As máscaras estão caindo ao redor do Brasil, mas será que já está na hora?

Bruno Lopes Breda – Estudante de Medicina da UFRGS

Carlos Eugênio Silva – Professor do Instituto de Ciências Básicas da Saúde da UFRGS 

Ao redor do país, diversas regiões já tornaram o uso de máscaras opcional em locais abertos: entre as principais metrópoles, podemos criar uma lista em que constarão Belo Horizonte, Florianópolis, Teresina, São Luís… A cidade de Porto Alegre, inclusive, tomou uma decisão de maior ousadia ao desobrigar uso de máscaras tanto em locais abertos quanto fechados, assim como outras capitais – Rio de Janeiro, São Paulo, Natal e Rio Branco. O debate sobre a obrigatoriedade do uso de máscaras, talvez, divida com o próprio coronavírus o protagonismo da pandemia, mas será que as máscaras, símbolo dos últimos 2 anos, já podem ser flexibilizadas?

A variante ômicron, somada às festividades de ano novo, fez com que os números da pandemia apresentassem intensa piora, com aumento expressivo tanto em casos – os quais atingiram recordes históricos nas primeiras semanas de janeiro de 2022 – quanto em internações e mortes: o Brasil voltou a somar mais de 1.000 mortos em um dia após muito tempo. Nesse cenário, decisões sobre a obrigatoriedade do uso de máscaras que vinham sendo debatidas desde o último trimestre de 2021 acabaram por ser adiadas.

Com a decisão dessas prefeituras pela desobrigação do uso de máscaras em ambientes fechados, nos resta esperar pelas repercussões epidemiológicas nos próximos dias. É difícil estabelecer um cenário futuro com grande grau de certeza: a vacinação está trazendo resultados maravilhosos nos números de COVID-19, evidenciados por quedas tanto em mortalidade quanto em número de infecções, mas também será a primeira vez em que cidades inteiras voltarão a patamares pré-pandemia de cuidados contra a COVID-19.

Existem pistas tanto positivas quanto negativas para imaginarmos o cenário a partir de agora: no Brasil, apesar de a mobilidade ter sido altíssima durante o carnaval e de os cuidados individuais terem diminuído expressivamente, não estamos vendo grande aumento do número de casos. Entretanto, o SARS-CoV-2 já frustrou nossas expectativas diversas vezes nesses 2 anos de pandemia, e o risco de novas variantes segue existindo, ainda mais se considerarmos que existem regiões no Brasil que ainda não atingiram sequer os 70% de vacinados que eram preconizados antes da ômicron, a exemplo do Acre, Roraima e Rondônia.

Pensando de uma forma global, as liberações podem ter sido contraditórias. Na China a média móvel em 15 de março último foi seis vezes maior que na semana anterior e na Coréia do Sul, na mesma semana, os óbitos foram os maiores já registrados. Na Europa, países da União Européia e Reino Unido tiveram aumentos de infecção de até 83%*. Também não anima o fato de termos um continente inteiro onde a vacinação ainda não atingiu percentuais adequados de imunização – a África poderá ser berço de novas variantes se não receber ajuda da comunidade internacional para acelerar seus números de vacinação.

De qualquer maneira, obrigatórias ou não, as máscaras ainda são a medida mais barata de proteção contra a COVID-19, e o uso é importantíssimo em situações de alto risco. Nesse momento de incertezas, em que nos falta uma orientação clara das autoridades, vale o uso das informações que as pesquisas e a ciência forneceram nesses anos a nosso favor: sempre que a situação é de maior risco para o contágio, use máscara!

Nós, do Microbiologando, seguiremos nos protegendo da melhor maneira possível!
* Folha de São Paulo