Você quer entender o que influenciou a disseminação da COVID-19 no Brasil? Parte 3: o efeito da dengue.

Foi observada uma irregularidade peculiar na evolução temporal da disseminação dos casos de COVID-19 pelas regiões brasileiras. Os pesquisadores notaram que alguns estados, como Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Bahia, reportaram seus casos iniciais durante o mês de março, mas tiveram um crescimento lento do número de casos de COVID-19 a partir daí. Isso aconteceu apesar desses estados serem cortados por grandes rodovias federais e receberem um grande fluxo de tráfego vindo de São Paulo. Além disso, no final de junho, uma série de áreas “sem COVID-19” foram identificadas no centro-oeste e sudeste do país.

Analisando dados do Ministério da Saúde para tentar explicar essas áreas sem COVID-19, os pesquisadores se depararam com os mapas de distribuição de casos de dengue no país. Ao analisar os mapas de casos de COVID-19 e os de dengue por município, além dos dados totais de incidência de dengue em 2019-2020, foi observado que havia uma escassez de casos de COVID-19 em regiões com grande concentração de casos de dengue. Na verdade, todas as anormalidades observadas na taxa de crescimento de casos de COVID-19 e no retardo na curva de casos em vários estados podem ser explicadas pela distribuição geográfica dos casos de dengue nesses estados.

Para melhor caracterizar o potencial de interação entre a dengue e a COVID-19, os pesquisadores avaliaram a incidência de casos e óbitos por COVID-19, além da taxa de crescimento do número de casos e o número de dias necessários para atingir mil casos de COVID-19 por 100 mil habitantes em cada estado, em função do percentual da população que apresentava anticorpos IgM contra a dengue. Essa análise revelou que os estados com maior incidência de dengue durante a epidemia de 2020 tiveram menor probabilidade de exibir casos e óbitos por COVID-19.

Como controle para comparação, a mesma análise foi realizada com a chikungunya, mas não foi encontrada correlação entre COVID-19 e percentual de pessoas com anticorpos para chikungunya em nenhum dos estados.

Para testar se a correlação entre COVID-19 e dengue é específica do Brasil, os pesquisadores analisaram dados de 15 países onde é sabido que a dengue é prevalente. Quanto mais casos de dengue um país teve durante a epidemia de 2019/início de 2020, menos casos de COVID-19 o país apresentou até julho de 2020.

FONTE: How super-spreader cities, highways, hospital bed availability, and dengue fever influenced the COVID-19 epidemic in Brazil. Miguel A. L. Nicolelis,  Rafael L. G. Raimundo,  Pedro S. Peixoto,  Cecilia Siliansky de Andreazzi. medRxiv 21 setembro 2020. doi: https://doi.org/10.1101/2020.09.19.20197749