O foco está errado: saiba por que desinfetar superfícies sem renovação do ar em estabelecimentos públicos é tapar o sol com a peneira

Prof. Dr. Tiago Degani Veit (ICBS-UFRGS)



Em postagem anterior neste blog (veja o post aqui), comentei sobre um estudo científico publicado na revista JAMA que argumentou que mais da metade dos casos de COVID-19 parecem ser causados por pessoas sem sintomas, e que o ato performático de medir a temperatura das pessoas que entram em estabelecimentos públicos fechados é apenas isso mesmo: um ato performático que pouco serve para prevenir qualquer tipo de transmissão. Hoje quero falar sobre outra medida adotada pelos estabelecimentos públicos que, isoladamente, surte pouco efeito no controle da pandemia: o ato de desinfecção constante de superfícies. Vejamos o porquê.

O editorial de 2 de fevereiro da conceituada revista Nature (veja aqui) trouxe novamente ao centro das discussões a questão sobre as vias de contágio do vírus SARS-Cov-2, responsável pela pandemia de COVID-19. Segundo o editorial, após um ano de pandemia, há evidências suficientes para afirmar que, apesar de plausível, a transmissão do vírus pelo contato com superfícies contaminadas parece ser rara; a via preferencial de contágio é mesmo pelo ar. Estudos preliminares, mostrando que o vírus seria capaz de sobreviver por dias em diversas superfícies por muito tempo, além de uma série de relatos anedóticos de transmissão via superfícies e  objetos, levaram as agências reguladoras envolvidas no controle da pandemia em todo o mundo a recomendar (acertadamente), desde o início da pandemia, a desinfecção constante das superfícies como forma de prevenção ao espalhamento do vírus. O que ocorre é que essa preocupação com a higienização das superfícies encontra-se superdimensionada frente ao principal fator de risco, que é a contaminação por gotículas expelidas por pessoas contaminadas, frequentemente assintomáticas, dentro de ambientes fechados e/ou aglomerados. Por ignorância, ou na falta de uma solução satisfatória para a solução do problema de circulação do ar, vários estabelecimentos públicos investem pesadamente na desinfecção de superfícies, disponibilização de álcool em gel e mesmo luvas descartáveis para ‘mostrar serviço’ ao cliente. Veja bem, caro leitor, não estou afirmando que desinfetar frequentemente as superfícies e objetos é inútil, ou que você deva deixar para trás os seus hábitos de limpeza adquiridos ao longo de todos esses meses de pandemia, mas sim que isso resolve apenas 10% do problema. A falta de clareza por parte dos órgãos de regulação – no mundo, não apenas no Brasil – não ajuda em nada nessa questão e acaba tendo sérias implicações no cômputo geral do combate à pandemia.

Sendo assim, o que os estabelecimentos deveriam fazer se quiserem realmente diminuir o risco de contaminação? Devem focar na renovação do ar. Janelas abertas ajudam; ventiladores apontando para fora dos recintos fechados também. Levar a sério o espaçamento entre as pessoas ajuda, mas não muito, caso a renovação do ar seja deficitária, já que algumas gotículas expelidas por pessoas contaminadas podem permanecer no ar por várias horas.

E você, leitor, no que precisa focar para seguir livre desse vírus? Primeiramente, focar mais ainda no uso da máscara (muita atenção para o tipo de máscara – ver aqui). Evite ou permaneça o menor tempo possível em estabelecimentos mal ventilados. Estabelecimentos preocupados com limpeza podem mostrar boa intenção, mas isso não se traduz em proteção, se a circulação do ar for pobre e/ou se o ambiente estiver aglomerado. E, por último (sempre é bom repetir), evite qualquer tipo de aglomeração, tanto em ambientes abertos como fechados. Entender qual é o ponto crítico a que temos que prestar atenção – o ar que respiramos – é fundamental para nos manter afastados de situações de risco potencial de contaminação enquanto esperamos a vacinação em massa.