Fabiane de Oliveira Dorneles
O primeiro indício de um jogo similar a atual Bocha Paralímpica é datado de alguns séculos antes de Cristo. Foi encontrado no túmulo de um jovem egípcio duas bolas de pedra, um pouco maiores do que bolas de tênis, próximas de uma bola menor, compreendida como uma bola alvo.
Há também referências gregas e romanas de práticas do jogo com bolas envoltas em pele, que chegou a ser incluído nos Jogos Olímpicos antigos, identificado como um jogo de “atirar bola ao ar”. Mais tarde, o jogo foi reconhecido e introduzido na costa florentina, no século XVI, pela aristocracia italiana como forma de passatempo.
No entanto, somente na década de 1970, este esporte foi resgatado pelos países nórdicos com o intuito de adaptá-lo a pessoas com deficiência. Num primeiro momento, ele era voltado para pessoas com paralisia cerebral com grave grau de comprometimento nos quatro membros e que usassem cadeira de rodas. Atualmente, pessoas com outras deficiências específicas e que apresentam também o mesmo grau de deficiência, similar ao quadro grave de paralisia cerebral, ou seja, um quadro de tetraplegia.
A introdução do jogo de Bocha como modalidade paralímpica aconteceu apenas em 1984, com disputas individuais no feminino e no masculino. Em Atlanta (1996) foram incluídas as competições em duplas. Somente em Atenas (2004) foi permitida a participação de atletas na categoria BC4 referente a pessoas que apresentam deficiências de origem não cerebral.
No Brasil, o jogo de Bocha ficou conhecido a partir de 1995, quando dois atletas, inscritos para o atletismo nos Jogos Panamericanos de Mar Del Plata, aceitaram participar, de improviso, da competição de Bocha, visando a aprendizagem para posterior implantação da modalidade. Eles obtiveram o 1º lugar em duas categorias.
As competições no Brasil seguem um calendário de Campeonatos Regionais e Brasileiro e Jogos Abertos de Fomento. A modalidade hoje está sendo desenvolvida em diversas faixas etárias, da categoria escolar até a terceira idade. Cabem a ANDE (Associação Nacional de Desporto para Deficientes) a administração e organização de competições oficiais de Bocha, tanto em nível nacional quanto internacional.
Para os competidores de elite, que participam de Campeonatos Internacionais, as competições obedecem a um ciclo de quatro anos. A cada ano é realizado um grande evento internacional, acontecendo em um ano o Campeonato da Europa e o Parapanamericano, seguidos do Campeonato Mundial, Campeonato da Copa do Mundo e por último dos Jogos Paralímpicos. As regras do jogo de Bocha são determinadas pela CP-ISRA (Cerebral Palsy – International Sports and Recreation Assoociation) e são revisadas a cada quatro anos, geralmente, logo após as Paralimpíadas. O Brasil estreou em Pequim-2008, com duas medalhas de ouro e uma de bronze. E em Londres-2012, o país conquistou outros três ouros e um bronze.
O jogo requer planejamento e estratégia na tentativa de colocar o maior número de bolas próximo à bola alvo. Há três maneiras de se praticar o esporte: individualmente, em dupla e em equipe. Importa ressaltar que ele pode ser facilmente adaptado para jogadores com maiores limitações funcionais, fazendo uso de dispositivos auxiliares, tais como rampas ou calhas e capacetes com ponteiras.
Competem na Bocha Paralímpica atletas com paralisia cerebral severa ou outras deficiências que utilizem cadeira de rodas como, distrofia muscular, AVC, dano cerebral com função motora progressiva, esclerose múltipla, ataxia de Friedrich, lesão medular com tetraplegia. O objetivo do jogo é lançar bolas de uma determinada cor (vermelha ou azul) o mais perto possível de uma bola branca chamada de “Jack”, conhecida no Brasil como “bolim”.
Antes de começar a partida, o árbitro tira na moeda (cara e coroa) o direito de escolha para competir com as bolas de couro vermelhas ou azuis. O lado que escolhe as vermelha inicia a disputa, jogando primeiro o “bolim” e em seguida uma bola vermelha.
Logo após, o árbitro autoriza a outra equipe, ou jogador, a efetuar o lançamento da bola azul. Aquela equipe, ou jogador, que lançar sua bola a uma maior distância do “bolim” permanece jogando até que uma bola sua passe a estar mais próxima do “bolim”, do que a bola adversária.
Para ganhar um ponto, o atleta deve jogar a bola o mais próximo do “bolim”. Caso este mesmo jogador tenha colocado outras esferas mais próximas do alvo, cada uma delas também vale um ponto. Se duas bolas de cores diferentes ficam à mesma distância da esfera branca, os dois lados recebem um ponto. Vence quem acumula a maior pontuação.
As partidas são divididas em ends, que só terminam após todas as bolas serem lançadas. Um limite de tempo é estabelecido por end, de acordo com o tipo de disputa. A contagem começa quando o árbitro indica quem fará o lance até quando a bola para. Nas competições individuais, são quatro ends e os atletas jogam seis esferas em cada um deles. Nas duplas, os confrontos têm quatro partes e cada atleta tem direito a três bolas por período. Quando a disputa é por trios, seis ends compõem as partidas. Neste caso, todos os jogadores têm direito a duas esferas por parte do jogo.
Ao final dos ends, os pontos marcados em cada end são somados e o lado com maior pontuação total é declarado vencedor. Se ao final de uma partida o placar terminar igual, será jogado um end de desempate ou “Tie-Break”. Os pontos marcados no “Tie-Break” de desempate não serão computados na pontuação geral do jogador, servindo apenas para determinar o vencedor.
Para atletas que não conseguem dar à bola uma boa propulsão, pode-se utilizar uma calha, rampa ou caneleta, sem freio ou qualquer outro dispositivo mecânico. O jogador deve ter contato físico direto com a bola imediatamente antes de fazer um lançamento. O contato físico inclui também o ponteiro ou agulha ficada na cabeça, através de uma faixa ou capacete. Essa calha ou rampa é normalmente utilizada por jogadores com maior comprometimento motor, variam de atleta para atleta, de acordo com a funcionalidade do corpo, que permite o lançamento ou a propulsão da bola.
Para jogar a Bocha os jogadores apresentam uma classificação, a fim de tornar o nível da competição o mais próximo possível da igualdade. Portanto, os jogadores com paralisia cerebral são classificados como CP1 ou CP2, bem como atletas com outras deficiências severas (como distrofia muscular), que também são elegíveis para competir na Bocha. Os jogadores podem ser incluídos em quatro classes a depender da classificação funcional:
- BC1: Tanto para arremessadores CP1 como para jogadores CP2. Atletas podem competir com o auxílio de ajudantes, que devem permanecer fora da área de jogo do atleta. O assistente pode apenas estabilizar ou ajustar a cadeira do jogador e entregar a bola a pedido.
- BC2: Para todos os arremessadores CP2. Os jogadores não podem receber assistência.
- BC3: Para jogadores com deficiências muito severas. Os jogadores usam um dispositivo auxiliar e podem ser ajudados por uma pessoa, que deve permanecer na área de jogo do atleta, mas deve se manter de costas para os juízes e evitar olhar para o jogo.
- BC4: Para jogadores com outras deficiências severas, mas que não podem receber auxílio.
A Bocha Paralímpica possibilitou às pessoas com grandes deficiências a oportunidade de poderem ser verdadeiramente incluídas em uma prática esportiva.
Referências
ANDE. Associação Nacional de Desporto para Deficientes. Disponível em: http://www.ande.org.br/. Acesso em 17 de setembro de 2014.
CPB. Comitê Paralímpico Brasileiro. Disponível em: http://www.cpb.org.br/. Acesso em 24 de setembro de 2014.
MELLO, M. T.; WINCLER. C. (Org.). Esporte Paralímpico. São Paulo: Editora Atheneu, 2012.




