As epidemias e a ética por trás da busca pela cura. O caso da COVID-19.

Contribuição do Prof. Dr. Carlos Eugênio Silva (ICBS – UFRGS)

A pandemia de Sars-CoV-2 e a COVID-19 têm trazido um importante marco para a ciência. Mesmo considerando as a principal pandemia do vírus Influenza e suas variantes asiáticas posteriores, é a primeira vez que em uma pandemia a ciência tem a obrigação de identificar o agente, rastrear suas fontes e trazer uma solução rápida para mitigar a morte e as sequelas nos infectados, em tempo recorde. Tudo isso, porque a própria vida globalizada proporciona o espalhamento ímpar desse tipo de patógeno e interfere com todas as relações sociais e de trabalho que constituem uma característica da nossa espécie.

               A ciência é uma forma de manifestação cultural do homem que envolve a racionalização instrumentalizada para explicar realidade. Isso a difere do Senso Comum, da Religião e da Filosofia (Silva, 2017), outras importantes formas de manifestação humana, mas que não trazem soluções rápidas e concretas para estancar a pandemia, como bem nos mostra a história. Desta maneira a busca por soluções salvadoras tensiona a comunidade científica a tal ponto, que a ponderação e parcimônia em relação aos resultados torna os mesmos motivo de crença e não de convencimento (probabilidade de certeza). Para tanto é imperioso não negar que o desespero das populações e a possibilidade de sucesso econômico de alguns grupos são fortes elementos de pressão sobre a comunidade científica e suas fontes de financiamento.

               Quero citar aqui três situações emblemáticas que estamos vivendo em relação a esta pressão sobre a ciência. O primeiro é o caso do papel da hidroxicloroquina em combinação com a azitromicina na prevenção e combate da infecção humana (Gautret et al. 2020), liderado pelo renomado pesquisador francês Didier Raoult, e o forte questionamento da Comunidade Científica (Else, 2021) em relação aos resultados obtidos por aquele grupo. Neste caso, há diversos elementos que criaram viés no estudo, como a não uniformidade entre os pacientes nos grupos controle e tratado, problema na detecção via PCR no grupo controle, descarte de pacientes no grupo tratado e outras questões éticas em relação ao experimento e a revisão por pares. Nesta situação, seria mais prudente que os autores tivessem reconduzido os estudos e tentado apresentar uma nota científica com resultados menos frágeis. Entretanto, o que aconteceu foi pior, uma vez que a apropriação política de um resultado científico duvidoso interferiu com o entendimento de qualquer solução cientificamente séria para investigação de possíveis medicações antivirais.

               A segunda situação parece ser um desdobramento da mesma politização, levando ao famoso estudo de Manaus (Borba et al., 2020) liderado pelo infectologista Marcus Lacerda e que mostra a ineficácia da cloroquina, utilizando, por outro lado, doses 4 vezes maiores que o máximo recomendado para o medicamento, sem acompanhamento sanguíneo e grande disparidade entre os grupos. Durante o período experimental morreram 11 pacientes. O pesquisador está tentando provar o porquê de sua abordagem laboratorial junto ao MPF e ao CONEP. Por outro lado, isso não impediu a OMS de utilizar o estudo do pesquisador como argumento para não recomendar a cloroquina e mesmo a hidroxicloroquina. A crítica científica aos desdobramentos do estudo não impediu que muitos defensores dos sais de quinino não também não utilizassem de forma política este possível erro experimental.

               A terceira situação diz respeito ao efeito do desafio sobre a imunidade contra a COVID-19. Hoje parece claro que a imunidade humoral e celular contra o Sars Cov 2 pode ser de longa duração (Wang, X, et al., 2020). Por outro lado, também há fortes evidências científicas que a deriva evolucionária em Sars-Cov-2 se assemelha muito à dos Coronavírus do ser humano (Jo, WK, et al., 2021). Infelizmente esses fatos científicos são hora aviltados por manifestações públicas sobre a não necessidade de vacinação em indivíduos já infectados naturalmente, como também a ideia de que passaremos a ter necessidade de reforço anual para um patógeno contra o qual apenas pouco mais de 5,5% da população mundial foi vacinada (no mento em que este texto é escrito).

               Parece evidente que a ciência sofre um assédio grande sobre seu modus operandi. Embora a estrutura científica em todo o mundo disponibilize informações e soluções relevantes em curto espaço de tempo a mesma necessita longos períodos de discussão entre seus pares para poder estar convencida de que uma determinada estratégia tenha um forte significado. É muito importante lembrar que não existem verdades eternas ou crenças em ciência e sim conclusões temporárias que são aperfeiçoadas ou refutadas. Holofotes, fama e alta rentabilidade são desejos humanos que facilmente não condizem com boas atitudes científicas.

Referências

Silva, MA., 2017. A importância do senso comum, da religião, da ciência e da filosofia. JUS. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/55922/a-importancia-do-senso-comum-da-religiao-da-ciencia-e-da-filosofia. Acesso em: 01 jun. 2021.

Gautret et al., 2020. Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label non-randomized clinical trial. Int J Antimicrob Agents. https://doi: 10.1016/j.ijantimicag.2020.105949.

Else, H., 2021. Scientific image sleuth faces legal action for criticizing research papers. Nature. https://doi.org/10.1038/d41586-021-01430-z.

Borba et al., 2020. Chloroquine diphosphate in two different dosages as adjunctive therapy of hospitalized patients with severe respiratory syndrome in the context of coronavirus (SARS-CoV-2) infection: Preliminary safety results of a randomized, double-blinded, phase IIb clinical trial. https://doi.org/10.1101/2020.04.07.20056424.

Wang X, et al., 2020. Long-Term Existence of SARS-CoV-2 in COVID-19 Patients: Host Immunity, Viral Virulence, and Transmissibility. Virol Sin. https://doi: 10.1007/s12250-020-00308-0

Jo, WK, et al., 2021. The evolutionary dynamics of endemic human coronaviruses. Virus Evolution. https://doi: 10.1093/ve/veab020.