{"id":612,"date":"2021-07-05T14:30:00","date_gmt":"2021-07-05T17:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/?p=612"},"modified":"2022-11-10T17:13:20","modified_gmt":"2022-11-10T20:13:20","slug":"nacionalidade-e-a-dimensao-escolar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/nacionalidade-e-a-dimensao-escolar\/","title":{"rendered":"Nacionalidade e a dimens\u00e3o escolar"},"content":{"rendered":"\n<p>O livro <em>Ensinando Fronteiras <\/em>analisa a\u00e7\u00f5es e s\u00edmbolos relacionados com as pol\u00edticas sobre fronteiras nacionais. Seu subt\u00edtulo, <em>projetos estatais, representa\u00e7\u00f5es sociais e interculturalidade<\/em>, indica tanto a inst\u00e2ncia de a\u00e7\u00f5es que ser\u00e1 privilegiada nas an\u00e1lises em pauta, a estatal, quanto o modo principal escolhido e por meio do qual as compreens\u00f5es buscam se efetivar: a interculturalidade que interpreta representa\u00e7\u00f5es. As an\u00e1lises acerca de projetos nacionais e representa\u00e7\u00f5es sociais, na perspectiva da interculturalidade, enfatizam a dimens\u00e3o educacional no cotidiano de \u00e1reas de fronteiras. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>\u201cA hist\u00f3ria da escolariza\u00e7\u00e3o moderna nos alerta que uma das raz\u00f5es centrais da universaliza\u00e7\u00e3o da escola b\u00e1sica foi o fortalecimento dos projetos nacionais\u201d<\/p>\n<cite>Adriana Dorfman, Roberto Filizola e Julian Mokwa F\u00e9lix<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa essa senten\u00e7a consta na apresenta\u00e7\u00e3o do livro, que re\u00fane dezesseis textos e vinte e seis autoras e autores que formulam interroga\u00e7\u00f5es sobre a no\u00e7\u00e3o de nacionalidade. A senten\u00e7a \u00e9 a senha que d\u00e1 passagem para a vis\u00e3o do nacionalismo como estofo curricular (em especial no ensino de L\u00ednguas, de Literatura, de Hist\u00f3ria e de Geografia) e da escola popular como institui\u00e7\u00e3o vinculada \u00e0 emerg\u00eancia dos estados nacionais a partir do s\u00e9culo XVIII. Essa escola encarregou-se da forma\u00e7\u00e3o do sentimento e do valor de um \u201cn\u00f3s\u201d oposto a \u201celes\u201d, sentimento e valor sistematicamente produzidos e que perpassaram a assimila\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as em favor de tra\u00e7os formadores de uma identidade nacional. Trata-se de uma escola que, em grande medida, permanece vigente em diversas fronteiras e situa-se na centralidade de um projeto geopol\u00edtico estatal promotor da preponder\u00e2ncia do homog\u00eaneo sobre o diverso.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Ensinando-Fronteiras-05-07-2021-1024x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-625\" width=\"512\" height=\"512\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Ensinando-Fronteiras-05-07-2021-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Ensinando-Fronteiras-05-07-2021-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Ensinando-Fronteiras-05-07-2021-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Ensinando-Fronteiras-05-07-2021-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Ensinando-Fronteiras-05-07-2021.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao idioma, a promo\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o de uma l\u00edngua elevada ao estatuto de l\u00edngua oficial representa, com frequ\u00eancia, um embate contra o cotidiano vivido nas bordas. Tal embate ganha express\u00e3o destacada nas escolas fronteiri\u00e7as, espa\u00e7os dissonantes em rela\u00e7\u00e3o ao homog\u00eaneo promovido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de meta a ser privilegiada. A fronteira muitas vezes passa a ser emudecida na pr\u00f3pria \u00e1rea de fronteira, pois a alteridade e as falas h\u00edbridas da zona de contato devem ser apagadas em favor da unidade idealizada. O cotidiano deve ser empurrado para fora do horizonte imaginativo da escola produtora de nacionalidade. O limite territorial demarca o ponto final do Estado-Na\u00e7\u00e3o e do que deve ser representado como \u201cnosso\u201d, embora o que est\u00e1 no outro lado da linha arbitr\u00e1ria seja aquilo que, na verdade, se apresenta c\u00e1 e l\u00e1 e constitui a vida no dia a dia, com seus la\u00e7os parentais, trabalhos, h\u00e1bitos, afetos, falares. Disson\u00e2ncias entre o vivido e as representa\u00e7\u00f5es correntes no ambiente escolar podem causar danos emocionais e cognitivos nos alunos.<\/p>\n\n\n\n<p>Inversamente, quando o vivido e as experi\u00eancias escolares entram em harmonia e refor\u00e7am-se mutuamente, passa a acontecer o que muitos professores chamam de encantamento pedag\u00f3gico. Referem-se ao sentimento que observam nos alunos, mas se torna percept\u00edvel que est\u00e3o tamb\u00e9m a falar de si mesmos: professores entusiasmados por conviverem com alunos que, ao se sentirem acolhidos, tornam-se interessados pelo ambiente escolar. Haver\u00e1 melhor evid\u00eancia dos significados da pot\u00eancia existencial oferecida pela \u00e1rea de passagens e contatos do que a retroalimenta\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel estabelecida na renova\u00e7\u00e3o de interesses entre professores e alunos quando ligam a sala de aula ao entorno? Os textos reunidos em <em>Ensinando Fronteiras<\/em> demonstram o quanto o processo pedag\u00f3gico de ensinar e aprender atento aos contatos da fronteira impulsiona o encontro entre aprendizagem, prazer e constru\u00e7\u00e3o de significados.<\/p>\n\n\n\n<p>Fronteiras de muitas tens\u00f5es est\u00e3o presentes no livro, tens\u00f5es pret\u00e9ritas, presentes \u2013 Estados Unidos e M\u00e9xico; Fran\u00e7a e B\u00e9lgica; a extens\u00e3o mar\u00edtima entre Tun\u00edsia e It\u00e1lia; Brasil e Paraguai, Uruguai, Bol\u00edvia e Peru; Israel e L\u00edbano, S\u00edria, Jord\u00e2nia, Egito e a fragmentada Palestina. Conforme est\u00e1 expresso em mais de uma das \u00e1reas de contatos e de trocas entre significados que o leitor encontrar\u00e1 no livro, trata-se de uma arquitetura de mundo em grau superior ao existente \u2013 mais justi\u00e7a, mais humanidade, mais fraternidade, mais solidariedade, mais igualdade, mais sustentabilidade. A obra \u00e9 apresentada como um convite \u00e0 travessia das fronteiras disciplinares e das fronteiras pol\u00edticas \u2013 uma reivindica\u00e7\u00e3o do direito de atravessamento. As travessias propostas nos dezesseis textos n\u00e3o intencionam o apagamento de fronteiras \u2013 j\u00e1 bastam os apagamentos que instituem separa\u00e7\u00f5es \u2013, mas o movimento que compreende heran\u00e7as em dois lados e afirma um terceiro, h\u00edbrido, abrangente, que segue em frente de outro modo. Conforme declaram Dorfman, Filizola e F\u00e9lix, a rela\u00e7\u00e3o com a fronteira demanda uma vis\u00e3o afeita \u00e0 escuta e \u00e0s trocas, caracterizada por uma l\u00f3gica que acolhe a capacidade emp\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>O potencial de contato e mudan\u00e7a \u00e9 apresentado e analisado atrav\u00e9s de diferentes abordagens, que variam quanto ao tratamento de escala e quanto \u00e0s rela\u00e7\u00f5es enfocadas. A multiplicidade apresenta-se integrada nos cap\u00edtulos e nos coment\u00e1rios dos tr\u00eas editores, que enfatizam, na introdu\u00e7\u00e3o da obra, n\u00e3o apenas as diferen\u00e7as entre os enfoques, mas simultaneamente diversos aspectos complementares. Os t\u00edtulos dos cap\u00edtulos j\u00e1 sugerem, no sum\u00e1rio do livro, o car\u00e1ter articulado da multiplicidade dos enfoques, em express\u00f5es similares a estas: \u201ca escola e o educar na fronteira, atos do estado se (des)fazendo em seus limites\u201d; \u201cfronteira como pedagogia\u201d; \u201crodas de conversas e forma\u00e7\u00e3o de professores atrav\u00e9s de hist\u00f3rias e experi\u00eancias de vida\u201d; \u201cescolas interculturais e (des)constru\u00e7\u00e3o de identidades\u201d; \u201cdesenhos da fronteira e o exerc\u00edcio de representar na forma\u00e7\u00e3o docente permanente\u201d; \u201crepensar migra\u00e7\u00f5es, ag\u00eancias (e agendas) pol\u00edticas na fronteira\u201d; \u201cdesfilia\u00e7\u00e3o e refilia\u00e7\u00e3o de estudantes na fronteira\u201d; \u201censinando e aprendendo acerca de fronteiras remotas\u201d; \u201cexpans\u00e3o do ensino e amplia\u00e7\u00e3o fronteiri\u00e7a\u201d; \u201c\u00e1reas de contatos e dimens\u00f5es docentes nos desafios do processo de ensino-aprendizagem\u201d; \u201cconflito pol\u00edtico e desafio na constru\u00e7\u00e3o de caminhos para o ensino de fronteiras\u201d; \u201cforma\u00e7\u00e3o binacional de professores\u201d; \u201cpesquisa sobre fronteiras atrav\u00e9s da interculturalidade\u201d; \u201cescolas de fronteira e integra\u00e7\u00e3o regional\u201d; \u201centre imagens e palavras, fronteira(s) e educa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa dada passagem textual, \u00e9 explicitada uma quest\u00e3o que perpassa de modo latente o conjunto das an\u00e1lises. A interroga\u00e7\u00e3o \u00e9 sobre a possibilidade de estudantes e professores fronteiri\u00e7os virem a se constituir em fator de agenciamento de uma escola transnacional. Uma escola na condi\u00e7\u00e3o de fronteira poderia assumir como projeto a perspectiva que aponta para al\u00e9m do nacional, isto \u00e9, para o p\u00f3s-nacional?&nbsp; Essa escola poderia colocar em cena fatos e significados que ajudariam a repensar o car\u00e1ter dos estados nacionais? Qual diversa cidadania poderia ter sua forma\u00e7\u00e3o associada a escolas supranacionais? Tais perguntas talvez soem inusitadas e reside precisamente a\u00ed o m\u00e9rito basilar de <em>Ensinando Fronteiras<\/em>: retirar a apar\u00eancia natural (algo apresentado do mesmo modo desde h\u00e1 muito e que adquire a apar\u00eancia de ser assim desde sempre) do que \u00e9 constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica sustentada por produ\u00e7\u00f5es de um dado imagin\u00e1rio desde posi\u00e7\u00f5es centralizadoras distantes das beiras. Desconstruir a apar\u00eancia natural da fronteira \u2013 construir perguntas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na apresenta\u00e7\u00e3o do livro, Rog\u00e9rio Haesbaert auxilia na formula\u00e7\u00e3o de necess\u00e1rias perguntas. \u201cQuantos sujeitos, quantos contextos, quantos dramas, quanto aprendizado nos prop\u00f5e o i-limitado da fronteira? O que as fronteiras nos ensinam e o que somos compelidos a ensinar das\/nas\/com as fronteiras? Haveria uma pedagogia espec\u00edfica das fronteiras?\u201d E contribui igualmente para pensar sobre as respostas: as fronteiras \u201cs\u00e3o ou podem ser essa grande escola, onde aprendemos a arte da conviv\u00eancia e da hospitalidade \u2013 mas tamb\u00e9m onde ensinamos\/ nos ensinam a conviver com o conflito, a perceber, como em nenhum outro lugar, que a vida \u00e9 interface, avan\u00e7o e recuo, fixa\u00e7\u00e3o e mobilidade\u201d. Seria a fronteira um grande laborat\u00f3rio para pensar o nosso tempo?<\/p>\n\n\n\n<p>Para bem viver, s\u00e3o necess\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas relacionadas tanto \u00e0 dimens\u00e3o material da exist\u00eancia quanto aos fatores situados no modo como o intersubjetivo est\u00e1 estabelecido no cotidiano social. Por\u00e9m, nem sempre as condi\u00e7\u00f5es postas implicam num viver sob outra circunst\u00e2ncia que n\u00e3o seja o sobreviver sob um conjunto maior ou menor de amea\u00e7as. A educa\u00e7\u00e3o, considerada na perspectiva do direito \u00e0 forma\u00e7\u00e3o para a cidadania, e a cidadania, considerada na perspectiva da multiplica\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es para efetiva participa\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, n\u00e3o reivindicam liberdade para a interculturalidade nas trocas constitutivas de identidades existenciais? Essa reivindica\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 entre os alicerces para o viver que demanda condi\u00e7\u00f5es melhores? S\u00e3o perguntas que se apresentam na leitura de <em>Ensinando Fronteiras<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-cyan-blue-color has-text-color\"><em><em>Resenha do livro<\/em> <\/em>Ensinando Fronteiras: projetos estatais, representa\u00e7\u00f5es sociais e interculturalidade<em><em>, organizado por Adriana Dorfman, Roberto Filizola e Julian Mokwa F\u00e9lix, publicado pela <a href=\"http:\/\/unbral.nuvem.ufrgs.br\/site\/index.php\/publicacoes\/ensinando-fronteiras\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Diadorim \/ Letra1<\/a> (Porto Alegre, 2021<\/em>)<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-very-light-gray-background-color has-background\" style=\"font-size:14px\"><strong><em>Sobre o resenhista: <br><\/em>Nelson Rego<\/strong> \u00e9 professor titular no Departamento de Geografia e no Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Geografia da UFRGS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA hist\u00f3ria da escolariza\u00e7\u00e3o moderna nos alerta que uma das raz\u00f5es centrais da universaliza\u00e7\u00e3o da escola b\u00e1sica foi o fortalecimento dos projetos nacionais\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":625,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[365,373,371],"tags":[2,255,253,256,254],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/612"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=612"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/612\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1810,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/612\/revisions\/1810"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/media\/625"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=612"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/lugardelivro\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}