ARTE ENTRE OS SÉCULOS XIV e XVIII


Renascimento

De acordo com o Dicionário Oxford de Arte, Renascimento ou Renascença é o termo aplicado a um movimento intelectual e artístico que se originou na Itália no século XIV, atingindo aí seu apogeu no século XVI, influenciando de vários modos todo o restante da Europa. A metáfora de um “renascimento” remonta ao século XV, quando foi empregada para descrever o reflorescimento da cultura clássica. Foi aplicada também a uma restauração das artes, cuja idéia foi sistematicamente desenvolvida nas famosas Vidas (1550) de Giorgio Vasari (1511–1574). Vasari entendia a História da Arte na Itália, desde Giotto (1267–1337) a Michelangelo (1475–1564), com um contínuo progresso, o qual comparava a um processo de crescimento orgânico, e sua visão dominou a estrutura teórica da História da Arte até épocas muito recentes. A extensão do sentido do termo, de um movimento nas artes e nas letras para um determinado período no tempo, deu-se no século XVIII, ganhando uso corrente quando Jules Michelet (1798–1874) chamou um capítulo de sua história da Franca de La Renaissance (1855). John Ruskin (1819–1900) já usara a expressão o período da Renascença em seu Pedras de Veneza (1851). Poucos anos depois, em 1860, Jacob Burkhardt (1818–1897) publicou Die Kultur der Renaissance in Italien, um livro extremamente influente que popularizou a noção um tanto romântica do período como um grande florescimento do espírito humano – a “descoberta do homem e do mundo”.

Essa definição abrangente do termo tornou particularmente difícil estabelecer os limites do período. Se por “descoberta do mundo” entendermos um progresso em direção ao “naturalismo” nas artes, tais tendências podem ser detectadas já na arte francesa do século XIII, geralmente qualificada como gótica. Se tomarmos a “descoberta do homem como pedra de toque, personagens profundamente medievais como São Francisco de Assis podem ser aclamadas como arautos da nova era. Essas contradições, bem como muitas outras de natureza semelhante, levaram os historiadores do século XX a uma rediscussão do próprio conceito de Renascença.

Nas artes visuais, o termo é geralmente visto como designativo de uma imitação deliberada dos padrões clássicos ou um retorno consciente aos critérios clássicos de valor. É na arquitetura que a imitação dos modelos clássicos pode ser mais facilmente identificada, pois o vocabulário da arquitetura romana difere bastante daquele do estilo gótico, e foi Fillippo Brunelleschi (1377–1446), sem dúvida, o primeiro arquiteto a reanimar o estilo antigo. (Com relação à arquitetura, o termo “Renascença” foi usado algumas vezes para abranger todos os edifícios pós-medievais que se valem de um idioma clássico; assim, na obra de Sir Reginald Blomfield, History of Renaissance Architecture in England 1500–1800, publicada em 1897, abarca um período que hoje seria subdividido em outras categorias, com Barroco e Neoclassicismo). Na pintura e na escultura, é mais difícil definir a Renascença em termos da imitação de modelos antigos.

Vasari situa o início da escultura renascentista em Nicola Pisano (?–1278/84) , que retomara motivos tirados da estatuária clássica, e hoje vemos que há tanto em comum entre a arte dos Pisani e a de seus contemporâneos do norte que classificamos seu estilo como proto-renascentista, e não como renascentista propriamente. Além do mais, a escultura italiana do século XIV permanece gótica. É só no início do século XVI que vemos um reflexo do gosto renascentista manifestando-se na escultura. Donatello (1385–1466) não se contentou com a mera cópia de motivos clássicos isolados e procurou restabelecer o próprio espírito da escultura clássica, cuja glória fora exaltada pelos autores antigos. Seu Davi foi a primeira estátua de uma figura nua em tamanho natural feita desde a Antiguidade clássica, assim como sua Gattamelata constitui uma deliberada ressurreição do monumento eqüestre clássico.

O problema de definir o que é a pintura renascentista, em termos semelhantes aos da escultura, é bastante mais complexo, uma vez que praticamente não sobreviveu nenhum modelo antigo de pintura – ao contrário da escultura e da arquitetura. Obras de mestres famosos, como Apeles e Zêuxis, eram conhecidas apenas por meio de registros literários, e as descrições de Plínio (23/24–79)n influenciaram pintores, patronos e críticos. O público renascentista aprendeu dos autores clássicos a esperar da pintura um alto grau de fidelidade à natureza e uma busca da forma perfeita. Giotto, que empreendeu muitos avanços na questão do naturalismo, é situado por alguns no início da tradição renascentista; é mais coerente, porém, atribuir uma tal posição a Masaccio, que trouxe aos problemas de representação um novo rigor científico. Masaccio, assim como seus amigos Brunelleschi e Donatello, era florentino; é razoável, portanto, considerarmos Florença como o berço da Renascença, e o período por volta de 1425, quando esses artistas realizavam algumas de suas obras mais inovadoras, como o principal ponto de mutação na arte européia.

O termo “Alta Renascença” é aplicado ao breve período (~1500–1520) em que os séculos posteriores testemunharam a realização de todos os ideais que os pintores vinham buscando desde Giotto; Leonardo da Vinci (1452–1519), Michelangelo e Rafael (1483–1520) são os grandes personagens da época. Vasari nota que a perfeita maestria de meios atingida nesse período deu origem a um estilo fluente e uma harmonia graciosa que se colocam em agudo contraste com os tensos esforços das gerações precedentes. O duro contorno escultural das figuras cede lugar à modelagem doce (sfumato) de Da Vinci; a rígida simetria de Pietro Perugino (1445/50–1523) é substituída pela variedade equilibrada das composições piramidais de Rafael.

Aplica-se o termo Renascença setentrional à transmissão dos ideais e do imaginário italiano ao restante da Europa, mas aqui, novamente, a delimitação perfeita do conceito não é fácil. Ao norte dos Alpes, a pintura desenvolveu-se independentemente do movimento renascentista italiano ao longo de todo o século XV. Houve de fato influências italianas, como a de Andrea Mantegna (1431–1506) sobre o austríaco Michael Pacher (ativo entre 1465–1498), mas não passaram de exceções. A aceitação dos ideais renascentistas como tais deveu-se ao esforço consciente de um punhado de pessoas, sobretudo de Albrecht Dürer (1471–1528), que tomou como missão o trabalho de transplantar as artes “renascidas” na Itália em solo germânico. Dürer esteve na Itália duas vezes, com o objetivo de aprender os “segredos” dos mestres italianos, isto é, os princípios matemáticos de perspectiva e proporção; e lutou por toda a vida, tanto em seus escritos teóricos como em sua arte, para desvendar o mistério da beleza clássica.

Os Países Baixos, em que a tradição gótica era arraigada, demoraram para aceitar a Renascença, e o fizeram de início apenas por intermédio das gravuras de Dürer. Lucas van Leyden (1494–1533) é o artista que melhor representa essa fase. Na obra de Quentin Massys (1465–1530), encontramos a influência direta da obra de Da Vinci, tanto nos tipos, como no tratamento. Mas só viajando para a Itália os flamengos experimentaram todo o impacto da Renascença: Jan Gossaert (1478–1533) procurou, de modo um tanto ostensivo, imitar a estatuária clássica; Jan van Scorel (1495–1562) absorveu algo do equilíbrio e da serenidade meridionais.

Os imitadores tardios da pintura italiana, com Maerten van Heemskerck (1498–1574) e os irmãos Frans Floris (1516–1570) e Cornelis (1514–1575), pertencem mais ao Maneirismo que à Renascença. O mesmo pode ser dito da pintura francesa. Houve um forte influxo de influência renascentista na França por volta de 1500, após as campanhas italianas de Luís XII (1462–1515) e de Francisco I (1494–1547), mas Francesco Primaticcio (1504–1570) e Rosso Fiorentino (1495–1540), chamados a Fontainebleau por Francisco I, não são menos maneiristas que Benvenuto Cellini (1500–1571), pelo que a Escola de Fontainebleau não pode ser vista como manifestação dos puros ideais renascentistas, assim como não o pode o estilo retratístico palaciano da família Clouet.

Essas distinções refletem uma vez mais a intangibilidade do termo Renascença, especialmente quando aplicado à Europa setentrional. Ainda que, em referência à literatura e ao pensamento, falemos da Renascença da Inglaterra elisabetana, poucos historiadores da arte hoje considerariam pintores como Nicholas Hilliard (1547–1619) ou Hans Eworth (1520–1573) como representantes do estilo renascentista. Como seus contemporâneos franceses, esses artistas encarnam rígidos ideais palacianos, em tudo distantes dos amplos interesses e do espírito de aventura intelectual que deram origem à Renascença florentina.





Referências

CHILVERS, Ian. [Verbete Renascença, extraído do] Dicionário Oxford de Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 443–444.