Você quer entender o que influenciou a disseminação da COVID-19 no Brasil? Parte 1: o efeito das rodovias e grandes cidades.

Pesquisadores brasileiros acabaram de publicar um artigo na plataforma de preprints medRixv (artigo ainda não avaliado pelos pares para publicação em uma revista científica), demonstrando como as rodovias, as cidades super-disseminadoras, a disponibilidade de hospitais e a dengue influenciaram a epidemia de COVID-19 no Brasil.

Apenas seis meses após o primeiro relato de caso de COVID-19, em 26 de fevereiro de 2020, o Brasil atingiu mais de 4 milhões de casos e 125 mil mortes. Esses números, em 16 de setembro, tornaram o Brasil o terceiro país mais afetado pela doença, atrás dos EUA e Índia, e o segundo em termos de óbitos.

Em março, ficou claro que os aeroportos internacionais localizados, principalmente, nas capitais litorâneas do país (além das capitais Brasília, Belo Horizonte e Manaus) foram os principais pontos de entrada do SARS-CoV-2. Mas as rotas de disseminação do vírus no Brasil não são bem conhecidas.  Além disso, a distribuição espacial heterogênea dos casos de COVID-19 entre os estados brasileiros e a discrepância entre a distribuição dos casos e os óbitos chama a atenção.

Iniciando com a primeira fase da epidemia (01 de abril), pode-se facilmente perceber a disseminação dos casos de COVID-19 pelas cidades cruzadas ou localizadas próximas às duas principais rodovias que cortam o país longitudinalmente (BR 101 e BR 116). Cortes subsequentes no tempo (01 de junho e 01 de agosto) mostraram o aumento dos casos ao longo de outras rodovias federais importantes: longitudinais (BRs 153 e 156), transversais (BRs 222, 226, 232, 272), diagonais (BR 316, 319, 324, 364, 374, 381), radiais (BRs 10, 20, 40, 50, 60) e conectoras (BR 401, 408, 425, 447, 448, 450, 460).

Em seguida, os pesquisadores focaram na identificação das principais cidades brasileiras que contribuíram para a disseminação da COVID-19 ao longo das rodovias. Durante as primeiras três semanas da epidemia (do final de fevereiro ao meio de março), a cidade de São Paulo foi responsável pela disseminação de mais de 80% dos casos. São Paulo foi, claramente, a principal cidade super-disseminadora da doença. Após esse período inicial de três semanas, outras grandes cidades brasileiras começaram a contribuir para a disseminação da doença pelo país: Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife, São Luís, João Pessoa, Porto Alegre, Curitiba, Brasília e Manaus. Essas cidades explicaram cerca de 98-99% da disseminação dos casos de COVID-19 no Brasil naquele momento.

NÃO PERCA A CONTINUAÇÃO AMANHÃ!

FONTE: How super-spreader cities, highways, hospital bed availability, and dengue fever influenced the COVID-19 epidemic in Brazil. Miguel A. L. Nicolelis,  Rafael L. G. Raimundo,  Pedro S. Peixoto,  Cecilia Siliansky de Andreazzi. medRxiv 21 setembro 2020. doi: https://doi.org/10.1101/2020.09.19.20197749