Saliva é promissora para a detecção de SARS-CoV-2 durante os estágios iniciais da infecção.

O teste diagnóstico é crucial para suprimir a disseminação de COVID-19 em pessoas com sintomas de doença respiratória, bem como em indivíduos expostos assintomáticos e em pacientes convalescentes que ainda podem ser infecciosos. O padrão-ouro atual é o RT-PCR usando amostra obtida por suabe de nasofaringe, uma metodologia de amostragem desconfortável para o paciente. A saliva é um espécime alternativo atraente porque o paciente pode coletá-la de forma não invasiva. As partículas de SARS-CoV-2 na saliva podem resultar da migração de células infectadas para o trato respiratório inferior e superior ou de infecção da cavidade oral, principalmente da língua. O RT-PCR baseado em amostras de suabe de nasofaringe é bem estabelecido, porém pouco se sabe sobre a condição ideal para testar a saliva.

O conhecimento sobre a sensibilidade dos testes de diagnóstico na saliva ao longo do curso da infecção pode ser útil para adotar este biofluido como uma amostra alternativa e para abordar o potencial de transmissão do vírus por pessoas infectadas. Embora a saliva seja uma opção atraente como amostra para a detecção de SARS-CoV-2, várias questões metodológicas devem ser sistematicamente exploradas antes que possa ser usada na clínica. Neste estudo, as alterações na capacidade da saliva de relatar a presença do vírus SARS-CoV-2 foram avaliadas em função das condições de armazenamento da amostra, condições da boca e evolução da infecção.

Todos os participantes foram positivos no RT-PCR de suabes de nasofaringe. Alíquotas de amostras de saliva de dois participantes foram analisadas no dia da coleta e após armazenamento por até 2 dias em temperatura ambiente, na geladeira ou freezer para testar a estabilidade do RNA viral na saliva durante 48 h após a coleta, mostrando que houve preservação do genoma viral (RNA viral). Atualmente, a presença do vírus é direcionada pela detecção de seu genoma, embora isso não signifique, necessariamente, a presença de partículas virais infectantes ativas. No entanto, a estabilidade das partículas virais é desejável para testes de diagnóstico porque relaxa as condições de armazenamento e transporte para o laboratório.

Os resultados demonstraram que, para amostras com valores de RT-PCR dentro da faixa de resultados positivos, o genoma viral é estável por 2 dias se mantido em temperatura ambiente, na geladeira ou após ciclo de congelamento e descongelamento. Essas condições cobrem os tipos mais comuns de armazenamento e transporte de amostras clínicas. A atividade da RNase da saliva (enzima que degrada o RNA) não atinge o genoma viral, sugerindo a presença de partículas virais intactas nas diferentes temperaturas testadas.

Um dos aspectos a se considerar ao usar a saliva como amostra é se as primeiras salivas da manhã são melhores do que as coletadas a qualquer hora do dia e se as perturbações na cavidade oral (ex: escovação dos dentes) afetam a sensibilidade do ensaio. Portanto, a presença do vírus foi comparada entre as amostras da primeira saliva pela manhã e aproximadamente 15 minutos após o café da manhã e escovação dos dentes. Os resultados indicaram que a primeira saliva da manhã é tão boa para detecção do vírus quanto a obtida 15 min após o café da manhã e escovação dos dentes. Este resultado apoia a noção de que a saliva é um biofluido robusto para o diagnóstico de COVID-19, embora não seja 100% confiável.

Em dois relatos da literatura sobre detecção de SARS-CoV-2 na saliva de crianças, o vírus se tornou indetectável entre os dias 8 e 10 após o início dos sintomas, enquanto ainda era detectável pelo suabe de nasofaringe. Esses resultados são consistentes com a ideia de que a saliva pode ser uma boa opção para o diagnóstico de COVID-19 apenas durante os estágios iniciais da infecção.

FONTE: Saliva as a promising biofluid for SARS-CoV-2 detection during the early stages of infection. Briceida López-Martínez, Ana L. Guzmán-Ortiz, Abraham J. Nevárez-Ramíre, Israel Parra-Ortega, Víctor B. Olivar-López, Tania Ángeles-Floriano, Armando Vilchis-Ordoñez, Héctor Quezada. Bol Med Hosp Infant Mex. 2020;77(5):228-233. DOI: 10.24875/BMHIM.20000204.