Investimentos Diretos Externos Chineses: transição tecnológica, CPEC 2.0 e sua institucionalização

Investimentos Diretos Externos Chineses: transição tecnológica, CPEC 2.0 e sua institucionalização

Introdução

O Sistema Internacional atravessa, desde os anos 70, um processo de transição sistêmica que tem como base o desenvolvimento tecnológico no âmbito da pesquisa e inovação, conforme  apontado por Schumpeter. A China amplia sua inserção global de forma mais autônoma a partir do desenvolvimento de novas tecnologias como a 5G, em vias de alcançar a 6G, dentro da política do Made in China 2025 da 4ᵃ Revolução Industrial.[1]

Assim, compreender os Investimentos Diretos Externos (IDE) chineses no século XXI é fundamental para entender a dinâmica da nova ordem global em vigência (STUENKEL, 2018). Nesse sentido, o professor Javier Vadell afirma:

Esta iniciativa [Belt and Road Initiative (BRI)] implica, en gran medida, un desafío directo a la globalización neoliberal y una propuesta de interconectividad que surge como iniciativa regional y se expande como proyecto global y abierto de China, reconfigurando la geografia económica por medio de masivas inversiones en infraestructura que no tienen precedente. […] La iniciativa apunta a la construcción de rutas, ferrocarriles, gasoductos y oleoductos, puertos y nuevas rutas aéreas con el objetivo de crear lazos de cooperación comercial y estimular la producción y la interconectividad. Por otro lado, también se pretende estimular la “Ruta de la Seda digital” (Digital Silk Road) por medio de la cooperación en economía digital, inteligencia artificial, computación en la nube y ciudades inteligentes (Eclac, 2018). (VADELL, p. 127; 2020).

 Os resultados dessa Iniciativa apontam para uma reformulação das relações internacionais contemporâneas na medida em que constrói um espaço de ascensão da semiperiferia e da periferia no sistema internacional capitalista estruturado nas capacidades ociosas de oferta e demanda a partir do rejuvenescimento chinês[2]. Um exemplo dessa nova dinâmica proposta pelo modelo da China está baseado no desenvolvimento da 5G dentro da perspectiva da Digital Silk Road.

Concomitante a isso, o Paquistão contextualiza de forma exemplar essa nova dinâmica proposta pela Belt and Road Initiative (BRI). O desenvolvimento do sistema Beidou no controle via satélites no espaço aéreo paquistanês, em substituição à rede Global Positioning System (GPS) dos Estados Unidos, é uma nítida demonstração de que a ordem paralela está sendo formulada com uma capacidade de inovação diferenciada[3].

Além disso, ao trabalhar com novas tecnologias, é imprescindível relacionar isso à infraestrutura e à energia. Ou seja, verifica-se, por exemplo, que a República Popular da China tem trabalhado de maneira ativa em novas formas de ampliar sua estratégia de inserção internacional. A Iniciativa Cinturão e Rota, acordos bilaterais de swaps cambiais, o sistema Beidou, o 5G e bancos de fomento são todos exemplos da forma com a qual o Estado chinês tem identificado uma nova plataforma de atuação, se inserindo com novas alternativas ao sistema ainda vigente.

A demanda por infraestrutura de países da semiperiferia e da periferia tem servido como fonte de expansão para a exportação de mão de obra chinesa, tecnologia de ponta, bem como para a consolidação de parques tecnológicos chineses em outros países. Como exemplo, tem-se o Estado do Paquistão, a partir das Zonas Econômicas Especiais, baseadas no modelo chinês de desenvolvimento e crescimento econômico.[4]

A transição tecnológica, o CPEC 2.0 e a institucionalização

Ao trabalhar-se com a BRI, torna-se necessário compreender a dinâmica do China-Pakistan Economic Corridor (CPEC) como um estudo de caso a ser explorado na área das Relações Internacionais e dos Estudos Estratégicos Internacionais. A fase 1 deste Corredor, entre 2015 e 2019, apontou para uma maior capacidade institucional emoldurada por empresas, bancos de financiamento da China e pelo próprio Estado chinês.[5]

No plano do país receptor do IDE chinês, a alteração da política interna do Paquistão nas eleições de 2018 com a derrota do partido de Nawas Sharif e com a vitória do ex-jogador de críquete, Imran Khan, foi identificada como um momento de instabilidade nos aspectos da presença chinesa nos projetos de infraestrutura em território paquistanês. Apoiado pela política de Donald Trump, o Fundo Monetário Internacional (FMI) realizou um estudo no qual anunciou que o grande problema da dívida pública interna e externa do Paquistão estava diretamente vinculada à política de financiamento com juros altíssimos pagos às empresas e ao Estado chinês na ótica da BRI. 

Em contrapartida, Khan, contrariando seu próprio discurso de revisão do CPEC, realizou sua primeira visita diplomática na China, reforçando os projetos de infraestrutura mas solicitando que houvesse a inclusão, especialmente, do setor primário na fase 2 do Corredor. Sendo assim, a fase 2, que corresponde ao período de 2020 a 2025, reflete uma gama de projetos mais ampla no desenvolvimento de todos os setores do país, baseados amplamente em cooperação através da inovação tecnológica chinesa.[6]

O aporte para os investimentos no Paquistão têm sido alicerçados na dinâmica chinesa, conforme elucidado por Javier Vadell:

El financiamiento de la iniciativa de la franja y la ruta está siendo realizado por medio de la red multilateral de Bancos liderada por China. Las principales entidades bancarias son: 1) Fondo de la Ruta de la Seda (Silk Road Fund); 2) Banco de Desarrollo de China (China Development Bank); 3) el Cexim de China (Export-Import Bank of China); 4) el Banco Asiático de Inversiones en Infraestructura (BAII) (Asian Infraestructure Investment Bank); 5) Nuevo Banco de Desarrollo de los Brics (NBD) junto con el Acuerdo de Reservas de Contingencia (ARC) (VADELL, p. 127, 2020).

De acordo com o autor, os resultados do Corredor até o presente momento refletem a percepção de que há determinada reformulação do espaço político, econômico, de segurança e de defesa, especialmente no Leste Asiático, reforçando a ideia de um mundo multipolar[7]. Os próprios acordos de swaps cambial entre a China e o Paquistão, “livre do dólar estadunidense”, identificam um dos fatores preponderantes do rejuvenescimento chinês.[8]

Nesse sentido, nota-se que a primeira Fase do CPEC foi projetada em seu portfólio de projetos para criar as bases de comunicação em infraestrutura, alocando os investimentos conforme a Figura 1:

Fonte: CPEC fact sheet: 2013-2020 by IMC & Wali Zahid. Wali Zahid, 24 oct. 2020. Disponívelem: https://walizahid.com/blog/cpec-fact-sheet-2013-2020. Acesso em: 13 mar. 2021.

Desta forma, conforme ilustrado na Figura 1, os projetos eram voltados especialmente a interconectar a fronteira do Paquistão com a China, passando pela capital federal paquistanesa Islamabad até os portos de Karachi e Gwadar. Identifica-se, nesse portifólio de projetos em infraestrutura, o potencial em setores ligados às energias renováveis, a ferrovias de alta velocidade, aos portos de Karachi, à construção final do Porto de Gwadar, bem como à construção do moderno aeroporto de Gwadar. O setor energético tem sido a prioridade do governo Paquistanês em prol da busca pelos investimentos diretos chineses. Com isso, pretende-se, até o ano de 2025, que o país não seja mais dependente da importação de energia, tendo capacidade de produção energética internamente.  

A partir da segunda fase, 2020-2025, a prioridade passa a ser a industrialização e o desenvolvimento da agricultura de auto precisão. Segundo o jornal The News “[…] as indústrias de processamento e manufatura serão desenvolvidas e serão feitos esforços para garantir a melhoria dos meios de subsistência das pessoas e equilibrar o desenvolvimento econômico regional”[9]. O setor primário passou a compor a agenda do CPEC com Kahn em 2018. Enquanto isso, o setor terciário fez parte desde o início do Corredor, no momento dos Memorandos de Entendimento entre o então Primeiro-Ministro do Paquistão, Nawaz Sharif, e o Presidente Xi Jinping no ano de 2015. 

 A atual fase do Corredor apresenta o desenvolvimento nos mais diversos setores, refletindo um ambiente de amplo crescimento dos investimentos baseados na institucionalização dos projetos. Atrelado a isso, pode identificar, conforme a figura 2 abaixo, que o portfólio atualizado do CPEC é muito mais abrangente que a fase 1.

Fonte: CPEC Project. Marina Enclave, Paquistão, 2019. Disponível em:  https://www.marinaenclave.pk/cpec-project. Acesso em: 13 mar. 2021.

Portanto, os projetos mencionados acima demonstram um maior grau em números dos investimentos e uma maior diversidade de setores envolvidos no Corredor. A longa parceria estratégica entre a China e o Paquistão sai do plano exclusivo de defesa e segurança, incluindo, em especial no CPEC, a economia para o desenvolvimento a partir dos Investimentos Diretos Externos. Isso gerou um ambiente de maior integração e cooperação entre os dois estados, bem como com a região do Leste Asiático[10].

Dentro desta perspectiva, as Zonas Econômicas Especiais (ZEE) são a prioridade da fase 2 do Corredor. Tendo em vista a inovação rumo à transição tecnológica protagonizada pela China em nível global, o aporte econômico dá ao CPEC a garantia de que os projetos sejam de fato finalizados e que o Paquistão conquiste uma maior independência nos mais diversos setores. Assim, a “[…] grande potência de apoio [China] poderá ajudar o Paquistão a enfrentar seus desafios de segurança, política externa e necessidades de desenvolvimento econômico”.[11]

Considerações finais

Nota-se que o CPEC 2.0 aponta para um grau elevado de amadurecimento dos Investimentos Diretos Externos da China em solo paquistanês. Ou seja, a busca pelo desenvolvimento de inovação e novas tecnologias representa um importante mecanismo para a transição tecnológica, tendo no Paquistão uma base de testes para os mais diversos investimentos. O desenvolvimento institucional alicerçado em uma agenda ampla de projetos vinculados à Indústria 4.0 aponta para um novo protagonista do sistema internacional – a China.

Tendo como base o 13º Plano Quinquenal Chinês, as políticas de Going Global 1.0 iniciadas no ano de 2001 e 2.0, no ano de 2010, deram base à Iniciativa Cinturão e Rota, levada a cabo através dos bancos estatais chineses, propulsores dos IDE’s nas mais diversas regiões da sistema internacional contemporâneo. Compreender a estratégia chinesa, através da transição tecnológica e de seu ambiente institucional, desafia a todas e todos os pesquisadores da área, uma vez que não é possível compreender o século XXI sem que sejam cada vez mais bem identificados os planos e projetos estratégicos chineses rumo a uma nova ordem global.[12]


FONTES

Ilustração do título

CPEC Phase II set to initiate an era of Industrialization in Pakistan. CPEC Info. Paquistão, 21 dec. 2020. Disponível em: http://cpecinfo.com/cpec-phase-ii-set-to-initiate-an-era-of-industrialization-in-pakistan/. Acesso em: 13 mar. 2020.


Notícias

‘2ND PHASE of CPEC to initiate industrialisation’. The News International. 29 dec. 2020. Disponível em: https://www.thenews.com.pk/print/766034-2nd-phase-of-cpec-to-initiate-industrialisation. Acesso em: 13 mar. 2021.

CPEC Phase II. The News International. 16 aug. 2020. Disponível em: https://www.thenews.com.pk/print/701056-cpec-phase-ii. Acesso em: 13 mar. 2021.

CPEC Project. Marina Enclave, Paquistão, 2019. Disponível em:  https://www.marinaenclave.pk/cpec-project. Acesso em: 13 mar. 2021.

PAQUISTÃO. CPEC – China–Pakistan Economic Corridor. Paquistão, 2020. Disponível em: http://cpec.gov.pk/. Acesso em: 13 mar. 2021.


Referências Bibliográficas

BUENO, Eduardo. Paradigmas Técnico-Econômicos, Pactos de Elites e o Sistema Monetário Internacional. Porto Alegre: UFRGS, 2009.

CPEC fact sheet: 2013-2020 by IMC & Wali Zahid. Wali Zahid, 24 oct. 2020. Disponível em: https://walizahid.com/blog/cpec-fact-sheet-2013-2020. Acesso em: 13 mar. 2021.

DUNNING, John H. Regions, Globalization, and the Knowlwdge-Based Economy. Oxford: Oxford University Press, 2003.

FIALHO, V. L. Investimentos diretos externos chineses no Paquistão (1965-2018): financiando a infraestrutura para o desenvolvimento. Porto Alegre: UFRGS, 2020.

GUIMARÃES, Samuel Pinheiro. Desafios brasileiros na era de gigantes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005.

HAINES, A.; FIALHO, V. L. PORTO DE GWADAR: UM EIXO ESTRATÉGICO PARA AS RELAÇÕES PAQUISTÃO-CHINA. Conjuntura Austral. Revista do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais da UFRGS, v.10, p. 80-99, Porto Alegre, 2019.

HARVEY, David. A Loucura da Razão Econômica: Marx e o capital no século XXI. Tradução: Artur Renzo. 1 ed. São Paulo: Boitempo, 2018.

HUSSAIN, Touqir. China and Pakistan – From Tactical Alliance to Strategic and Economic Interdependence. Paquistão, 2020. Disponível em: https://www.isas.nus.edu.sg/wp-content/uploads/2020/09/SADP-Navigating-India-China-Full-Final. Acesso em: 13 mar. 2021.

KHAN, Yasir H. CPEC-BRI global appeal, survivability. The Nation. Paquistão, 20 apr. 2018. Disponível em: https://nation.com.pk/20-Apr-2018/cpec-bri-global-appeal-survivability. Acesso em: 13 mar. 2021.

MUMTAZ, Muhammad. We need Quaid-i-Azam’s Pakistan: As history shows, periods of chaos have followed military rule, because the general’s left behind them systems that did not have the people’s consent. Daily Morning Mail. Ago. 2018. Disponível em: https://morning.pk/story/28804. Acesso em: 13 mar. 2021.

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WALLERSTEIN, Immanuel. Geopolitics and geoculture. Cambridge: Cambridge University Press, 1992.


[1] (SCHUMPETER, 1984; SCHUMPETER, 1954; PAUTASSO, 2019).

[2] (HARVEY, 2018; WALLERSTEIN, 1992)

[3] (FIALHO, 2020).  

[4] (PEREZ, 1983; PEREZ, 2002; SCHUMPETER, 1984; SCHUMPETER, 1954; BUENO, 2009).

[5]  (HAINES; FIALHO, 2019; PAUTASSO, UNGARETTI, 2017).

[6] (MUMTAZ; 2018; KHAN; 2018).

[7] (WALLERSTEIN, 1992; GUIMARÃES, 2006)

[8] (STUENKEL, 2018; VADELL, 2018; PAUTASSO, 2019).

[9] (THE NEWS, s/p, 2020. Tradução própria)

[10]  (DUNNING, 2003)

[11]  (HUSSAIN, p. 58, 2020).

[12] (HAINES, s/d; STUENKEL, 2018).

Vinicius Lerina Fialho

Vinicius Lerina Fialho

Mestre em Estudos Estratégicos Internacionais pelo Programa de Pós Graduação em Estudos Estratégicos (PPGEEI-UFRGS). Áreas de interesse: Economia Política Internacional. No Nebrics, estuda os Investimentos Diretos Externos Chineses financiando a infraestrutura para o desenvolvimento

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