Dinamarca suspende todas as restrições remanescentes ao coronavírus e cientistas especulam sobre a as próximas fases da COVID-19.

Natália Morél Cerva – Acadêmica de Enfermagem/UFRGS  

Prof. Tiago Degani Veit – Professor DEMIP/UFRGS 

Muito nos perguntamos quando o Brasil irá abandonar as restrições contra o COVID-19. Todos estamos ansiosos para que isso aconteça, e a notícia boa é que a “volta da vida normal” já é realidade em alguns países. O jornal da revista Science publicou uma reportagem sobre a fase de transição em que a pandemia se encontra na Dinamarca, um país que não vivencia mais de 10 mortes por dia desde fevereiro deste ano, e onde todas as restrições remanescentes ao coronavírus foram suspensas no início de setembro (veja o artigo na íntegra aqui). O país europeu vacinou totalmente mais de 88% das pessoas com mais de 18 anos (no Brasil, esse número está pouco acima dos 60%) e 97% dos maiores de 60 anos de idade, e encontra-se na transição de pandemia para endemia, que é quando o vírus ainda está presente, mas agora enfrenta uma população que é praticamente imune a ele. No entanto, o país não está completamente fora de perigo, já que ainda há crianças e adolescentes que não foram vacinados, além das pessoas que não tiveram uma produção total de imunidade induzida pela vacina.  

A comunidade científica está acompanhando de perto a situação na Dinamarca. Quatro projeções já foram publicadas pela Statens Serum Institute (SSI), agência governamental de saúde pública e pesquisa, as quais dão uma ideia do que pode acontecer a partir de agora no país. O melhor cenário presume que o país alcançará 90% de cobertura vacinal nas pessoas maiores de 12 anos e as atividades sociais, que ainda estão abaixo do que eram antes da pandemia, não aumentarão muito. Nesse caso, não é esperado aumento de casos e hospitalizações. No pior cenário, a adesão a vacina não aumentaria e haveria um aumento de 10% nas atividades sociais, podendo ter como consequência uma onda de casos e hospitalizações tão graves quanto as que ocorreram em dezembro de 2020. A se confirmar esse segundo cenário, o governo dinamarquês provavelmente voltaria com algumas restrições. Digno de nota, nenhuma das projeções considerou a diminuição da imunidade na população e nem o surgimento de novas variantes de SARS-Cov-2.  

Embora outros países estejam ensaiando essa reabertura, a realidade é que poucos países estão com cobertura vacinal suficiente para tentar essa transição, especialmente entre a população idosa. Israel, apesar de ter uma cobertura vacinal um pouco menor da sua população idosa (90%) e que reabriu tudo em junho, está atualmente lutando contra uma nova onda de casos. O caso da Inglaterra, que reabriu totalmente em 19 de julho, com apenas metade da população vacinada, viu o número de casos disparar em agosto e agora conta com mais de 100 mortes diárias (o  Brasil, com suas mais de 300 mortes diárias, está muito longe de poder cogitar tal passo).  

Enquanto isso, cientistas estão tentando descobrir como se desenrolará a fase endêmica da COVID-19. David Fisman, epidemiologista da Universidade de Toronto, diz: “Eu conheço muitas pessoas inteligentes que estão projetando coisas muito diferentes”. Provavelmente o estágio endêmico não será como a endemia de sarampo que, apesar de ser altamente infeccioso, deixa as pessoas imunes à infecção pelo resto da vida, resultando em uma doença com uma onda de infecção a cada poucos anos. Uma perspectiva possível é a de que o SARS-CoV-2 siga a trajetória dos outros quatro coronavírus endêmicos, em que a proteção contra infecções leves se desgasta com o tempo, mas a proteção contra doença grave, não. Nesse sentido, é esperado que ocorra uma primeira infecção na infância, seguida por infecções leves recorrentes mais tarde na vida. A perspectiva é diferente se a imunidade contra COVID-19 grave também diminuir. Se esse for o caso, paradoxalmente, seria melhor que o vírus continuasse infectando as pessoas com frequência, reforçando a sua imunidade. e não seriamos vulneráveis ao vírus novamente. Esse argumento foi defendido por Antia e Elizabeth Halloran, da Universidade de Washington, em um artigo recente na Immunity. Cabe ressaltar que tal argumento é defensável em um contexto de endemia, em que a maioria da população está imunizada contra o agente patogênico, e nunca no contexto de uma pandemia, em que a maioria das pessoas teve que desenvolver sua imunidade praticamente do zero, com quase 5 milhões de mortos até o momento. 

Enfim, há apenas especulações sobre como será o mundo com COVID-19 endêmico. Os cientistas levam em consideração a endemia de outros vírus para fazer essas previsões, como por exemplo o vírus da gripe. A certeza, por hora, é a de que ao menos no caso do Brasil ainda estamos no estágio de pandemia, com centenas de mortes por dia, e de que as medidas até agora adotadas, como melhor ventilação de ambientes, adesão à vacinação além de testar, rastrear e isolar pessoas infectadas, continuam na ordem do dia (ou, ao menos, deveriam estar). Tentar apressar o processo de reabertura, com lotação total de espaços públicos e abolição das máscaras invariavelmente nos levarão a novos picos de casos e mortes. O que já não está bom (ao que parece, já não nos causa espanto 300 mortes por dia) pode voltar a ficar muito pior. 

Referência: Kupferschmidt, Kai. “Pandemic enters transition phase-but to what?.” Science (New York, N.Y.) vol. 374,6564 (2021): 135-136. doi:10.1126/science.acx9290 

2 respostas para “Dinamarca suspende todas as restrições remanescentes ao coronavírus e cientistas especulam sobre a as próximas fases da COVID-19.”

  1. No estágio atual da pandemia, essa notícia é muito alentadora. Pessoalmente, concordo com que a infecção por SARS CoV 2 siga o caminho dos seus primos Coronavirus respiratórios, mas por um mecanismo de premunição, como clássica mente acontece com os agentes de Tristeza Parasitária dos Bovinos, Malária e as demais viroses respiratórias.
    São os reflexos de uma sociedade bem instruída e que pode lidar mais rapidamente com a demanda nacional, pois apresenta uma população com quase a metade da população do Rio Grande do Sul de mograficamente mais velha. Essa pandemia é a melhor revisão prática de Epidemiologia que já tivemos, tendo, infelizmente, nós mesmos como cobaias!

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