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Das saudades que nos habitam

Andréa V. Zanella

Saudade
Melancolia
Nostalgia
Banzo
Solidão


Saudades habitam corpos abertos ao encontro com outros corpos
Saudades esculpem as formas desses corpos, afilam seus perfis
Saudades instituem singularidades em superfícies estriadas aparentemente lisas
Formam, deformam, reformam, conformam
Que saudades te habitam nestes intermináveis dias da presença do que não é possível controlar?
Que saudades já habitavam seu corpo antes do início do que não sabemos quando findará?
O que vem produzindo a mescla de saudades antigas, maiores em duração, com as pequenas ausências cotidianas que se presentificam no seu corpo?
Que saudade mais te dói?
Qual a cor dessa saudade?

Artista: Andréa V Zanella

Título: S/T (da série Filhas de Criação)

Técnica: colagem analógica

Descrição: Nesta colagem trago em diferentes planos a imagem de uma performance do artista catarinense Sérgio Adriano H, da série “O lugar que não pertenço”. O artista apresenta seu corpo negro, nu, em praça pública, sob um pedestal, contrapondo-se e denunciando a predominância de estátuas de homens brancos colonizadores que povoam as praças de cidades brasileiras. Estátuas que contribuem para povoar o inconsciente da própria população com os ideários da branquitude, e que silenciam em relação a corpo outros, invisibilizados. A presença solitária do artista com seu corpo negro resiste a essa lógica, tensionando-a e nos ajudando a lembrar da violência do projeto civilizatório que edificou nossa brasilidade. Às imagens do artista agrego Angelus Novus, de Paul Klee, referenciada por Walter Benjamin em suas teses sobre a história: “Há um quadro de Lee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso” (Benjamin, 1993, p.226).

As imagens estão coladas sobre uma outra imagem, de um simples detalhe, um vestígio. Fotografei a hemorragia produzida por uma porta fechada em tempo indevido na unha de minha filha. O sangue derramado e a topografia que produziu nos ajudam a lembrar que a nossa história, pretensamente única, é edificada com violências de variadas ordens, deliberadamente silenciadas e esquecidas. Uma história pretensamente única, como afirma Chimamanda Ngozi Adichie, produtora de estereótipos: “E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem uma história tornar-se a única história”.

Referências

Adichie, C. N. (2009). O Perigo da História Única. [Vídeo da palestra da escritoranigeriana no evento Technology, Entertainment and Design TED Global 2009]. https://www.ted.com/talks/chimamanda_ngozi_adichie_the_danger_of_a_single_story?language=pt

Benjamin, W. (1994). Sobre o conceito da história. Magia e técnica, Arte e Política. Obras Escolhidas, v.1. São Paulo: Brasiliense.