Dúvidas sobre a interpretação dos resultados de testes de anticorpos para COVID-19?

Várias empresas em todo o mundo lançaram kits para testagem de COVID-19. Esses testes podem detectar o RNA viral ou a presença de anticorpos produzidos pelo paciente em resposta à exposição/infecção com o SARS-CoV-2. É importante ter em mente que o nosso corpo precisa de tempo para responder à infecção e desenvolver anticorpos, o que faz com que os testes baseados em anticorpos não sejam tão eficazes para detectar uma infecção recente.

O princípio dos testes de anticorpos é baseado em antígenos que mimetizam estruturas específicas do vírus, fazendo com que anticorpos presentes no sangue ou no soro se liguem ao antígeno. A especificidade do teste pode ser largamente dependente do antígeno escolhido, já que algumas estruturas virais estão presentes em famílias de vírus e outras podem ser específicas para uma determinada cepa. Portanto, é importante entender a reação cruzada que pode haver com outros vírus, de forma a evitar a interpretação errônea de resultados falso-positivos.

Esses testes podem ser divididos em dois tipos: os imunoensaios laboratoriais, que requerem um equipamento para fazer a leitura ou análise, e os sistemas rápidos, que podem ser interpretados a partir de uma mudança de cor de um indicador visível a olho nu. As sensibilidade e especificidade dos testes de imunoensaios laboratoriais podem ser maiores do que os sistemas rápidos.  

Esses sistemas rápidos produzem resultados quase imediatos, com todo o processo demorando menos que 15 minutos, do tipo presença ou ausência de indicadores para cada tipo de anticorpo testado. Muitos kits possuem indicadores para IgM e IgG, mas existem várias combinações de resultados. Os anticorpos IgM são produzidos pouco tempo após a infecção, enquanto IgG são produzidos após um tempo maior.

Outra coisa importante é que pacientes sintomáticos provavelmente têm resposta imunológica com maior produção de anticorpos e mais marcadores inflamatórios.  Como não se sabe muito sobre o SARS-CoV-2, se usarmos o vírus da SARS de 2002/2003 como exemplo, os anticorpos IgM geralmente são detectáveis nos sistemas rápidos em aproximadamente 5 a 7 dias após o início dos sintomas. Esses anticorpos permanecem detectáveis até os dias 14 a 21. No meio desse tempo, por volta do dia 14, a quantidade de anticorpos IgG ultrapassa o nível de detecção e continua a aumentar até 28 a 35 dias após o início dos sintomas, com um pico ocorrendo próximo à recuperação clínica. IgG tem meia-vida longa e pode permanecer detectável por meses ou anos.

Independentemente da metodologia usada para detectar os anticorpos, os testes não possuem como finalidade diagnosticar uma infecção ativa porque:

1)            Tem um espaço de tempo entre a exposição ao vírus e o desenvolvimento de anticorpos;

2)            Os anticorpos persistem muito tempo após o final da infecção.

Esses testes são uma ferramenta excelente para ser usada em paralelo com o teste molecular (RT-PCR), histórico do paciente e apresentação clínica em pacientes sintomáticos, ou usada em pessoas assintomáticas para avaliar o retorno às atividades. 

Por fim, é importante entender que existem limitações nos testes. Portanto, é difícil saber se um teste positivo para anticorpos em um paciente com teste molecular (RT-PCR) negativo significa que o teste de anticorpos foi um falso positivo ou o teste molecular foi falso negativo. Os médicos devem ser criteriosos na interpretação e solicitar detalhes técnicos sobre os kits utilizados.

Para a correta interpretação dos resultados, alguns fatores devem ser levados em conta:

1. A pessoa testada está sintomática ou assintomática na época da realização do teste?

2. Se sintomática, quando iniciaram os sintomas?

3. IgM positivo ou negativo?

4. IgG positivo ou negativo?

Interpretando os resultados quando a pessoa testada está assintomática ao realizar o teste:

IgM e IgG negativos: Não houve produção de anticorpos contra o SARS-CoV-2 e não há suspeita de que a pessoa tenha COVID-19. Esse resultado não elimina a possibilidade de que a pessoa tenha sido recentemente exposta ao vírus e ainda não tenha produzido anticorpos. A pessoa deve continuar a praticar o distanciamento social e tomar precauções para não se infectar.

IgG positivo e IgM negativo:  A pessoa testada provavelmente teve a infecção várias semanas antes, mesmo que não tenha tido sintomas. Dependendo do tempo passado desde a exposição, é improvável que esteja disseminando o vírus. Um teste molecular (RT-PCR para detecção do RNA viral) pode ser usado para verificar se está havendo disseminação viral.

IgM positivo e IgG negativo: O sistema imunológico está ativamente produzindo anticorpos contra uma infecção recente. A pessoa testada deve se isolar imediatamente e procurar ajuda médica se sintomas mais graves aparecerem. A disseminação do vírus para outras pessoas é provável, mesmo que a pessoa testada esteja assintomática. Após 14 a 21 dias, deve-se considerar repetir o teste para confirmar a produção de anticorpos IgG para que a pessoa possa retornar às atividades. Se for necessário um retorno mais rápido, o teste do RT-PCR deve ser feito para verificar se pode ainda estar ocorrendo disseminação viral.

IgM e IgG positivos: O sistema imunológico está ativamente produzindo anticorpos contra uma infecção que provavelmente iniciou mais de 14 dias atrás. A pessoa testada deve se isolar e procurar ajuda médica caso sintomas graves apareçam. Considere repetir o teste em 7 a 14 dias para confirmar o status de IgM negativo IgG positivo antes de retornar às atividades. Se for necessário um retorno mais rápido, o teste do RT-PCR deve ser feito para verificar se pode ainda estar ocorrendo disseminação viral.

Interpretando os resultados quando a pessoa testada está sintomática ao realizar o teste:

IgM e IgG negativos: O sistema imunológico da pessoa testada não produziu anticorpos contra o SARS-CoV-2.  Se já tiverem passado mais de sete dias desde o início de febre ou outros sintomas, provavelmente a doença não é COVID-19. Se menos de sete dias, a COVID-19 não pode ser excluída. A pessoa não deve retornar às atividades normais até que a infecção por SARS-CoV-2 tenha sido excluída por testes de RT-PCR ou novas testagens de anticorpos, ou tenha passado o tempo apropriado para que não haja perigo de disseminação viral (a disseminação pode ocorrer até, aproximadamente, 31 dias após a exposição ao vírus).

IgG positivo e IgM negativo: A pessoa testada está, provavelmente, nos estágios finais da doença, mas ainda pode ser capaz de disseminar o vírus. A pessoa deve permanecer isolada por, pelo menos, 14 dias para minimizar o risco de disseminar o vírus

IgM positivo e IgG negativo: O sistema imunológico está ativamente produzindo anticorpos contra uma infecção recente. A pessoa testada deve se isolar imediatamente e procurar ajuda médica se sintomas mais graves aparecerem. Pode haver disseminação da doença para outras pessoas. Após 14 a 21 dias, deve-se considerar repetir o teste para confirmar a produção de anticorpos IgG para que a pessoa possa retornar às atividades. Se for necessário um retorno mais rápido, o teste do RT-PCR deve ser feito para verificar se pode ainda estar ocorrendo disseminação viral.

IgM e IgG positivos:  O sistema imunológico está ativamente produzindo anticorpos contra uma infecção que provavelmente iniciou mais de 14 dias atrás. A pessoa testada deve se isolar e procurar ajuda médica caso sintomas graves apareçam. Pode haver disseminação da doença para outras pessoas. Considere repetir o teste em 7 a 14 dias para confirmar o status de IgM negativo IgG positivo antes de retornar às atividades. Se for necessário um retorno mais rápido, o teste do RT-PCR deve ser feito para verificar se pode ainda estar ocorrendo disseminação viral.

A tradução integral do artigo pode ser vista aqui.

FONTE: Understanding Antibody Testing for COVID-19. David Jacofsky, Emilia M. Jacofsky and Marc Jacofsky. J Arthroplasty. 2020 Apr 27. doi: 10.1016/j.arth.2020.04.055