Nem todos os vírus da natureza são inimigos humanos.

Até o final da década de 1980, pensava-se que os vírus ocorriam em baixas densidades nos ecossistemas e que seu papel ecológico era insignificante. No início dos anos 1990, esse paradigma foi alterado com o desenvolvimento de novas metodologias para contagem de partículas virais. Atualmente, sabe-se que a densidade de vírus em lagos pode ser da ordem de 10 bilhões de partículas virais para cada litro de água.

Os vírus são importantes no controle de populações em ecossistemas aquáticos. Da mesma forma que vírus como o SARS-CoV-2 afetam drasticamente a dinâmica da população humana, eles também podem controlar o crescimento das populações que habitam os ecossistemas aquáticos. Por exemplo, em média 10% da mortalidade de algas e 40% da mortalidade bacteriana são causadas por infecção viral⁠. Além disso, a infecção viral potencialmente promove a alternância entre as espécies dominantes dentro de uma comunidade bacteriana⁠. Quando uma espécie dominante é atacada por um vírus, sua densidade diminui, permitindo que outras espécies prosperem.

Os vírus são importantes condutores da evolução microbiana, pois são capazes de transferir material genético entre seus hospedeiros por meio de transdução – processo no qual um vírus injeta parte do material genético de um hospedeiro (doador) em um segundo hospedeiro (receptor), que incorpora esses genes em seu próprio material genético e, quando multiplicado, gera uma linhagem com novas características genéticas. Foi demonstrado que esse tipo de transferência lateral de genes ocorre em ecossistemas aquáticos em taxas muito altas.

Os vírus podem prevenir a proliferação de algas prejudiciais ao limitar a sua densidade populacional. O florescimento de algas ocorre quando elas encontram condições ideais de crescimento com altas concentrações de nutrientes originados de fontes naturais ou antropogênicas, como esgoto e atividade agrícola. A eutrofização intensificou o florescimento de algas em todo o mundo, representando um risco para a biota aquática e até mesmo para a saúde humana, uma vez que algumas cianobactérias podem produzir toxinas. Este controle viral sobre as espécies dominantes de bactérias e algas representa uma função ecológica importante desempenhada por vírus em ecossistemas.

O fato de que os vírus infectam e promovem doenças devastadoras em espécies com populações abundantes pode ser problemático, especialmente do ponto de vista da saúde humana. Mas os vírus também desempenham funções ecológicas essenciais para a manutenção da biodiversidade e o ciclo de elementos fundamentais na biosfera.

Fonte: Not all viruses in nature are human enemies: a perspective on aquatic virus ecology in Brazil. Junger, Pedro Ciarlini, Almeida, Rafael Marques, Mendonça, Raquel, Farjalla, Vinicius Fortes, de Melo, Rossana Correa Netto, Roland, Fábio, Barros, Nathan. Acta Limnologica Brasiliensia ; 32:1-9, 2020.