Novo estudo sugere que altos níveis de vitamina D não protegem contra a infecção por SARS-CoV-2.

Natália Morél Cerva1 – Acadêmica de Enfermagem – UFRGS 

Tiago Degani Veit – Professor do ICBS – UFRGS 

Durante a pandemia de COVID-19, muitas pessoas têm feito uso da vitamina D, na esperança de evitar o contágio, ou ao menos minimizar os efeitos deletérios da infecção.  Este suplemento chegou inclusive a fazer parte dos assim chamados “kits COVID”, distribuídos pelo governo e receitados por tantos médicos. O uso era em parte suportado por alguns estudos observacionais que associaram os níveis sanguíneos de 25OHD com proteção contra a COVID-19, reforçando a ideia de que a vitamina D poderia ser um fator importante contra a COVID-19. No entanto, estudos observacionais sobre 25OHD estão longe de serem o tipo de estudo ideal para avaliar a eficácia de qualquer tratamento, e não encontraram respaldo convincente nos dois ensaios clínicos randomizados (RCTs) sobre a suplementação de vitamina D, ambos usando altas doses de vitamina D no momento da admissão hospitalar para COVID-19.  O post de hoje traz um novo estudo conduzido por pesquisadores canadenses da Universidade McGill, publicada na revista PLOS Medicine, que procurou avaliar o efeito da vitamina D nos desfechos clínicos de uma grande população de indivíduos de descendência europeia de 11 países diferentes utilizando para isso uma abordagem genética (clique aqui para o artigo na íntegra). 

Um problema central nos estudos que avaliam o efeito da vitamina D em qualquer desfecho clínico é que existem vários fatores ambientais associados à produção dessa vitamina que podem estar associados a um desfecho clínico favorável, confundindo os cientistas. Por exemplo, a exposição ao sol aumenta a produção de vitamina D. A exposição ao sol é relacionada, entre outras coisas à atividade física. Assim, fica difícil conseguir “isolar” o efeito benéfico da vitamina D em relação ao efeito benéfico da exposição ao sol e da atividade física. Para tentar resolver este problema, os pesquisadores adotaram uma estratégica analítica que levou em conta apenas o perfil genético dos pacientes para a produção de vitamina D. Neste tipo de análise, chamado de Randomização Mendeliana, pessoas que possuem um perfil genético de baixos níveis sanguíneos de 25OHD (25-hidroxi-vitamina D, a a forma encontrada no sangue) são comparados com pessoas geneticamente propensas a apresentarem maiores níveis de 25OHD. Se a vitamina D tiver um efeito protetor contra a COVID-19, é esperado que o segundo grupo tenha algum nível de proteção em relação ao primeiro. 

E o que os resultados desse grande estudo mostraram? Mostraram que indivíduos com predisposição natural a maiores níveis de 25OHD não estavam particularmente menos suscetíveis a infecção, hospitalização ou a COVID-19 grave. É um resultado digno de respeito, considerando o número de indivíduos estudados (por exemplo, para analisar a suscetibilidade à COVID-19, foram analisados 14.134 casos e 1.284.876 controles sem doença). OS resultados do estudo, portanto, estão advogando contra a suplementação de vitamina D para fins de proteção contra as complicações decorrentes da COVID-19, embora admitam que pacientes realmente deficientes possam se beneficiar da suplementação para proteção e resultados relacionados à COVID-19. Corolário: se você não é particularmente deficiente em vitamina D, não vale a pena gastar o seu dinheiro com este suplemento. Ao invés disso, siga praticando as boas práticas de contenção da pandemia já consagradas: vacine-se, use máscara e evite aglomerações e ambientes fechados. 

Fonte: Butler-Laporte G, Nakanishi T, Mooser V, Morrison DR, Abdullah T, Adeleye O, et al. (2021) Vitamin D and COVID-19 susceptibility and severity in the COVID-19 Host Genetics Initiative: A Mendelian randomization study. PLoS Med 18(6): e1003605. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1003605