{"id":566,"date":"2021-03-17T14:39:00","date_gmt":"2021-03-17T17:39:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=566"},"modified":"2022-08-31T10:45:46","modified_gmt":"2022-08-31T13:45:46","slug":"diario-de-um-cancer-de-mama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/diario-de-um-cancer-de-mama\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio de um c\u00e2ncer de mama"},"content":{"rendered":"\n<p>O que significa ter uma resposta resiliente a um evento adverso? Significa ser capaz de enfrentar uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de forma positiva, n\u00e3o desconsiderando o risco vivido, mas aproveitando as oportunidades e ensinamentos que essa situa\u00e7\u00e3o traz. Esta resenha trata disso e sobre como essa forma de reagir a uma situa\u00e7\u00e3o negativa \u00e9 muito vari\u00e1vel para cada indiv\u00edduo &#8211; e sobre o quanto mergulhar na experi\u00eancia do outro permite ao leitor refletir sobre si.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Do peixe ao lindo brinde: enfrentando um c\u00e2ncer de mama <\/em>\u00e9 uma esp\u00e9cie de di\u00e1rio que narra a trajet\u00f3ria da autora desde a descoberta de um c\u00e2ncer de mama at\u00e9 o final de seu tratamento. \u00c9 um livro que n\u00e3o esconde seus marcadores sociais: g\u00eanero, classe, n\u00edvel educacional. A autora \u00e9 professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Denise Ruschel Bandeira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da forma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nada que indique que Denise esteja aplicando na pr\u00f3pria vida princ\u00edpios da Psicologia da Sa\u00fade. E ainda assim, \u00e9 isso que inadvertidamente ela relata. A resili\u00eancia \u00e9 frequentemente empregada em situa\u00e7\u00f5es de doen\u00e7a, e envolve a aceita\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o, a ades\u00e3o ao tratamento e a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cDe in\u00edcio, n\u00e3o sabia onde isso iria parar, mas era mais forte que eu. Ent\u00e3o resolvi deixar fluir. Continua sendo mais forte, necess\u00e1rio. Dizem que auxilia no enfrentamento da doen\u00e7a. Mas n\u00e3o \u00e9 algo que eu tenha \u201cme receitado\u201d. Para mim est\u00e1 sendo assim: s\u00f3 sentar e escrever. Faz bem. Dizem tamb\u00e9m que o livro far\u00e1 bem a pessoas que estejam enfrentando tudo isso.\u201d<\/p><cite>(p. 48)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O livro demonstra a for\u00e7a e ao mesmo tempo a gentileza da autora para consigo mesma ao longo do processo. Saber \u201couvir o pr\u00f3prio corpo\u201d, \u201cvalorizar o ser mulher\u201d, \u201caprender a tolerar a espera\u201d s\u00e3o alguns dos subt\u00edtulos do texto que dizem muito sobre a capacidade de se observar e se aceitar nessa nova configura\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O processo de elabora\u00e7\u00e3o do livro parece tratar-se de uma \u201ccura pela escrita\u201d, ao inv\u00e9s da \u201ccura pela fala\u201d, proposta por Freud. Em um momento a autora menciona a satisfa\u00e7\u00e3o de poder perder os cabelos sozinha em um hotel durante uma viagem de trabalho e elaborar esse momento sem outros por perto. A protagonista consegue se divertir com as mudan\u00e7as corporais e encontrar sentidos para o processo de adoecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Na apresenta\u00e7\u00e3o do livro, a autora sup\u00f5e que o leitor seja uma leitora, em fun\u00e7\u00e3o da tem\u00e1tica do c\u00e2ncer de mama. Possivelmente sem perceber, a narrativa coloca a leitora (embora eu particularmente recomende o livro aos leitores do sexo masculino tamb\u00e9m) numa posi\u00e7\u00e3o de compara\u00e7\u00e3o. Ao acompanhar a forma direta de Denise se conduzir no processo de investiga\u00e7\u00e3o e tratamento do c\u00e2ncer, \u201cfazendo o que tinha que ser feito\u201d, a leitora se questiona: ser\u00e1 que eu faria da mesma forma?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O modo de enfrentar uma doen\u00e7a \u00e9 algo muito \u00edntimo e peculiar. A autora ressalta que n\u00e3o se considera um modelo a ser seguido e a narrativa \u00e9 realmente isso: um relato do vivido, com algumas sugest\u00f5es. No entanto, a clareza e objetividade do pensamento da protagonista s\u00e3o comoventes. Em um momento, diz se sentir \u201cem uma cancha reta\u201d, n\u00e3o sendo permitido olhar para os lados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A raz\u00e3o para essa corrida focada parece ser o apre\u00e7o pela vida, que curiosamente se mostra tamb\u00e9m no processo de adoecimento e tratamento. Ao inv\u00e9s de evitar ou negar os sentimentos desagrad\u00e1veis, Denise os relata e segue buscando outros momentos prazerosos, respeitando o corpo e a si mesma no processo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e2ncer, que j\u00e1 foi palavra tabu, aparece com naturalidade no livro, que em nenhum momento se torna piegas ou autoindulgente. Ainda que seja um livro autobiogr\u00e1fico, e n\u00e3o um guia de enfrentamento \u00e0 doen\u00e7a, ele \u00e9 uma bela forma de a leitora\/ o leitor compreender e at\u00e9 se preparar para a doen\u00e7a. Seu maior benef\u00edcio \u00e9 trazer \u00e0 discuss\u00e3o um processo geralmente ocultado ou excessivamente dramatizado.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-luminous-vivid-amber-color has-text-color\"><em><em>Resenha do livro<\/em> <\/em>Do peixe ao lindo brinde: enfrentando um c\u00e2ncer de mama<em><em>, de Denise Ruschel Bandeira, publicado pela <a href=\"https:\/\/www.editorametamorfose.com.br\/1056707\/do-peixe-ao-lindo-brinde-enfrentando-um-cancer-de-mama\">Metamorfose <\/a>(Porto Alegre, 2020<\/em>)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-very-light-gray-background-color has-background\" style=\"font-size:14px\"><strong><em>Sobre a resenhista: <br><br><\/em>Denise Balem Yates<\/strong> \u00e9 psic\u00f3loga, doutora em Psicologia e coordenadora executiva do Centro de Avalia\u00e7\u00e3o Psicol\u00f3gica e do Programa de Orienta\u00e7\u00e3o a Pr\u00e1ticas Parentais da UFRGS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDe in\u00edcio, n\u00e3o sabia onde isso iria parar, mas era mais forte que eu. 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