E se as doenças tropicais tivessem tanta atenção quanto a COVID?

Transcrevemos abaixo um artigo publicado na revista Nature. A autora, Francine Ntoumi, dirige a Fundação Congolesa para Pesquisa Médica e é professora sênior da Universidade Marien Ngouabi em Brazzaville, República do Congo, e do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de Tübingen na Alemanha. Leia o original na íntegra aqui.

“Durante todo o ano, a COVID-19 chamou a atenção do mundo. É como se nenhuma outra doença tivesse sido mais importante, mais contagiosa ou mais mortal.

Fundei um instituto de pesquisa sem fins lucrativos em 2008; estabelecemos o primeiro laboratório de biologia molecular da República do Congo, a única universidade pública do país. Nós monitoramos patógenos como aqueles que causam doenças gastrointestinais, malária, HIV, tuberculose (TB) e chikungunya – que juntos infectam mais de 250 milhões de pessoas a cada ano em todo o mundo e matam mais de 2,5 milhões. Para manter os tratamentos eficazes, avaliamos o desenvolvimento de resistência a medicamentos antimaláricos, antirretrovirais e antibióticos.

Nossos programas de pesquisa já estavam em vigor, portanto, poderíamos rapidamente mudar para testes de diagnóstico e estudos epidemiológicos baseados no sangue para entender como COVID-19 estava se espalhando no Congo e como manter os profissionais de saúde seguros. Desde março, três quartos do nosso tempo foram gastos no COVID-19.

Isso significa que estou negligenciando meu trabalho com outras doenças – que não estão indo embora. E não é só meu laboratório. Em outubro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que o progresso contra a tuberculose pode estagnar: nos países com as maiores taxas da doença, o número de pessoas diagnosticadas e encaminhadas para atendimento caiu um quarto em comparação com o número do ano passado. Como muitos países implementaram bloqueios, hospitais e centros de saúde registraram uma queda significativa no número de pessoas que procuram tratamento.

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FONTE: What if tropical diseases had as much attention as COVID? Francine Ntoumi. Nature 587, 331 (2020). doi: https://doi.org/10.1038/d41586-020-03220-5