m da epiderme? 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