{"id":586,"date":"2021-04-05T09:00:00","date_gmt":"2021-04-05T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=586"},"modified":"2022-10-13T12:46:21","modified_gmt":"2022-10-13T15:46:21","slug":"o-problema-da-economia-e-a-propria-economia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/o-problema-da-economia-e-a-propria-economia\/","title":{"rendered":"O problema da economia \u00e9&#8230; a pr\u00f3pria economia!"},"content":{"rendered":"\n<p>Sim, \u00e9 isto que a obra do professor Ladislau Dowbor nos faz pensar: \u201cO problema da economia \u00e9 a pr\u00f3pria economia\u201d. Essa express\u00e3o, de modo menos gen\u00e9rico, resume a ideia geral que permeia <em>A Era do Capital Improdutivo<\/em>, qual seja: \u201c<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0103-40142015000100263&amp;script=sci_abstract&amp;tlng=pt\">O sistema financeiro atual trava o desenvolvimento econ\u00f4mico<\/a>\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cA economia n\u00e3o \u00e9 um sistema de leis naturais \u2013 vis\u00e3o que gerou esta estranha criatura que chamamos de \u2018ci\u00eancia econ\u00f4mica\u2019, implicando que somos obrigados a seguir estas leis \u2013 e sim um sistema de regras do jogo negociadas e pactuadas na sociedade.\u201d<\/p><cite>(p. 273)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para Dowbor, a pr\u00f3pria l\u00f3gica imposta pelo sistema financeiro, inteiramente dominante ap\u00f3s o golpe de 2016, seria em si um problema. Isso, evidentemente, a partir de uma perspectiva distinta dos grandes bancos, rentistas, aplicadores financeiros, etc. Vejamos alguns exemplos tratados pelo autor no livro.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lugar-de-livro-base-montagens-capa-2-1024x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-601\" width=\"512\" height=\"512\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lugar-de-livro-base-montagens-capa-2-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lugar-de-livro-base-montagens-capa-2-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lugar-de-livro-base-montagens-capa-2-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lugar-de-livro-base-montagens-capa-2-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lugar-de-livro-base-montagens-capa-2.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p>A Emenda Constitucional 55 (2016), que preza pelo \u201cteto de gastos\u201d e o (falso) apelo moral de \u201cgastar menos do que ganha\u201d, congelou por 20 anos os gastos em \u00e1reas como educa\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas p\u00fablicas, mas n\u00e3o o fez com os juros excessivos da d\u00edvida p\u00fablica. Dowbor lembra que em 2015, 8,5% do PIB (500 bilh\u00f5es de reais) foram destinados aos rentistas, bancos e fundos financeiros, que por sua vez: (re)aplicaram grande parte desse montante em pap\u00e9is. Mas, dizem eles, o \u201cproblema econ\u00f4mico\u201d do pa\u00eds estaria no Bolsa Fam\u00edlia&#8230; Ali\u00e1s, este com quantias muitos menores dinamiza o mercado interno de forma muito mais expressiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Rentistas 1, economia produtiva 0.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os enormes juros praticados no Brasil, inclusive os da d\u00edvida p\u00fablica, tamb\u00e9m chamam a aten\u00e7\u00e3o de Dowbor. O efeito danoso reside justamente no travamento daquilo que, segundo ele, \u00e9 o principal motor econ\u00f4mico do pa\u00eds: o consumo no mercado interno. Peguemos como exemplo o caso hipot\u00e9tico (mas fact\u00edvel) de Maria do Carmo, apresentado no livro. Pegando um empr\u00e9stimo no Santander de R$ 5.790,00 com taxa de juro mensal na casa dos 6,89%, Maria devolveria, em 25 presta\u00e7\u00f5es, R$ 12.436,25: com taxa de juros ao ano de 125,02%. Um lucro de R$ 6.646,25 do Santander. O problema \u2013 permitido pela desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira ocorrida durante o governo FHC \u2013 \u00e9 que esse juro abusivo \u00e9 praticado especialmente no Brasil. O banco espanhol, na Europa, cobraria para esse mesmo empr\u00e9stimo 3,5% ao ano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Grandes bancos 2, economia produtiva 0.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo muito claro do que quer nos dizer Dowbor: imaginemos, aqui, a situa\u00e7\u00e3o do cobrador de \u00f4nibus chamado Jo\u00e3o e do rentista chamado Luan. Tentarei, a partir deles, sintetizar alguns pontos esclarecedores da cr\u00edtica do autor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o acaba de receber seu sal\u00e1rio logo no come\u00e7o do m\u00eas \u2013 este j\u00e1 descontado diretamente na fonte. Precisando de um fog\u00e3o novo, se dirige a uma loja de eletrodom\u00e9sticos para compr\u00e1-lo. Chegando l\u00e1, no ato da compra, \u00e9 altamente tributado \u2013 uma vez que no Brasil a arrecada\u00e7\u00e3o ocorre sobremaneira pela tributa\u00e7\u00e3o indireta do consumo. Al\u00e9m disso, ao comprar o fog\u00e3o a prazo acaba pagando quase o dobro \u2013 em fun\u00e7\u00e3o dos juros. Para poder comprar outro eletro para sua casa, estimulando a economia, teria que esperar (para n\u00e3o se endividar) terminar todas as presta\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Luan, por sua vez, ao receber os dividendos de aplica\u00e7\u00f5es financeiras, n\u00e3o tem com o que se preocupar \u2013 dado que isentos de tributa\u00e7\u00e3o. Se ainda n\u00e3o estiver satisfeito, caso queira evadir impostos em algum <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/ijf.org.br\/a-omissao-das-nomenclaturas-tributarias-um-breve-estudo-sobre-os-paraisos-fiscais\/\" target=\"_blank\">esconderijo fisco-criminal<\/a>, o que \u00e9 comum no Brasil, por sua condi\u00e7\u00e3o financeira poderia contar com assessoria jur\u00eddica (inclusive de bancos) especializada. Isso considerando que a tributa\u00e7\u00e3o sobre o patrim\u00f4nio \u00e9 muito inferior do que nos pa\u00edses do capitalismo central \u2013 mais um motivo para relaxar!<\/p>\n\n\n\n<p>E, quando for comprar sua geladeira, n\u00e3o ter\u00e1 \u2013 novamente \u2013 com o que se preocupar: o peso da tributa\u00e7\u00e3o indireta sobre o consumo ser\u00e1 proporcionalmente menor. Al\u00e9m disso poder\u00e1 pagar \u00e0 vista, longe das presta\u00e7\u00f5es e dos juros. O dinheiro todo \u201ceconomizado\u201d nesse processo, ir\u00e1 novamente para as aplica\u00e7\u00f5es financeiras (pap\u00e9is), travando o desenvolvimento e a dinamiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Luan 3, Jo\u00e3o 0. J\u00e1 \u00e9 goleada. E ainda estamos no primeiro tempo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Este breve resumo, acredito, conseguiu apontar o cerne da an\u00e1lise e da cr\u00edtica do professor titular da PUC-SP e doutor em economia pela Escola Central de Planejamento e Estat\u00edstica de Vars\u00f3via. Embora tenha deixado, propositalmente, de lado toda a parte inicial do livro sobre o poder das grandes corpora\u00e7\u00f5es e de como o capital financeiro tomou posse quase integralmente das atividades produtivas, considero que a parte que mais nos toca, pelo menos de modo mais imediato, \u00e9 a acima exposta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma coisa: a imagem da corrup\u00e7\u00e3o como \u201cCaixa de Pandora, aberta pelo PT\u201d e respons\u00e1vel por todos os males e atrasos recentes do pa\u00eds n\u00e3o se sustenta, como Dowbor demonstra com muita seguran\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de minimizar a dimens\u00e3o pol\u00edtica e da luta de classes subjacente a essas formas atualizadas de \u201cmais-valia\u201d (como o autor paradoxalmente reconhece), o enfoque demasiado econ\u00f4mico n\u00e3o tira o grande m\u00e9rito do livro: a an\u00e1lise com linguagem simples e s\u00f3lida base de pesquisa, da \u201cera do capital improdutivo\u201d. Um livro que vale a pena ser lido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-cyan-blue-color has-text-color\"><em><em>Resenha do livro<\/em> <\/em>A Era do Capital Improdutivo \u2013 a nova arquitetura do poder<em><em>, de Ladislau Dowbor, publicado pela <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/autonomialiteraria.com.br\/loja\/teoria-politica\/a-era-do-capital-improdutivo-a-nova-arquitetura-do-poder-dominacao-financeira-sequestro-da-democracia-e-destruicao-do-planeta\/\" target=\"_blank\">Outras Palavras &amp; Autonomia Liter\u00e1ria <\/a>(S\u00e3o Paulo, 20<\/em>17)<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-very-light-gray-background-color has-background\" style=\"font-size:14px\"><strong><em>Sobre o resenhista: <br><br><\/em>Arthur Harder Reis<\/strong> \u00e9 licenciando (4.\u00ba semestre) em Hist\u00f3ria pela UFRGS e membro associado-estudante do Instituto Justi\u00e7a Fiscal.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA economia n\u00e3o \u00e9 um sistema de leis naturais \u2013 vis\u00e3o que gerou esta estranha criatura que chamamos de \u2018ci\u00eancia econ\u00f4mica\u2019, implicando que somos obrigados a seguir estas leis \u2013 e sim um sistema de regras do jogo negociadas e pactuadas na sociedade.\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":601,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[355,358],"tags":[8,252,250,251],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/586"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=586"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/586\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1785,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/586\/revisions\/1785"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/media\/601"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=586"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=586"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=586"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}