Projeto

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Neste início do século XXI, as mulheres se equipararam aos homens em frequência escolar em todos os níveis. Entretanto, ao analisarmos os levantamentos estatísticos que permitem tal afirmação, também podemos concluir que passamos da total exclusão para uma inclusão progressiva caracterizada pela segregação, com interdição ou desestímulo ao acesso feminino a certas áreas do conhecimento e profissões, que se mantiveram como redutos masculinos.

Segundo os dados do Censo Escolar, em 2006, 54% das matrículas e 58% das conclusões no ensino médio foram femininas. Em 2007, mais da metade dos ingressantes e 60% dos concluintes nos ensino superior foram do sexo feminino. Segundo dados do IBGE/Censo 2010, as mulheres estão entre os mais escolarizados e constituem a maioria dos estudantes do ensino superior brasileiro na graduação e na pós-graduação, mantendo o percentual de presença ao longo da última década em torno de 57%. Apesar do crescimento da presença feminina em áreas de conhecimento com predomínio histórico de homens, as mulheres seguem concentradas em cursos de Pedagogia, Letras e Enfermagem. Mais do que isto, se em áreas como Engenharia Civil e Geomática a presença feminina permaneceu estável, considerando o período de 2001 a 2006, nas áreas da Indústria, Mineração e Informática, a presença feminina diminuiu. Levantamentos da Unesco para a grande área Ciências apontam para uma diminuição da titulação feminina na educação superior entre a população de 25 a 34 anos. Em 2001, 57% dos titulados na área de Ciências eram homens e 43% mulheres e, desde então, a titulação feminina vem decrescendo: 39% em 2004 e 37% em 2008.

A inclusão com segregação das mulheres incide diretamente nas relações de trabalho e renda. De acordo com a pesquisa Mulher no Mercado de Trabalho (IBGE 2010) as mulheres ganham em torno de 68% do rendimento recebido pelos homens. Considerando-se o mesmo nível de escolaridade e o mesmo grupo de atividades a diferença de rendimentos persiste.

Assim, podemos dizer que se desapareceram as barreiras formais de acesso a quaisquer cursos superiores, ocupações e carreiras, persiste ainda hoje a ramificação de sexo e gênero, com reflexos no mercado de trabalho. Para superarmos tal ramificação é fundamental equilibrarmos a participação de homens e mulheres em todos os cursos, erradicando as representações masculinas ou femininas do conhecimento e do trabalho e proporcionando igual acesso a renda.

A baixa representatividade de mulheres nas Engenharias e nas Ciências – sobretudo nos cursos de Física – é um problema cada vez mais reconhecido e representado por estatísticas. Na maioria dos países, cerca de 10% a 12% dos profissionais do campo da física são mulheres, sendo que este é um percentual que pouco se alterou nos últimos 100 anos. Tal situação atinge instituições de ensino no mundo todo e, em especial, as universidades. Não obstante as mulheres sejam a maioria das discentes, ainda são menos da metade das docentes.  A porcentagem de mulheres docentes lotadas nas universidades brasileiras mais proeminentes na área de Física oscila entre valores inferiores a 5%, como no caso da UFES, até o limite de e 25%, na USP e UFRGS (Agrello & Grag, 2009).

Tanto no campo da política quanto no campo da pesquisa em educação científica, o movimento feminista tem avançado ao longo das últimas décadas no sentido de apontar diversas razões para sustentar a urgência de uma maior participação de mulheres nas áreas de Ciência e Tecnologia (C&T).

O primeiro argumento, inspirado na doutrina liberalista, sustenta que todos os setores da sociedade (por exemplo: homens e mulheres; negros e brancos; homossexuais e heterossexuais) devem possuir as mesmas oportunidades de concorrência e acesso às posições de liderança dessa sociedade (sejam elas políticas, econômicas ou científicas). Com efeito, a baixa participação de mulheres na ciência pode ser considerada o produto final de um processo que impõe mais obstáculos às mulheres que aos homens. Nesse sentido, ter mais mulheres na ciência significa proporcionar maior igualdade de oportunidades no campo das Ciências.

Além disso, na medida em que aumentarmos a quantidade de mulheres (e de outros grupos sociais sub-representados) na ciência, contribuiremos para um aumento geral da concorrência por esses cursos. Por exemplo, na medida em que um número expressivamente maior de meninas se candidatar aos cursos de Física e Engenharia ao ponto de elevar a razão candidato-vaga, podemos esperar a emergência de um corpo discente sensivelmente mais competente e qualificado. Portanto, é razoável esperar que, garantida a igualdade de oportunidades, o incentivo ao interesse de mulheres pela ciência tenda a produzir um corpo científico globalmente mais competitivo. Dessa maneira, quando falamos de mais mulheres na ciência, não falamos somente em ética e justiça social, mas em uma pauta interessante também do ponto de vista econômico e tecnológico.

Outra linha de argumento, inspirada na tradição pós-marxista (Harding, 1986), sustenta que, em vista da responsabilidade geralmente imputada às mulheres de manutenção da vida e bem-estar dos seus filhos, essas mulheres tendem a desenvolver perspectivas e visões de mundo sensivelmente distintas daquelas que podem ser consideradas tipicamente masculinas (Gilligan, 1993). Portanto, povoar a ciência com mais mulheres não implica somente a produção de um corpo científico mais competente. Ampliar o debate de mulheres na ciência significa também pensar em uma ciência diferente, uma ciência inspirada e renovada por experiências de vida historicamente excluídas da produção científico tecnológica.

É preciso considerar também a questão do gênero nos resultados da pesquisa. Segundo Schiebinger (2008, p. 274):

“Desde o Iluminismo que a ciência mexe com corações e mentes, ao prometer uma perspectiva ‘neutra’ e privilegiada, acima e além da briga de foice que caracteriza a vida política. Homens e mulheres responderam de forma semelhante ao chamariz da ciência: “a promessa de tocar o mundo naquilo que ele tem de mais íntimo, um toque que se tornou possível pelo poder do pensamento puro”. O poder da ciência ocidental – seus métodos, suas técnicas e epistemologias – é celebrado por produzir conhecimento objetivo e universal, transcendendo as restrições culturais. Entretanto, no que diz respeito ao gênero, à raça e a muito mais, a ciência não é um valor neutro. Estudiosos começaram a documentar como as desigualdades de gênero, construídas nas instituições científicas, influenciaram o conhecimento nelas produzido”.

Quando tratamos da participação das mulheres na Ciência temos também de ter em conta o gênero nas culturas da Ciência. As Ciências encerram culturas identificáveis, cujos costumes e hábitos desenvolveram-se ao longo dos tempos. Podemos, por exemplo, relacionar a cultura de consumo com esta discussão. Vivemos imersos em uma cultura de consumo onde aprendemos não somente o que, como e quando devemos consumir itens de vestuário, alimentação, bens móveis e imóveis, mas também, e, principalmente, comportamentos e perspectivas futuras. Qualquer pessoa é capaz de compreender o poder da imagem em nossa sociedade. As imagens são usadas para comunicar comportamentos e aparências socialmente aceitas, para passarem mensagens sobre esperanças e sonhos, e também sobre como deve ser um cientista e em que a ciência consiste (Schiebinger 2008).

Considerando o exposto acima, tem-se a noção da necessidade imediata da implementação de ações que visem à promoção da presença das mulheres nos campos de ciência e tecnologia. Ações estas que consideram tanto o espaço da educação básica, onde as primeiras expectativas de futuro e planejamento de carreiras são construídas, quanto no ensino superior promovendo a permanência daquelas que já optaram por estas carreiras. Tais ações devem ser o ponto de apoio à consolidação da imagem de que os espaços de C&T são também lugares onde as mulheres podem e devem ocupar.

Assim, o objetivo geral deste projeto é produzir e testar um plano de ações capaz de impactar de maneira sensível o interesse de meninas pela ciência e sua disposição para perseguir carreiras no campo de C&T. Tal plano de ação envolverá: (1) realização de eventos no IF-UFRGS (Instituto de Física da UFRGS) para as meninas da escola co-executora; (2) promoção de palestras feitas por professoras do IF-UFRGS na escola co-executora e; (3) produção de vídeos motivacionais para difusão de depoimentos destacando a realização profissional de mulheres nos campos de C&T. Uma vez testado, se bem sucedido, esse plano de ações poderá ser replicado em outras instituições com vistas a aumentar a quantidade de meninas que se candidatam a carreiras em C&T.

Caso queira conhecer ainda mais do Meninas, confira o artigo publicado na Revista Gênero:
http://www.revistagenero.uff.br/index.php/revistagenero/article/view/744/411