O vírus da COVID-19 pode ser transmitido através das fezes?

Por Fabiana Vieira Tormente

Publicado em: 27/03/2020.

Embora os sintomas mais comuns da COVID-19 sejam febre, tosse seca e dificuldade para respirar, estudos recentes têm relatado a incidência de manifestações menos comuns como diarreia, náuseas, vômito e desconforto abdominal. Em 2003, amostras de biópsia do trato gastrointestinal e de fezes de pacientes detectaram a presença do vírus SARS-CoV-1 (do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 1, traduzido como Síndrome Respiratória Aguda Grave do Coronavírus 1), mesmo naqueles que haviam recebido alta, fornecendo uma possível razão para os sintomas atípicos relatados, bem como recorrência e transmissão da SARS. Isso é especialmente importante porque sabemos que o SARS-CoV-2 é bastante semelhante ao SARS-CoV-1 (ou SARS-CoV), causador da epidemia na China em 2002. De fato, o primeiro caso confirmado de COVID-19 nos EUA reportou que sofria de náuseas e vômitos dois dias antes de dar entrada no hospital, onde foram coletadas amostras respiratórias e de fezes, cujo resultado acusou positivo posteriormente. Um relato de caso chinês, em artigo publicado dia 20 de março de 2020, cita que uma mulher de 29 anos com sintomas respiratórios e febre foi hospitalizada e, embora os testes feitos com amostras de escarro e de faringe tenham dado resultado negativo para COVID-19, o exame fecal acusou a presença do vírus.

Um estudo também chinês conseguiu coletar amostras respiratórias e fecais de 74 pacientes, dos quais 33 deram negativo nas amostras fecais e positivo nas respiratórias, enquanto para 41 pacientes os resultados acusaram positivo em amostras fecais e respiratórias. Dessas 41 amostras, percebeu-se que as amostras fecais atestavam a presença do vírus por muito mais tempo do que as amostras coletadas do trato respiratório, podendo chegar a cinco semanas após os testes respiratórios negarem a presença de partículas virais. Como o vírus pode permanecer viável no ambiente, a transmissão fecal-oral pode acontecer, como já relatado em artigos anteriores nos outros dois vírus da família Coronavírus que infectam humanos (SARS-CoV-1 e MERS).

Esses dados mostram que ainda se sabe muito pouco sobre as rotas de infecção do SARS-CoV-2. No entanto, à medida que a pandemia avança, a quantidade e variabilidade de testes aplicados em pacientes suspeitos de portarem o vírus, fornecem dados que sugerem o sistema digestivo como uma rota alternativa de infecção, além do já conhecido trato respiratório.

Os estudos alertam para que seja dada atenção a sintomas antes negligenciados, que podem surgir antes dos mais comuns, podendo ser um fator importante na detecção e diagnose precoces de pacientes infectados, levando a uma antecipação no isolamento, prevenindo a transmissão da doença em estágios iniciais da manifestação clínica.

Ademais, a transmissão por parte de pacientes assintomáticos vem acontecendo e, por isso, novos estudos precisam ser feitos para definir o potencial infeccioso das fezes de pacientes que já não apresentam sintomas e cujos testes em amostras respiratórias é negativo para o SARS-CoV-2.

Vale lembrar também que estamos lidando com um vírus cujas manifestações e consequências no organismo humano ainda estão sendo investigadas. Portanto, os cuidados ao lidar com dejetos de adultos, crianças ou bebês infectados são bastante oportunos. A pediatra Ana Maria Escobar, colunista da revista Crescer, reforça: “Precisamos redobrar o cuidado de higiene, lavando muito bem as mãos após ir ao banheiro ou a troca de fralda. Além disso, é preciso fazer o descarte de fraldas adequado, isolando bem o material e levando imediatamente ao lixo.”.

Fabiana Vieira Tormente Engenheira de Bioprocessos e Biotecnologia (UERGS), mestranda em Microbiologia Agrícola e do Ambiente (UFRGS).

Referências:

CHEN, Lijuan; LOU, Jianghua; BAI, Yan; et al. COVID-19 Disease With Positive Fecal and Negative Pharyngeal and Sputum Viral Tests. The American journal of gastroenterology, p. 2020, 2020. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32205644>.

ESCOBAR, Ana Maria. Coronavírus pode ser encontrado nas fezes – Revista Crescer | Saúde. Revista Crescer. Disponível em: <https://revistacrescer.globo.com/Bebes/Saude/noticia/2020/03/coronavirus-pode-ser-encontrado-nas-fezes.html>. Acesso em: 26 mar. 2020.

Gu J, Han B, Wang J, COVID-19: Gastrointestinal manifestations and potential fecal-oral transmission, Gastroenterology (2020), doi: https://doi.org/10.1053/ j.gastro.2020.02.054.

WU, Yongjian; GUO, Cheng; TANG, Lantian; et al. Prolonged presence of SARS-CoV-2 viral RNA in faecal samples. The Lancet Gastroenterology and Hepatology, 2020. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/S2468-1253>.