Pandemia viral e mais parasitos

Por Carlos Eugênio Silva – Professor do ICBS-UFRGS

É inegável o impacto sanitario e as diferentes repercusões que a pandemia viral de SARS Cov 2 tem provocado. Também é notória a importância do que a vacinação pode fazer para controlar as piores manifestações da COVID 19, mesmo considerando a utilização de imunizantes menos eficazes.
Infelizmente, este problema mundial não é mitigado de modo uniforme, o que favorece o aparecimento de cepas novas. Esse contraste pode ser observado em situações diametralmente opostas. Considerando países em desenvolvimento, o Brazil, mesmo com mais de meio milhão de vítimas, já vacinou mais de 60% dos 210 milhões de habitantes, pelo menos com a primeira dose. Entratanto, em toda Africa, somente pouco mais de 7% da população recebeu a primeira dose.
Se isso não bastasse, tanto lá, quanto cá, temos um contingente significativo de pessoas expostas a Doenças Negligenciadas (NTD), que representam aquelas doenças que acometem populações com baixa renda e baixa instrução e que contribuem para a manutenção das desigualdades sociais; dentre essas donças, destacam-se as parasitoses.
Em artigo recente na Trends in Parasitology, pesquisadores da Unicamp, avaliram os impactos direto das parasitoses na Pandemia de Covid 19 e alertaram para o cuidado mútuo que deve ser mantido para evitar que populações fragilizadas não sejam um fator que possa prolongar a infecção pelo Sars Cov 2.
Fatores comportamentais relacionados ao controle da pandemia colaboram tanto para a redução como para o aumento de parasitoses, como aconteceu com a escabiose, que aumentou na Turquia com o lock down e não não pode ser controlada com os antisépticos em uso.
Outra questão está relacionada com a relação parasito-hospedeiro. O vírus é um parasito intracelular obrigatório e que é desfavorecida nos grupos etários sem comorbidades específicas. Entretanto, o manejo tradicional das formas respiratórias em indivíduos sem comorbidades importantes, mas que estejam acometidos por Strongyloides stercoralis, pode ter um desfecho bastante grave. O uso terapeutico de corticosteróides para controlar a inflamação pode ser fatal, pois mesmo auxiliando na melhora das manifestações da Covid 19, favorece a a auto-infecção interna e hiperinfecção pelo verme.
Entre outros aspectos, protozooses como a Leishmaniose Visceral e a Doença de Chagas, que provocam, consecutivamente, cardiomiopatia e imunossupressão, criam condições que favorecem muito o estabelecimento da infecção viral.
A epidemia de COVID 19 tem levado governos de países em desenvolvimento a realizar duras escolhas. As terapias em massa para controle de parasitos envolvem utilização de medicações cuja falta de conhecimento técnico leva a interpretações equivocadas, como o caso da Ivermectina e dos Benzimidazóis. Estas medicações são amplamente utilizadas em campanhas de erradicação parasitária na África Sub-Saariana e no Sudeste Asiático e que deixaram de ser prorizadas pela vacinação, que ainda assim não está sendo eficiente (pouco mais de 7% em toda África).
Seria importante que não dessemos chance ao azar. Devemos diagnosticar e tratar concomitantemente as NTD, pois nossas alianças sociais são ainda mais frágeis que as alianças seletivas naturais.

Danilo C Miguel, Mariana B C Brioschi, Leticia B Rosa, Karen Minori, Nathalia Grazzia. 2021. The impact of COVID-19 on neglected parasitic diseases: what to expect?
Trends Parasitology. 37(8):694-697.
DOI: 10.1016/j.pt.2021.05.003