Estudo indica que festas de aniversário são eventos potencialmente importantes no espalhamento das infecções por COVID-19

Natália Morél Cerva – Acadêmica de Enfermagem – UFRGS 

Tiago Degani Veit – Professor do ICBS – UFRGS  

Como já exaustivamente debatido neste blog, o isolamento social é uma forma importante de impedir a disseminação da COVID-19 e, em contrapartida, os encontros sociais informais são um modo potencialmente importante de transmissão do SARS-CoV-2. Entretanto, os estudos sobre o papel desses encontros na transmissão do vírus geralmente se defrontam com limitações metodológicas. Pesquisadores americanos resolveram explorar um tipo muito específico desses eventos informais – os aniversários – como uma forma indireta de tentar quantificar empiricamente o papel potencial de pequenos encontros sociais na disseminação da COVID-19. Os pesquisadores partiram da hipótese de que domicílios com um ou mais aniversariantes poderiam estar associados a uma maior ocorrência de casos de COVID em relação a domicílios sem aniversariantes, e que isso estaria associado às reuniões que ocorrem por ocasião desses eventos. Para obter os resultados do estudo, os pesquisadores analisaram os dados de 2,9 milhões de domicílios nos EUA.  O período analisado foi entre 1 de janeiro e 8 de novembro de 2020, e os dados foram coletados com uma empresa de seguros de saúde americana. As seguintes informações foram levadas em consideração para realizar o estudo: o tipo de aniversário (por exemplo, aniversário de criança, de adulto ou de alguma data especial, como aniversário de 50 anos), a taxa de transmissão em nível dos condados (condado é um pequeno território dentro de um estado americano) no sábado de cada semana, questões políticas no condado e políticas estaduais de isolamento no local. 

Utilizando os dados da seguradora, com informações sobre aniversários e diagnósticos de COVID-19, os autores identificaram que a ocorrência de um aniversário em um domicílio estava associada a taxas de diagnóstico de COVID-19 significativamente maiores nesses mesmos domicílios nas 2 semanas seguintes aos aniversários, sugerindo que ocorreram encontros sociais para comemorar o aniversário e que esses encontros promovem sim o espalhamento da COVID-19. Entre os domicílios analisados nos condados com a maior prevalência de COVID, aqueles com aniversário tiveram um aumento de 8,6 diagnósticos a cada 10.000 indivíduos nas duas semanas seguintes ao aniversário em comparação com domicílios sem aniversário. Essa diferença entre domicílios com e sem aniversário era tanto maior quanto maior a prevalência de COVID nos condados. Outro dado importante observado foi que o aumento no número de casos após aniversário era maior após o aniversário de uma criança, do que após o aniversário de um adulto, o que pode sugerir uma maior probabilidade da ocorrência encontros informais por ocasião de aniversários das crianças e/ou um maior número de participantes, um relaxamento no comportamento de distanciamento e uso de mascaras ou uma combinação desses fatores. É importante ressaltar que não se entrou dentro de nenhuma residência neste estudo, apenas observou-se uma relação de causa e efeito entre essa data comemorativa e a ocorrência de casos nas semanas que se seguiam ao aniversário, portanto o que se vê é uma evidência indireta de que aniversários promovem condições para a transmissão do vírus e que mais de um fator pode estar envolvido, mas todos os fatores estão potencialmente relacionados à aglomeração social por ocasião destas datas. 

A taxa de infecção de COVID-19 em famílias com aniversários em condados que estavam sob a normativa de isolamento social ativo (lockdown, restrições de circulação, etc.) não foi menor do que em condados sem essas normativas, sugerindo que a adesão a essas políticas para esses eventos específicos pode ser baixa. Também é possível que os pedidos de isolamento social tenham se concentrado em locais formais de reunião, como restaurantes, lojas, academias e outros locais. No entanto, é importante enfatizar que os resultados desse estudo sugerem que as intervenções políticas destinadas a limitar a transmissão de doenças também devem focalizar nas reuniões informais, como as comemorações de aniversário.  

Sabemos que as festas de aniversário são culturalmente e emocionalmente importantes, tanto nos EUA quanto aqui no Brasil, mas todos os dados expostos por esse estudo indicam que elas ainda devem ser evitadas, a fim de conter a disseminação e o alto número de vítimas da COVID-19. Ressaltamos também que as novas variantes em circulação, como a variante Delta, que assunto da postagem anterior do blog (veja aqui), são ainda mais danosas e altamente transmissíveis do que as que estavam em circulação quando esse estudo foi realizado, o que reforça o nosso apelo pelo adiamento destas comemorações até que nos encontremos em uma situação epidemiológica mais segura.