{"id":523,"date":"2020-10-12T12:00:00","date_gmt":"2020-10-12T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=523"},"modified":"2022-08-08T15:44:31","modified_gmt":"2022-08-08T18:44:31","slug":"um-livro-contestacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/um-livro-contestacao\/","title":{"rendered":"Um livro contesta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o se engane pelo tamanho relativamente pequeno do livro em quest\u00e3o: suas 90 p\u00e1ginas, distribu\u00eddas em cinco t\u00f3picos de discuss\u00e3o, s\u00e3o densas e instigantes. Elas permitem diversas possibilidades de aprofundamento da an\u00e1lise referenciando importantes estudos realizados por pesquisadoras e pesquisadores sobre a Amaz\u00f4nia. \u00c9 aquele livro que atua como um fio de novelo que, ao ser puxado, vai te levando a diversos outros caminhos e perspectivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim \u00e9 <em>Amaz\u00f4nia: por uma economia do conhecimento da natureza<\/em>, de Ricardo Abramovay, um \u201clivro contesta\u00e7\u00e3o\u201d que, com base em argumentos e extensos dados emp\u00edricos, procura desconstruir a constante de que para a Amaz\u00f4nia crescer economicamente \u00e9 necess\u00e1ria a substitui\u00e7\u00e3o de suas \u00e1reas florestais por atividades do agroneg\u00f3cio extensivo \u2013 que \u00e9 o que a expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola sobre a Amaz\u00f4nia Legal tem realizado com infeliz efici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>\u201c\u00c9 chocante o contraste entre a ousadia do Brasil democr\u00e1tico em preservar metade da Amaz\u00f4nia brasileira e a incapacidade de que esta determina\u00e7\u00e3o seja efetivamente respeitada.\u201d <\/em><\/p><cite><em>(p. 67)<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Abramovay exp\u00f5e dados macroecon\u00f4micos contrastados com dados de desmatamento e produtividade do agroneg\u00f3cio (p. 39) confirmando que n\u00e3o \u00e9 preciso desmatar para fazer crescer os ganhos do setor prim\u00e1rio, capitaneados pelas commodities. Ou seja, desconstr\u00f3i o principal argumento daqueles que acreditam que a substitui\u00e7\u00e3o de floresta e povos tradicionais por soja e maquin\u00e1rios agr\u00edcolas n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel como necess\u00e1ria para o crescimento econ\u00f4mico da regi\u00e3o e do pa\u00eds. Uma fal\u00e1cia que, al\u00e9m de devastadora social e ambientalmente, concentra recursos, amplia desigualdades e \u00e9 um tiro no p\u00e9 para os compromissos firmados pelo Brasil nos acordos clim\u00e1ticos realizados, sobretudo, no \u00e2mbito da COP 21 que resultou no Acordo de Paris.<\/p>\n\n\n\n<p>As COP s\u00e3o as Confer\u00eancias das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre as Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, e s\u00e3o importantes espa\u00e7os de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-cient\u00edfica para conhecimento das altera\u00e7\u00f5es do clima em escala global e, sobretudo, para firmar acordos de responsabilidade ambiental dos pa\u00edses. O Acordo de Paris \u00e9 exemplo disto, e \u00e9 o \u00faltimo documento norteador de compromissos estabelecidos pelos pa\u00edses para alcan\u00e7ar as metas necess\u00e1rias a fim de mitigar ou reverter os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. O autor cita em trechos do livro alguns dos compromissos firmados pelo Brasil, tal como zerar o desmatamento ilegal e reflorestar 12 milh\u00f5es de hectares (p. 61), ambos at\u00e9 2030.<\/p>\n\n\n\n<p>O car\u00e1ter \u201ccontesta\u00e7\u00e3o\u201d do livro \u00e9 evidenciado por sua pr\u00f3pria estrutura, organizado em par\u00e1grafos-t\u00f3picos que d\u00e3o for\u00e7a argumentativa ao que a Amaz\u00f4nia foi no passado, \u00e9 no presente, al\u00e9m do que pode e deve vir a ser no futuro. Apresenta n\u00e3o somente os riscos que a regi\u00e3o de maior biodiversidade do planeta tem corrido por nossa incapacidade de gest\u00e3o \u2013 savaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 um deles, e talvez dos mais graves \u2013, mas tamb\u00e9m as possibilidades que ela nos permite enquanto rica fonte de servi\u00e7os ecossist\u00eamicos prestados, sobretudo no contexto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que j\u00e1 estamos vivenciando.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, o Brasil e a Amaz\u00f4nia t\u00eam dois principais e importantes pap\u00e9is na mitiga\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas: interromper imediatamente o desmatamento e alcan\u00e7ar a meta de desmatamento zero, e fazer emergir o que o autor chama de \u201cuma economia do conhecimento da natureza\u201d, termo elaborado pela ge\u00f3grafa e profunda conhecedora das quest\u00f5es amaz\u00f4nicas Bertha Becker. Para alcan\u00e7ar com \u00eaxito estes dois desafios, \u00e9 necess\u00e1rio investir nas \u00e1reas protegidas que o pa\u00eds det\u00e9m, \u00e2mbito em que \u00e9 modelo mundial; reconhecer o papel estrat\u00e9gico dos povos e popula\u00e7\u00f5es tradicionais, bem como de suas atividades e riquezas culturais; investir em ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o para conhecimento e aproveitamento das enormes possibilidades que a Amaz\u00f4nia em p\u00e9 oferta em \u00e1reas como biotecnologia, manejo florestal, turismo de base comunit\u00e1ria e os valorosos servi\u00e7os ecossist\u00eamicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, ao passo que contesta o tratamento que a Amaz\u00f4nia tem recebido atualmente, apresenta propostas com embasamento cient\u00edfico e pol\u00edtico para ressignificarmos este tratamento, visando a otimiza\u00e7\u00e3o de suas potencialidades com base na floresta em p\u00e9. Isto torna a leitura instigante ao longo do livro, porque vai nos dando elementos para construir uma outra Amaz\u00f4nia, e, se podemos falar em termos subjetivos, vai reavivando uma fagulha de esperan\u00e7a de uma Amaz\u00f4nia viva e pulsante, tal como ela \u00e9, ainda que diante de tantas dores, amea\u00e7as, viol\u00eancias e espolia\u00e7\u00f5es. Estas, \u00e0s vezes e assustadoramente, sob olhos passivos do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil precisa conhecer para reconhecer e respeitar a Amaz\u00f4nia, seus povos e toda diversidade \u00fanica que essa regi\u00e3o possui. Estamos n\u00e3o somente perdendo vantagens e possibilidades, como colaborando para o avan\u00e7o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas por meio da supress\u00e3o florestal de um ecossistema t\u00e3o importante para o clima mundial. Isto \u00e9 dizer que n\u00e3o s\u00f3 existe uma Amaz\u00f4nia que queremos e podemos ser, mas tamb\u00e9m que devemos ser, e o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-luminous-vivid-amber-color has-text-color\"><em>Resenha do livro <\/em>Amaz\u00f4nia: por uma economia do conhecimento da natureza<em>, de Ricardo Abramovay, publicado pela <em><a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/produto\/amazonia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Elefante<\/a><\/em> (S\u00e3o Paulo, 2019)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-very-light-gray-background-color has-background\" style=\"font-size:14px\"><strong><em>Sobre a resenhista: <br><br><\/em>Aline Radaelli<\/strong> \u00e9 cientista econ\u00f4mica (ESALQ-USP), mestra em Sociologia (UFAM) e doutoranda no Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia da UFRGS. Integra o grupo de pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade \u2013 <a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/temas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">TEMAS<\/a>.  <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 chocante o contraste entre a ousadia do Brasil democr\u00e1tico em preservar metade da Amaz\u00f4nia brasileira e a incapacidade de que esta determina\u00e7\u00e3o seja efetivamente respeitada.\u201d <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":541,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[348,330,349],"tags":[214,217,215,218,216],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/523"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=523"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/523\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":787,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/523\/revisions\/787"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/media\/541"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=523"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=523"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=523"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}