COVID-19 de longo prazo: danos a múltiplos órgãos em pacientes de baixo risco.

COVID-19 representa uma convergência de doença infecciosa, doenças pré-existentes não relatadas e determinantes sociais de saúde, sendo considerada uma “sindemia”. As pesquisas têm focado na fase aguda da infecção pelo vírus SARS-CoV-2 em pacientes hospitalizados e indivíduos que foram a óbito, mas é claro que a COVID-19 tem sintomas múltiplos e efeitos de longo prazo. Apesar disso, a “COVID de longo prazo” não é bem definida, parcialmente por causa do desconhecimento sobre a sua patofisiologia.

Os autores deste trabalho, publicado na forma de preprint (ainda não avaliado para publicação em uma revista científica), estudaram indivíduos de baixo risco, avaliando sintomas, exames de imagem por ressonância magnética de múltiplos órgãos e marcadores inflamatórios após três meses do diagnóstico de COVID-19. O funcionamento dos órgãos foi avaliado por meio de questionários preenchidos pelos pacientes, exames de sangue e ressonância magnética.

Foram encontrados três principais achados: (1) Em indivíduos jovens, largamente sem fatores de risco, doenças pré-existentes ou hospitalização, foi encontrado um peso significativo dos sintomas e evidência de danos ao coração, pulmões, fígado e pâncreas; (2) Nem os sintomas nem os exames de sangue são preditores de danos a órgãos ou hospitalização; e  (3) Danos cardíacos (miocardite e disfunção sistólica) e pulmonares tiveram prevalências similares em indivíduos de baixo risco que apresentaram COVID-19 de longo prazo. Alguns sintomas podem persistir por quatro meses após a infecção, particularmente fadiga, dificuldade em respirar, mialgia, dor de cabeça e artralgia (dor nas articulações).

Apesar dos autores descreverem danos leves aos órgãos, a escala da pandemia e as taxas de infecção altas em indivíduos de baixo risco sugerem um impacto em médio e longo prazo da COVID-19 que não pode ser ignorado. Os achados sinalizam para a necessidade de monitoramento e acompanhamento dos pacientes, principalmente em relação às sequelas extrapulmonares. Enquanto a procura por vacinas e tratamentos eficazes para a COVID-19 continua, as consequências da infecção pelo SARS-CoV-2 em múltiplos órgãos reforçam a importância primordial do distanciamento social, uso de máscaras, isolamento físico e outras medidas não farmacológicas de controle da infecção.

FONTE: Multi-organ impairment in low-risk individuals with long COVID. Andrea Dennis, Malgorzata Wamil, Sandeep Kapur, Johann Alberts, Andrew Badley, Gustav Anton Decker, Stacey A Rizza, Rajarshi Banerjee, Amitava Banerjee. medRixv 16 outubro 2020 doi: https://doi.org/10.1101/2020.10.14.20212555.