{"id":530,"date":"2021-01-22T09:07:00","date_gmt":"2021-01-22T12:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=530"},"modified":"2022-08-08T14:59:57","modified_gmt":"2022-08-08T17:59:57","slug":"luto-e-politica-em-scholastique-mukasonga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/luto-e-politica-em-scholastique-mukasonga\/","title":{"rendered":"Luto e pol\u00edtica em Scholastique Mukasonga"},"content":{"rendered":"\n<p>Entre abril e julho de 1994 presenciou-se com horror a viol\u00eancia do genoc\u00eddio da etnia Tutsi, em Ruanda, perpetrado pelo grupo \u00e9tnico Hutu. O evento catastr\u00f3fico n\u00e3o teve interven\u00e7\u00e3o internacional e os avisos de sua imin\u00eancia foram ignorados por na\u00e7\u00f5es que frequentemente utilizam poder militar em nome de uma suposta democracia e liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Scholastique Mukasonga inicia em<em> Baratas<\/em> \u2013 uma refer\u00eancia \u00e0 inj\u00faria usada pelos Hutus para os Tutsis; baratas, aqueles que rastejam, indignos \u2013, seu relato que continuar\u00e1 em <em>A mulher de p\u00e9s descal\u00e7os<\/em>, obra na qual o foco ser\u00e1 a hist\u00f3ria de sua m\u00e3e. Em <em>Baratas<\/em>, parte mem\u00f3rias, parte autobiografia e parte escrita reparativa, Mukasonga entrela\u00e7a sua hist\u00f3ria e de sua fam\u00edlia com a de uma na\u00e7\u00e3o na qual a persegui\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia \u00e9tnica vinha crescendo j\u00e1 desde muito antes de eclodir no massacre de mais de meio milh\u00e3o de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Baratas<\/em> possui uma linguagem direta, factual e descritiva, de pouca ou nenhuma emo\u00e7\u00e3o, como algu\u00e9m que nos conta uma hist\u00f3ria que ainda n\u00e3o compreendeu e que desafia a possibilidade de compreens\u00e3o, mas que, simultaneamente, assombra e persegue a narradora, demandando ser contada. Uma demanda para que os mortos sejam lembrados, como argumenta Judith Butler em <em>Quadros de guerra<\/em>, reconhecidos como vidas vividas, irrecuper\u00e1veis, pass\u00edveis de luto, que deveriam ter sido preservadas e que t\u00eam o direito e merecem ser pranteadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A narrativa faz um percurso de pouco mais de 50 anos atrav\u00e9s de saltos, partindo dos primeiros anos de Mukasonga na prov\u00edncia de Gikongoro, sudoeste de Ruanda, passando pelos ex\u00edlios e expurgos ao longo de sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, atestando que a viol\u00eancia contra Hutus vinha se perpetrando h\u00e1 d\u00e9cadas, finalizando com seu relato do genoc\u00eddio e sua visita \u00e0 Ruanda, 10 anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca do exterm\u00ednio, Mukasonga morava na Fran\u00e7a, casada e com filhos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>\u201cAinda me pergunto como pude me ocupar da minha casa, dos meus filhos, continuar o curso para conseguir o diploma franc\u00eas de assistente social, olhar as \u00e1rvores floridas dessa primavera na Fran\u00e7a. Atravessei os meses de abril, maio e junho como uma son\u00e2mbula. Sabia que n\u00e3o havia esperan\u00e7a para Nyamata\u201d<\/em><\/p><cite>(p. 131).<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esses questionamentos  de como continuar vivendo reverberam n\u00e3o apenas na obra de Mukasonga mas em outras obras que relatam eventos traum\u00e1ticos e catastr\u00f3ficos. \u00c9 o que se v\u00ea em Primo Levi e Paul Celan, para os quais sobreviver parece ser uma dor grande demais e que possui certas demandas \u00e9ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mukasonga, assim como todos aqueles que sobreviveram, perdeu quase todos seus familiares e conhecidos no genoc\u00eddio: seu pai Cosma, sua m\u00e3e Stefania, seus irm\u00e3os Antoine, Alexia, Jeanne, Judith e Julienne e suas respectivas fam\u00edlias. Seu retorno a Ruanda \u00e9 marcado pela hist\u00f3ria dolorosa da viol\u00eancia sofrida por eles, manifestando-se nas respostas imprecisas sobre como morreram, sobre onde seus corpos est\u00e3o, aqueles que sobreviveram n\u00e3o querem \u2013 ou at\u00e9 mesmo n\u00e3o podem \u2013, retornar a tais epis\u00f3dios, ser\u00e1 que aqueles que agora a guiam pelo seu antigo vilarejo estavam entre os perpetradores?<\/p>\n\n\n\n<p>A narrativa \u00e9 um testamunho e uma elegia \u00e0queles que tiveram suas vidas roubadas, seus nomes contados e repetidos met\u00f3dica e compulsivamente, como uma prece que se recusa a aceitar a viol\u00eancia final do genoc\u00eddio, isto \u00e9, o apagamento at\u00e9 mesmo dos rastros e lembran\u00e7as daqueles que pereceram.<\/p>\n\n\n\n<p><em><span class=\"has-inline-color has-luminous-vivid-amber-color\"><strong>Baratas<\/strong>, de Scholastique Mukasonga, publicado pela <a href=\"http:\/\/editoranos.com.br\/nosso-catalogo\/baratas\/\">Editora N\u00f3s <\/a>(S\u00e3o Paulo, 2018).<\/span><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-background\" style=\"background-color:#ebebeb;font-size:14px\"><strong><em>Sobre a resenhista:<\/em><\/strong><br><br><strong><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3874671964280043\">Lucas Demingos de Oliveira<\/a><\/strong>&nbsp;\u00e9 doutorando em Letras pela UFRGS, com experi\u00eancia em Teoria Liter\u00e1ria, atuando principalmente em reconhecimento, trauma, \u00e9tica e hermen\u00eautica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAinda me pergunto como pude me ocupar da minha casa, dos meus filhos, continuar o curso para conseguir o diploma franc\u00eas de assistente social, olhar as \u00e1rvores floridas dessa primavera na Fran\u00e7a. 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