Doenças negligenciadas, como a leishmaniose visceral endêmica, podem agravar a COVID-19.

Em carta ao editor da revista Medical Hypotheses, pesquisadores brasileiros reforçam que a possível relação entre doenças endêmicas negligenciadas, como a leishmaniose visceral (LV), e a pandemia de COVID-19 deveria ser investigada.

No Brasil, várias vulnerabilidades, como falta de saneamento básico, moradias inadequadas, má-nutrição e endemismo de doenças crônicas negligenciadas, mantêm taxas elevadas de transmissão de COVID-19. Em 2018, a letalidade por LV alcançou 8% nas Américas e, do total de casos notificados, 97% foram reportados no Brasil.

Recentemente, foi publicado o primeiro relato de caso de COVID-19 em um paciente com leishmaniose visceral endêmica na Itália. Para esse paciente, a imunossupressão causada pela LV parece haver contribuído para a piora do curso clínico da COVID-19.

Pacientes com LV podem apresentar uma vulnerabilidade do sistema imunológico na resposta antiviral. A persistência do protozoário causador da LV parece ser bem frequente em indivíduos infectados e o desenvolvimento de um comprometimento imunológico impacta a imunidade inata e adaptativa.

Considerando que a suscetibilidade à VL parece estar relacionada a uma resposta imune ineficiente e polarizada, é provável que em áreas endêmicas, a sobreposição das vulnerabilidades sociais com a vulnerabilidade dos indivíduos, causada pela polarização imunológica, possa agravar a COVID-19, contribuindo para números elevados de casos e mortalidade.

FONTE: Should an intersection between visceral leishmaniasis endemicity and the COVID-19 pandemic be considered? Sílvio Fernando Guimarães Carvalho, Thallyta Maria Vieira, Ana Paula Venuto Moura, Marileia Chaves Andrade. Medical Hypotheses 144 (2020) 110289. https://doi.org/10.1016/j.mehy.2020.110289.