{"id":505,"date":"2020-04-17T18:17:28","date_gmt":"2020-04-17T21:17:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=505"},"modified":"2022-08-08T14:44:07","modified_gmt":"2022-08-08T17:44:07","slug":"a-face-secreta-da-sombra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/a-face-secreta-da-sombra\/","title":{"rendered":"A face secreta da sombra"},"content":{"rendered":"\n<p>Dois misteriosos\nfurinhos em uma porta que atraem os curiosos pelo facho de luz que\ndeles emana. Em volta, uma sombra, uma m\u00e1scara. Assim come\u00e7a a\nhist\u00f3ria de <em>A parte de sombra na \u00faltima obra de Marcel Duchamp<\/em>,\nde Jean Lancri.  Como uma m\u00e1scara negra, aquela que nos levaria a\npensar sobre a misteriosa diferen\u00e7a entre a inten\u00e7\u00e3o e a\nrealiza\u00e7\u00e3o de uma obra de arte, como bem lembrou Sandra Rey, no\nposf\u00e1cio deste belo livro. \n<\/p>\n\n\n\n<p>Trabalhar com\narte significa trabalhar a partir de priva\u00e7\u00f5es, de faltas. Um\ndesejo de algo ausente. Da mesma maneira, fazer de seu pr\u00f3prio corpo\no sujeito de sua obra significa n\u00e3o parar de registrar as\nmodifica\u00e7\u00f5es do tempo e, mesmo em um teatro noturno, encenar a\nproximidade da chegada da morte como nega\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o. \n<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p> \u201cPorque (\u00e9 preciso lembrar), fotografar \u00e9 n\u00e3o ver, \u00e9 n\u00e3o saber completamente o que realmente se captura em uma foto no momento da tomada fotogr\u00e1fica; ali\u00e1s, criar n\u00e3o \u00e9, tamb\u00e9m, n\u00e3o conhecer com exatid\u00e3o o que se est\u00e1 criando?\u201d<\/p><cite>  (p. 68)     <\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 esta a\nang\u00fastia que move os artistas? Desejo de se eclipsar, se ocultar,\npara melhor se mostrar? E eternizar este desejo em uma forma,\nparalis\u00e1-lo em e atrav\u00e9s da imagem? Conforme Jean Lancri, \u201cna\norigem do desejo de imaginar, figuraria a vontade de dar uma imagem\nao desejo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em literatura, a\nsombra aparece como met\u00e1fora da continua\u00e7\u00e3o do vis\u00edvel no\ninvis\u00edvel. S\u00e3o as apari\u00e7\u00f5es espectrais, que pertencem a um reino\nsombrio, e que nos atormentam. A constitui\u00e7\u00e3o de um arquivo de\nsombras de si mesmo, como realizou Duchamp em <em>\u00c9tant Donn\u00e9s<\/em>,\ntransformou-se assim em um projeto museol\u00f3gico, cuja finalidade\nseria a de realizar uma obra p\u00f3stuma como um manifesto que colocasse\n\u201cem trabalho\u201d uma outra obra oculta. Esta \u00e9 a tese de Jean\nLancri neste pequeno livro composto de 80 notas acompanhadas por um\npr\u00f3logo de Alfredo Jerusalinsky e um posf\u00e1cio de Sandra Rey, ambos\nmagn\u00edficos, que complementam o belo livro.<\/p>\n\n\n\n<p>No fundo estaria\na ideia de que a obra confere ao artista o dom da imortalidade. Como\ndiria Anne Moeglin-Delcroix, essa atitude levaria a um aforismo que\nse resume nos seguintes termos: <em>\u201cwork in progress, death in\nprogress\u201d.<\/em> Isso significaria ir adiante do tempo ao inv\u00e9s de\nsegui-lo, e preparar-se para a surpresa da finitude do corpo, e da\nmorte. \n<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia do livro\nde Lancri nasceu com uma visita ao museu da Filad\u00e9lfia, onde a obra\np\u00f3stuma de Duchamp foi erigida no ano de 1969, logo ap\u00f3s a morte do\nartista. Parado diante da porta da instala\u00e7\u00e3o, Lancri, o autor do\nlivro, teve uma esp\u00e9cie de <em>insight<\/em> ao perceber o halo, uma\nm\u00e1scara que se revelava, fruto do tra\u00e7o da passagem de in\u00fameros\nvisitantes do Museu. Era a impress\u00e3o de suas faces quando eles se\napoiavam na porta para contemplar a mulher que no interior se exibia.\n<\/p>\n\n\n\n<p>A hip\u00f3tese do\nautor \u00e9 a de que a instala\u00e7\u00e3o de Duchamp seria uma esp\u00e9cie de\narmadilha, concebida pelo artista para atrair o espectador para\nproduzir a sombra, que se transformaria em uma obra aut\u00f4noma. Uma\nobra aberta, minimalista. Um estranho sud\u00e1rio anunciando a morte,\natrav\u00e9s de um fantasma de corpo, enfim, uma obra pobre como a\nfotografia. \n<\/p>\n\n\n\n<p>Tal como uma\nfotografia, o halo seria um \u00edndice, uma impress\u00e3o cega da luz, um\nfantasma de origem que nasce \u00e0s cegas neste contato do observador\ncom a obra. A fascina\u00e7\u00e3o recorrente do artista com a morte, e com o\ndesejo de imortalidade, estaria ali revelada em nossas pr\u00f3prias\nsombras.<\/p>\n\n\n\n<p>O artista,\nsegundo Lancri, nos mostra o quanto \u00e9 t\u00eanue essa membrana que\nsepara a vida e a morte, em um corpo que se apresenta e se ausenta \u2013\ne marca o desejo de realizar uma obra Este seria, como bem lembra\nSandra Rey no posf\u00e1cio do livro, o \u201ccoeficiente da arte\u201d, a\ndiferen\u00e7a entre o que o artista projetou realizar e o que ele\nrealmente realizou. Um livro indispens\u00e1vel, n\u00e3o s\u00f3 para os\nartistas, mas para todo aquele que se indaga sobre as fun\u00e7\u00f5es da\narte.  \n<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-luminous-vivid-amber-color\"><em>Resenha do livro <\/em>A parte de sombra na \u00faltima obra de Marcel Duchamp: oitenta notas ou sombras projetadas sobre \u00c9tant Donn\u00e9s<em>, de Jean Lancri, traduzida por<\/em> <em>Sandra Rey e publicada pela <a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Editora da UFRGS (abre numa nova aba)\" href=\"http:\/\/livraria.ufrgs.br\/produto\/15294\/a-parte-de-sombra-na-ultima-obra-de-marcel-duchamp-oitenta-notas-ou-sombras-projetadas-sobre-etant\" target=\"_blank\">Editora da UFRGS<\/a> (Porto Alegre, 2019)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-background has-very-light-gray-background-color\"><strong><em>Sobre o resenhista: <br><br><\/em>Eduardo Vieira da Cunha<\/strong> \u00e9 artista visual e professor do Instituto de Artes e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Artes Visuais (PPGAV) da UFRGS.  <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois misteriosos furinhos em uma porta que atraem os curiosos pelo facho de luz que deles emana. 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