Você quer entender o que influenciou a disseminação da COVID-19 no Brasil? Parte 2: o efeito Bumerangue.

Apesar da distribuição dos casos de COVID-19 e óbitos estarem significativamente correlacionados, a distribuição das mortes não pode ser explicada apenas pela origem dos casos (cidades nas quais a pessoa foi originalmente infectada). Outro fator fundamental influenciou: a distribuição geográfica dos leitos de UTI no país.

No Brasil, a maioria dos hospitais terciários (e, portanto, dos leitos de UTI) está localizada nas capitais dos estados e suas regiões metropolitanas, além de um punhado de cidades de tamanho médio no interior de cada estado. Os autores foram capazes de identificar, no meio de junho, um fluxo peculiar de pessoas por todo o Brasil.

Durante os estágios iniciais da epidemia, os casos de COVID-19 aumentaram rapidamente nas capitais dos estados, onde os aeroportos internacionais são localizados. Quando o número de casos cresceu, uma quantidade considerável de pessoas infectadas começou a se mover para o interior do país através das rodovias. Uma vez que essas pessoas infectadas alcançaram o seu destino, elas provavelmente foram responsáveis pela transmissão comunitária em cidades pequenas ao longo das estradas.

Quando a transmissão comunitária cresceu nas cidades do interior, um número crescente de pacientes com doença severa começou a sobrecarregar os hospitais locais, que não tinham pessoal qualificado ou leitos de UTI suficientes para a demanda. Então, uma grande quantidade desses pacientes teve que ser transportada para as grandes cidades, à procura de atendimento médico especializado e leitos de UTI. Esse fluxo ocorreu em todo o Brasil várias vezes durante os últimos seis meses.

Os autores denominaram esse fenômeno geral, com o fluxo de pessoas infectadas das capitais para o interior e, posteriormente, com a volta de pacientes gravemente doentes às capitais e grandes cidades, de “efeito Bumerangue”.

São Paulo emergiu como a cidade com o maior efeito Bumerangue, seguida por Belo Horizonte, Recife, Salvador, Fortaleza e Teresina. O efeito Bumerangue não ficou restrito às estradas e rodovias. Na Floresta Amazônica, por exemplo, pessoas gravemente doentes foram transportadas em barcos de todos os tipos das pequenas comunidades ao longo dos rios para as duas principais cidades da região: Manaus e Belém.

Por fim, quando a distribuição de leitos de UTI foi adicionada à análise, foi obtida uma grande correlação com o número de óbitos por COVID-19. Em outras palavras, independentemente da residência original dos pacientes, seja pequenas cidades no interior, seja grandes cidades, um número significativo de pessoas morreu nas capitais dos estados e em hospitais de cidades de tamanho médio, onde os leitos de UTI estavam concentrados.

Como resultado do efeito Bumerangue, um grande número de pacientes graves teve que migrar para cidades maiores e uma proporção deles faleceu lá. Combinado com as mortes dos residentes das grandes cidades, o efeito Bumerangue contribuiu decisivamente para a distorção na distribuição dos óbitos por COVID-19 no Brasil.

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FONTE: How super-spreader cities, highways, hospital bed availability, and dengue fever influenced the COVID-19 epidemic in Brazil. Miguel A. L. Nicolelis,  Rafael L. G. Raimundo,  Pedro S. Peixoto,  Cecilia Siliansky de Andreazzi. medRxiv 21 setembro 2020. doi: https://doi.org/10.1101/2020.09.19.20197749