É possível que chimpanzés que vivem isolados em parques na Guiné-Bissau e Costa do Marfim tenham adquirido Lepra através do contato com Acanthamoeba spp.?

Contribuição de Denise Leal dos Santos, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Microbiologia Agrícola e do Ambiente – UFRGS.

Essa semana me deparei com uma notícia que chamou minha atenção:

Cientistas acabam de descobrir que duas espécies de chimpanzés da Guiné-Bissau e da Costa do Marfim têm animais com lepra. Os primatas dos parques nacionais Cantanhez e Taï apresentam lesões visíveis da doença por todo o corpo . Esses foram os primeiros casos catalogados de lepra em chimpanzés.

Imediatamente busquei o artigo (Leprosy in wild chimpanzees) que relata o caso e como imaginava, uma das várias hipóteses levantadas para o ocorrido seria o contato desses animais com uma fonte ambiental (água ou solo) contendo Mycobacterium leprae internalizado em amebas (Acanthamoeba spp).

Em Guiné-Bissau esses primatas vivem no Parque Nacional Cantanhez e na Costa do Marfim no Parque Nacional de Taï. A Floresta de Taï também é um reservatório natural do vírus Ebola.

A lepra é uma doença progressiva da pele e nervos causada pelo bacilo Mycobacterium leprae.

Estudos relatam que M. leprae pode sobreviver a longo prazo dentro de cistos de  amebas por mais de 30 dias e que permanece totalmente capaz de infectar ratos, por exemplo.

Acanthamoeba é um gênero pertencente às amebas de vida livre, amplamente distribuídas na natureza, sendo encontradas em fontes de água, solo e ar. As espécies de Acanthamoeba podem ser consideradas oportunistas (atingindo indivíduos imunocomprometidos) ou patogênicas (causando doenças em indivíduos saudáveis).  Possui duas formas de vida: o trofozoíto (forma vegetativa) e o cisto (forma de resistência). Acanthamoeba spp. é considerada o cavalo de Tróia do mundo microbiano, pois pode carrear bactérias, vírus, fungos e outros protozoários em seu interior.

Ao longo do tempo, vários estudos foram realizados confirmando a presença de microrganismos em amebas. Portanto não é impossível que isso tenha ocorrido em relação aos chimpanzés. Um dado relevante é a questão desses animais viverem isolados, não possuindo contato com o ser humano que poderia ser um transmissor da doença.

As amebas de vida livre têm um papel fundamental na natureza, seja pela ciclagem de nutrientes, ou na evolução, carreando outras espécies (“treinamento” para que microrganismos driblem o sistema imune), mas também no envolvimento com doenças, sendo dispersoras de patógenos que podem se tornar mais virulentos após contato com elas.

FONTES:

Leprosy in wild chimpanzees. https://doi.org/10.1101/2020.11.10.374371

Survival of Mycobacterium leprae and association with Acanthamoeba from environmental samples in the inhabitant areas of active leprosy cases: A cross sectional study from endemic pockets of Purulia, West Bengal https://doi.org/10.1016/j.meegid.2019.01.014

Long-term Survival and Virulence of Mycobacterium leprae in Amoebal Cysts https://doi.org/10.1371/journal.pntd.0003405