A ação russa contemporânea no Ártico: a combinação do eixo econômico ao eixo geopolítico no incremento da capacidade dissuasória da Frota do Mar do Norte

A ação russa contemporânea no Ártico: a combinação do eixo econômico ao eixo geopolítico no incremento da capacidade dissuasória da Frota do Mar do Norte

Após anos de declínio relativo no período imediatamente posterior à queda da União Soviética, a Federação da Rússia voltou, com a ascensão de Vladmir Putin à presidência, a buscar uma predominância geopolítica no seu espaço imediatamente fronteiriço. Isso significou um processo de reconstrução econômica, reformas políticas e uma profunda revisão da estrutura militar daquele país. Se na primeira década “putinista” a Rússia teve um comportamento integrativo e com boas interações com o ocidente, a partir de 2008 algumas tensões começaram a se acumular no relacionamento entre Moscou e os países ocidentais.

A partir de 2012 a Rússia passou a adotar uma estratégia mais agressiva na região do Ártico, tanto como forma de contenção do aumento das ações ocidentais naquela região (e aproveitando ainda os efeitos da mudança climática sobre as rotas navais polares) quanto pelo incremento de sua capacidade de exploração de recursos econômicos estratégicos na região. Em 2014, por sua vez, a Rússia promoveu a incorporação da Crimeia ao seu território, após a secessão que essa parcela de território promoveu em relação à Ucrânia. Embora sejam áreas geográficas distantes entre si e com perfis geográficos bem diferentes, ambos os casos guardam uma mesma estratégia geopolítica: a proteção das estepes russas, que se estendem da fronteira com Báltico-Polônia-Ucrânia à base dos Montes Urais (num corte leste-oeste), e do Mar de Barents-Península de Kola até o triângulo geográfico Crimeia-Cáspio-Cáucaso (num corte norte-sul).

Tais regiões trazem enormes vulnerabilidades para a Federação: ao norte, apesar do congelamento frequente, a presença de nações rivais ao longo do Golfo da Finlândia, bem como a presença maciça da OTAN na região ártica, são ameaças constantes à heartland russa; ao sul, a Crimeia era um último bastião defensivo da foz do rio Don, vetor navegável que permite potencialmente uma invasão anfíbia maciça diretamente no coração político da Rússia (trazendo riscos diretos inclusive a Moscou). Dessa forma, e considerando essas dificuldades, Moscou não apenas incrementou sua presença estatal na região, mas também buscou ampliar a sua capacidade dissuasória no extremo norte, com foco no Ártico, e no extremo sudoeste (Crimeia), com foco no Mar Negro.

Entorno periférico da Rússia

Aqui há que se fazer uma consideração: por terem perfis climáticos diferentes, as estratégias dissuasórias convencionais aplicáveis em cada região são diferentes, sendo o vetor submarino o principal do Ártico (por seus mares congelados a maior parte do ano) e o vetor aeronaval o principal do Mar Negro (por serem mares “quentes” e portanto navegáveis com facilidade durante todo o ano). As Frotas do Mar Negro, do Báltico e do Mar do Norte ganharam, assim, importância fundamental na estratégia naval dissuasória da Rússia.

Embora existam ainda mais duas grandes forças navais russas – a Flotilha do Cáspio e a Frota do Pacífico – uma fica em mar interno (com baixa conexão com outros mares) e a outra fica em Vladivostok, distante demais da heartland russa. Dessa forma, a distribuição das forças dissuasórias convencionais nas Frotas do Mar do Norte, do Báltico e do Mar Negro corresponde a essa necessidade de contenção da ameaça ocidental. Essa lógica estratégica faz sentido no contexto da geografia diversificada da Rússia, em virtude de seu tamanho, mas considerando que, embora seja um país bi-continental, a subdivisão territorial russa torna-se simplificada ao se separarem os vazios demográficos da Rússia na Ásia da parte mais estratégica do país na Europa.

Ao mesmo tempo, o elemento econômico torna-se cada vez mais relevante na ação geopolítica da Rússia no Ártico: a riqueza de recursos naturais na região tem sido cada vez mais exposta com o degelo regional provocado pelo aquecimento global, e grandes players globais (em especial os Estados Unidos) têm buscado aumentar sua de presença na região. Adicionalmente, a passagem noroeste torna-se uma fundamental rota de transporte e fluxo de comércio internacional, e passa por parte do mar territorial da Rússia. Essa rota encurta significativamente o comércio entre a Ásia-Pacífico e o ocidente, e o aquecimento global torna essa rota navegável por mais meses durante o ano.

A Rota do Ártico entre a Ásia e a Europa

Além da questão puramente econômica do Ártico para a Rússia (que vem cada vez mais tentando lucrar com a autorização de navegação comercial em suas águas, com apoio dos seus quebra-gelo nucleares), há ainda uma questão estratégico-econômica relevante: a navegação livre no Mar do Norte, através da passagem noroeste, é uma vulnerabilidade de segurança, porque embarcações com equipamentos de espionagem teriam a possibilidade de se aproximar do território russo do norte, até então isolado pelo gelo, criando tensões em proximidade de áreas estratégicas como as estruturas submarinas na península de Kola.

A partir dessa percepção, pretendo fazer a partir daqui uma análise estratégica dos meios dissuasórios navais da Rússia designados para a Frota do Mar do Norte, considerando que o defensivismo russo opera também a partir ações ofensivas, em retaliação a ações ocidentais a partir do Ártico. Não pretendo considerar nessa análise outros meios dissuasórios que a Rússia possui nessa macrorregião (dissuasão nuclear, dissuasão aérea – bombardeio estratégico, dissuasão terrestre), para focar nos meios que têm relação com meu projeto de pesquisa no PPGEEI. Da mesma forma, apesar de focar na questão de dissuasão naval a partir do espaço polar, não pretendo analisar de forma direta outras frotas da Rússia além das do Mar do Norte, porque esta é uma das duas únicas frotas que estão inseridas na macroestratégia russa para o Ártico, sendo a mais próxima do cenário estratégico.

O cenário estratégico do Ártico

A região do Ártico ocupa o extremo norte do orbe terrestre, e é composta pelo Oceano Ártico como ponto central, e por territórios navais e terrestres da Rússia, Estados Unidos (Alasca), Canadá e dos países nórdicos (Finlândia, Noruega, Suécia, Islândia e Dinamarca, que ocupa posição no Ártico a partir da ilha da Groenlândia). Por ser uma região de ocupação rarefeita, e só em tempos recentes exposta a degelo, tornou-se estratégica com a descoberta de recursos econômicos no leito marinho, e da criação de rotas alternativas de transporte entre ocidente e a Ásia-Pacífico.

Em termos estratégicos internacionais, a região é sujeita a um grau elevado (e cada vez mais crescente) de tensão e rivalidade, por quatro motivos primordiais:

  1. A região é uma zona fronteiriça entre 7 países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a Rússia, principal rival da aliança militar ocidental;
  2. A região é um caminho alternativo (e mais curto) entre o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico, interessando assim a players externos como China e Japão além dos próprios atores da região;
  3. O degelo do Ártico tem possibilitado a descoberta de recursos minerais, óleo e gás, bem como recursos pesqueiros abundantes, entre eles a Cordilheira Subaquática de Lomonosov, criando uma tensão econômica entre os países da região e os players extrarregionais;
  4. Tradicionalmente, a região sempre foi um tabuleiro estratégico da guerra nuclear entre EUA e URSS/Rússia, bem como uma área intensa de guerra submarina e antissubmarino (ASW);

Em virtude dos motivos acima identificados, o cenário estratégico na região é complexo e, por sua vital (e crescente) importância, uma área preferencial para a aplicação de conceitos e sistemas de dissuasão, seja ela convencional, seja ela nuclear.

Adicionalmente, como referido na introdução, a economia segue sendo um elemento fundamental de compreensão da ação geopolítica da Rússia no Ártico: recursos naturais abundantes e a passagem noroeste, cada vez mais expostas com o degelo regional provocado pelo aquecimento global, tem feito com que grandes players globais ampliem seu interesse e suas ações na região. A rota de transporte e fluxo de comércio internacional conhecida como Rota Noroeste, que passa por parte do mar territorial da Rússia e encurta significativamente o comércio entre a Ásia-Pacífico e o ocidente, tem sido cada vez mais utilizada com o degelo por mais tempo no ano. Há ainda a importante ação chinesa de busca de construção de uma “Rota Polar da Seda” aproveitando essa passagem, pra ligar a mainland chinesa à Europa com menos riscos geopolíticos. No entanto, apesar da aliança pragmática entre China e Rússia (em torno inclusive da Organização da Cooperação de Shanghai), Moscou segue desconfiando das intenções chinesas, motivo pelo qual mesmo a participação de Beijing nas discussões sobre o Ártico contam com algumas resistências por parte da Federação.

A Rússia, historicamente construída em torno de um estado de “paranoia” e constante tensionamento defensivo, busca incrementar seu poder e capacidade operacional no Ártico considerando as características intrínsecas da região. A principal frota naval russa na região – a Frota do Mar do Norte – possui as principais bases de submarinos do país, distribuídas ao longo da costa do oblast de Murmansk na península de Kola, voltada para o Mar de Barents (um dos mares adjacentes ao Oceano Ártico). A escolha desse meio dissuasório não é aleatória: por passar a maior parte do ano congelado, o Oceano Ártico é o ambiente ideal para a guerra submarina, que mantém a capacidade operacional durante todo o ano, por operar submerso.

Oblast de Murmansque

Sua condição fronteiriça com a OTAN –  e a tendência da Rússia de percepção de ameaça ocidental permanente – faz com que Moscou não abra mão desse meio dissuasório. A intenção não é especificamente defender a heartland russa de uma invasão pelo Ártico, mas sim manter uma capacidade de retaliação global a partir das bases no Ártico.

A lógica estratégica é a seguinte: caso a Rússia seja atacada – por qualquer meio – pela aliança ocidental, os submarinos russos podem retaliar na Europa, no Mediterrâneo ou em ambas as costas dos Estados Unidos a partir do Ártico, por ser a região logistica e facilmente  conectada a esses territórios, em especial através de meios submarinos, que não enfrentam as mesmas dificuldades operacionais de meios de superfície.

A estrutura dissuasória da Rússia no Ártico

A Frota do Mar do Norte possui, em termos de guerra submarina, uma capacidade dissuasória considerável, com pelo menos 30 submarinos das mais variadas classes, incluindo submarinos convencionais diesel-elétricos (classes Lada e Kilo), submarinos de ataque com propulsão nuclear (classes Akula, Sierra, Victor III) e submarinos com propulsão nuclear e capacidade balística (classes Yasen, Oscar, Delta, Dolgoruikiy e Typhoon), além de uma nova classe de “submarinos espiões” AS-31 Losharik, ainda pouco conhecido dos analistas ocidentais.

A variabilidade de funções e capacidades desses equipamentos faz com que a capacidade de dissuasão e retaliação dissuasória – considerando apenas a guerra submarina – seja enorme. São diversos tipos de submarinos de ataque e estratégicos, alguns com propulsão nuclear, em números suficientes para fazer sombra aos meios de guerra naval da OTAN no Atlântico Norte.

Para além da capacidade submarina (apenas a título exemplificativo) a Frota do Mar do Norte ainda é base para navios antissubmarino da classe Udaloy I/II, fragatas da classe Gorshkov, cruzadores da classe Kirov e o navio-aeródromo Kuznetsov, além de corvetas, navios de desembarque anfíbio, navios-varredores e componentes aeroterrestres para dar apoio às operações navais (e, estas sim, fazerem as vezes de força de defesa territorial).

A localização central da Península de Kola na região do Ártico é um importante asset para a estratégia dissuasória/retaliatória da Rússia: mares congelados oferecem ocultação de meios, dificuldade operacional de superfície e impossibilidade de incursão expedicionária massiva através daquela região. Além disso, a quase exclusividade de operação russa na região do Mar de Barents contrasta com a dificuldade operacional que a outra frota naval russa na região norte – a Frota do Báltico – possui, ao operar no Golfo da Finlândia, em espaço operacional exíguo e cercado de inimigos e águas de baixa profundidade. A proximidade da terra num mar que não chega a congelar em sua totalidade (Báltico, em comparação com o congelamento de Barents ou de mares mais ao norte) também dificulta a operacionalidade plena e oculta a partir da Frota do Báltico, tornando a Frota do mar do Norte por excelência a espinha dorsal da capacidade dissuasória da Rússia em termos de guerra submarina.

A baixa capacidade de alerta antecipado da OTAN na passagem da Groenlândia também dificulta a identificação e target acquiring de submarinos russos saídos de Kola. Mesmo a ação dos submarinos da OTAN – em especial os americanos – na região acaba prejudicada por uma série de artifícios que os submarinistas russos desenvolveram ao longo das décadas operando permanentemente na região: além de sonoboias e instrumentos microeletrônicos, os russos possuem amplo conhecimento da geografia do leito marinho na região que não apenas rivaliza, mas supera, suas contrapartes ocidentais.

Considerações finais

Com base no que expus ao longo da presente análise, a formação da mentalidade militar russa com base no defensivismo, sua necessidade de manter a vantagem estratégica a partir de uma retaliação dissuasória e suas vantagens competitivas de guerra submarina a partir do Ártico fazem da Frota do Mar do Norte da Rússia a raison d’être da estratégia dissuasória submarina daquele país, com notável diferencial competitivo em relação a outros contendores.

Somado a isso, a atual conjuntura geopolítica do Ártico (sobretudo com o degelo provocado pelo aquecimento global) envolve questões de economia, para além das questões militares, que vêm sendo acompanhadas por Moscou com apreensão, justificando assim a ampliação da presença russa em termos de dissuasão.


Milton Deiró

Milton Deiró

Doutorando em Estudos Estratégicos Internacionais na UFRGS. Mestre e especialista em Relações Internacionais pela UFBA. Consultor e pesquisador do Centro de Defesa e Segurança do SENAI CIMATEC.

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