{"id":543,"date":"2021-03-05T10:32:00","date_gmt":"2021-03-05T13:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=543"},"modified":"2022-08-08T14:58:54","modified_gmt":"2022-08-08T17:58:54","slug":"a-umbanda-como-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/a-umbanda-como-ciencia\/","title":{"rendered":"A Umbanda como ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p>O livro <em>V\u00e9u do Cong\u00e1<\/em> possibilita, atrav\u00e9s da leitura, o contato com segredos, palavras n\u00e3o ditas, diversas possibilidades de compreens\u00f5es, h\u00e1bitos, rituais, sonoridades, aromas peculiares nos terreiros desse Brasil. O v\u00e9u, costumeiramente colocado em frente ao Cong\u00e1 (espa\u00e7o onde se localizam as imagens e s\u00edmbolos da religiosidade de Umbanda), pode fazer a simples fun\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s intemp\u00e9ries ou aos olhares mais curiosos em busca de respostas imediatas \u00e0s suas indaga\u00e7\u00f5es, mas Lucas Gon\u00e7alves Brito, o autor, desvela esse v\u00e9u para ressignific\u00e1-lo, dando a m\u00e1xima import\u00e2ncia para cada movimento, sentimento e experi\u00eancia vivida no Centro Espiritualista de Umbanda Pai Joaquim de Angola (CEUPJA), em Goi\u00e2nia, onde durante doze meses esteve em pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos mostra narrativas de supera\u00e7\u00e3o e enfrentamento de dificuldades pessoais e coletivas, dado que o Centro foi inaugurado por uma mulher pobre, numa comunidade pobre, sem sede pr\u00f3pria ou financiamentos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>\u201cNa verdade, o que h\u00e1 de misterioso no terreiro n\u00e3o se esconde, mas se revela a quem souber olhar n\u00e3o s\u00f3 com a mutinga [cabe\u00e7a], mas tamb\u00e9m com o bated\u00f4 [cora\u00e7\u00e3o]\u201d<\/em><\/p><cite>(p. 39)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em cada cap\u00edtulo apresenta o que considera os tr\u00eas aspectos do conhecimento umbandista: a) cosmologia; b) rituais; e c) experi\u00eancias e conhecimentos vividos no terreiro. Responde questionamentos discutidos nessa \u00e1rea de pesquisa, a partir das narrativas descritas, dando o status do conhecimento para as entidades e para os m\u00e9diuns entrevistados, invertendo a l\u00f3gica do conhecimento catedr\u00e1tico para o conhecimento formulado e experienciado.<\/p>\n\n\n\n<p>Importante ressaltar que o conhecimento reconhecido como epistemologia da Casa de Pai Joaquim \u00e9 uma epistemologia localizada, uma produ\u00e7\u00e3o dali para os que ali est\u00e3o. Apresentado-o de forma te\u00f3rica e metodol\u00f3gica, sendo o que de mais bonito h\u00e1 no livro, afirma que o conhecimento umbandista pode ser reconhecido no conhecimento dito, no conhecimento corporificado e no conhecimento vivido, completando-se epistemologicamente quando, nessa triangula\u00e7\u00e3o, constitui-se a no\u00e7\u00e3o de pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em O v\u00e9u da Cosmologia Umbandista, as perguntas mais simples\/complexas s\u00e3o colocadas: O que \u00e9 umbanda? Ela \u00e9 afro-brasileira? Objetivando abordar essas quest\u00f5es t\u00e3o fundamentais para quem discute o tema, Lucas traz o que lhe \u00e9 respondido pelos seus entrevistados, articulando com pressupostos te\u00f3ricos arrolados na academia e por literaturas sobre a diversidade existente, mostrando seu dom\u00ednio sobre essas leituras. Assim, vamos aprendendo os termos, refer\u00eancias, t\u00e9cnicas, os quais v\u00eam acompanhados por figuras e ilustra\u00e7\u00f5es \u2013 s\u00e3o figuras originais e fora dos padr\u00f5es est\u00e9ticos de imagens sobre terreiros que temos nas bibliografias.<\/p>\n\n\n\n<p>No segundo cap\u00edtulo, sob o nome de Rituais, o etn\u00f3grafo aparece de forma brilhante, pois \u00e9 poss\u00edvel a visualiza\u00e7\u00e3o das cenas devido \u00e0 riqueza de detalhes. A descri\u00e7\u00e3o do lugar e do que se faz nele \u00e9 detalhada, por onde presumimos a rotina do Centro e a quantidade de trabalhos e pessoas envolvidas, entre m\u00e9diuns e assistentes. Dentre as atividades, h\u00e1 os trabalhos fins, que s\u00e3o os espirituais, como o desenvolvimento e forma\u00e7\u00e3o dos trabalhadores espirituais, e os trabalhos administrativos e de conserva\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Ent\u00e3o, o narrador demonstra que a organiza\u00e7\u00e3o pessoal e coletiva \u00e9 um ponto essencial nos terreiros que se autogestionam, ao contr\u00e1rio do que discursos racistas e intolerantes insistem em dizer. Tamb\u00e9m h\u00e1 a presen\u00e7a de letras de cantigas cantadas para as divindades cultuadas deixando a leitura mais din\u00e2mica e o\/a leitor\/leitora mais presente dentro do terreiro, pois muitas delas s\u00e3o do conhecimento do grande p\u00fablico brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>No cap\u00edtulo intitulado Experi\u00eancia e Conhecimento Vivido no Terreiro, o autor lan\u00e7a m\u00e3o das narrativas dos entrevistados para que esse conhecimento buscado se sedimente. A\u00ed tanto metodol\u00f3gica quanto esteticamente, deixa o livro mais interessante de ser lido \u2013 logo ap\u00f3s cada descri\u00e7\u00e3o de falas, h\u00e1 uma descri\u00e7\u00e3o do que \u00e9 dito, alicer\u00e7ando o conte\u00fado e dando \u00eanfase na for\u00e7a dos relatos.<\/p>\n\n\n\n<p>O autor ent\u00e3o se concede um espa\u00e7o para refletir o quanto se sente numa miss\u00e3o complexa ao tomar para si o objetivo de explicar \u201co modo antropol\u00f3gico de conhecer&#8221; (p. 184). Pois para muitos filhos de Oxal\u00e1 (termo end\u00f3geno usado para quem \u00e9 trabalhador do Centro), a Umbanda \u00e9 uma ci\u00eancia, principalmente porque se dedica a explicar energia, vibra\u00e7\u00e3o, mat\u00e9ria transcendente e a dualidade entre pensamento anal\u00edtico e anal\u00f3gico. Tamb\u00e9m apresenta sua trajet\u00f3ria experienciada e sentida dentro do terreiro, sem ter feito qualquer processo inici\u00e1tico ou sem narrar experi\u00eancias corp\u00f3reas de manifesta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o exotizando sua presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegando ao final pelas Linhas Conclusivas, no arcabou\u00e7o epistemol\u00f3gico aglomerado, o autor conclui que, de uma forma muito expandida, a Umbanda \u00e9 universalista, no sentido de ser e estar presente no Universo, atemporalmente e potente para todas as pessoas, de forma diversa e entendida a partir do que se entende sobre o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-luminous-vivid-amber-color has-text-color\"><em><em>Resenha do livro<\/em> O v\u00e9u do cong\u00e1 \u2013 sobre tr\u00eas aspectos do conhecimento umbandista<em>, de Lucas Gon\u00e7alves Brito, publicado pela <a href=\"https:\/\/grammaeditora2.lojavirtualnuvem.com.br\/produtos\/o-veu-do-conga-sobre-tres-aspectos-do-conhecimento-umbandista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Editora Gramma<\/a> (Rio de Janeiro, 2019<\/em>)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-very-light-gray-background-color has-background\" style=\"font-size:14px\"><strong><em>Sobre a resenhista: <br><br><\/em>Janine \u201cNina Fola\u201d Cunha<\/strong> \u00e9 mulher negra, batuqueira, soci\u00f3loga, mestra e doutoranda em Sociologia no PPGS\/UFRGS, bolsista e cotista CAPES, estuda racismos, Povo de Terreiro e Feminismos Negros. Integrante do Coletivo Atinuk\u00e9 e do Coletivo AfroEntes como cantora e percussionista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNa verdade, o que h\u00e1 de misterioso no terreiro n\u00e3o se esconde, mas se revela a quem souber olhar n\u00e3o s\u00f3 com a mutinga [cabe\u00e7a], mas tamb\u00e9m com o bated\u00f4 [cora\u00e7\u00e3o]\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":563,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[368,365,375],"tags":[237,241,242,238,240,239],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/543"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=543"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/543\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":774,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/543\/revisions\/774"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/media\/563"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=543"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=543"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=543"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}